Cetamina e psicoterapia: como podem participar do mesmo plano de tratamento?

Postado em: 03/10/2026

Profissional com prancheta ao lado de um homem deitado em um sofá, em ambiente de atendimento.

Cetamina e psicoterapia podem participar do cuidado da depressão, com objetivos e acompanhamentos próprios. Há pesquisas que avaliam sua combinação, especialmente com terapia cognitivo-comportamental, a TCC. Ainda é incerto em quais condições acrescentar psicoterapia ajuda a manter a melhora após o tratamento medicamentoso.1,2

Para quem já faz terapia e vai iniciar um tratamento com cetamina, a primeira conversa pode ser bastante concreta: o que será mantido, o que precisa ser revisto e como os profissionais acompanharão as mudanças? Incluir os dois tratamentos no mesmo plano não significa realizá-los na mesma sessão.

O que significa organizar os dois cuidados?

O acompanhamento médico avalia a indicação da medicação, a resposta e os efeitos adversos. A psicoterapia tem seu próprio trabalho, definido com o paciente: por exemplo, compreender o afastamento de atividades, lidar com autocrítica ou encontrar formas de enfrentar dificuldades no cotidiano. Esses objetivos precisam ficar claros, sem exigir que toda sessão de terapia gire em torno das aplicações.

Nos estudos, a organização variou. Em algumas pesquisas, o curso de TCC ocorreu parcialmente no mesmo período das aplicações e continuou depois. Em outra, a etapa comparativa de psicoterapia começou apenas após a resposta inicial à cetamina intravenosa.1,2,3

Isso é psicoterapia assistida por cetamina?

A expressão pode aparecer em propostas com modelos próprios de preparação, intervenção psicoterápica e acompanhamento ligados à administração da substância. Para entender uma proposta concreta, é necessário perguntar o que acontece em cada etapa, com quem e em quais condições.

Fazer psicoterapia no período em que se recebe cetamina não demonstra que houve terapia durante seus efeitos agudos. Os estudos com TCC discutidos abaixo não validam genericamente uma sessão psicoterápica realizada durante a aplicação, nem estabelecem um intervalo obrigatório para que a psicoterapia funcione.1,2,3

Uma hipótese sobre mudanças na plasticidade cerebral não basta para definir uma “janela” obrigatória de psicoterapia. É necessário demonstrar que fazer as sessões nesse período melhora os resultados do tratamento.

O que os estudos com psicoterapia encontraram?

O CBT-ENDURE, publicado em 2026, incluiu 93 participantes com depressão maior e ideação suicida. Ambos os grupos receberam escetamina intranasal; a comparação foi entre acrescentar TCC ao cuidado usual e manter o cuidado usual. O objetivo principal era avaliar a viabilidade de recrutar e manter participantes no acompanhamento, e foi alcançado.1

Entre os resultados secundários, a redução média até a semana 18 foi 3,8 pontos maior com TCC na escala MADRS, que mede a intensidade dos sintomas depressivos. Algumas avaliações de ideação ou gravidade suicida também favoreceram a TCC. Entretanto, não foi demonstrada diferença entre os grupos em duas medidas específicas de ideação suicida nem nos eventos relacionados a suicídio. O estudo não demonstra prevenção de suicídio. A TCC começou na terceira semana, ainda com alguma sobreposição ao curso inicial de escetamina; isso não significa que as sessões ocorreram durante os efeitos da aplicação.1

Em um ensaio de 2021, entre 42 pessoas inicialmente incluídas, 28 que responderam à cetamina intravenosa foram distribuídas entre TCC e cuidado usual. A comparação pela escala clínica de depressão escolhida como desfecho principal não foi estatisticamente significativa. Uma medida secundária, respondida pelos próprios participantes, favoreceu a TCC.2

Esse resultado oferece uma pista para continuar investigando, mas vem de um grupo pequeno e já selecionado por ter melhorado com a medicação. Não permite assegurar o mesmo benefício para quem não respondeu à cetamina ou faz outra modalidade de psicoterapia.2

Antes disso, um piloto aberto de 2017, com 16 participantes, havia combinado TCC com um curso de cetamina intravenosa e continuado a terapia depois. Sem grupo de comparação, o estudo não conseguia separar a contribuição adicional da psicoterapia dos demais componentes do tratamento.3

Um estudo publicado online em 2026 avaliou 46 pessoas que receberam escetamina subcutânea, com ou sem um modelo estruturado de psicoterapia assistida, em grupos de 23 participantes. Após oito sessões semanais, a remissão — redução dos sintomas a níveis mínimos pelo critério do estudo — ocorreu em 78,3% do grupo com psicoterapia e em 34,8% do grupo sem esse modelo. A diferença foi estatisticamente significativa.4

A resposta, definida como redução de pelo menos 50% na pontuação de depressão, ocorreu em 78,3% e 52,2%, respectivamente, sem diferença estatisticamente significativa. Também não houve diferença significativa entre os grupos no acompanhamento de até seis meses. O estudo era aberto e os grupos foram formados em sequência, sem sorteio; por isso, não é possível atribuir o resultado apenas à psicoterapia.4

Cada pesquisa avaliou uma combinação específica. Resultados com cetamina intravenosa, escetamina intranasal ou subcutânea não podem ser transferidos automaticamente de uma via para outra; estudar TCC também não equivale a testar todas as psicoterapias.1,2,4 Para conhecer o trabalho terapêutico em si, veja o artigo sobre TCC para depressão.

Como coordenar os profissionais?

O paciente pode ajudar a definir o que precisa ser conversado entre os responsáveis pelo cuidado, respeitando suas preferências e sua privacidade. Não é necessário presumir que todo o conteúdo das sessões será compartilhado.

Alguns combinados tornam o acompanhamento mais claro:

  • Objetivos: quais sintomas e dificuldades cada tratamento está acompanhando?
  • Comunicação: a quem avisar sobre piora do humor, efeitos adversos ou dificuldade para manter os atendimentos?
  • Reavaliação: quando será discutido se o plano está ajudando e o que precisa mudar?

Essa é uma forma de organizar o cuidado, não um protocolo cuja eficácia tenha sido demonstrada pelos ensaios citados. Se a pessoa já tem um terapeuta, vale começar por incluir esse vínculo na conversa, em vez de presumir que iniciar cetamina exige trocar de profissional.

Uma melhora dos sintomas também pode coexistir com dificuldades que precisam de atenção. Voltar a sair de casa e continuar evitando uma conversa importante, por exemplo, são aspectos distintos que podem aparecer no acompanhamento.

Quais expectativas precisam ficar claras?

Ao receber uma proposta de tratamento combinado, pergunte qual psicoterapia será oferecida, com que objetivo e que evidência sustenta aquela organização. A resposta deve esclarecer o plano concreto, sem prometer uma soma automática de benefícios.

Também é importante saber como será discutida a continuidade de cada intervenção. A decisão sobre manutenção da cetamina envolve resposta, tolerabilidade e evolução clínica; fazer psicoterapia não determina, sozinho, manter ou interromper aplicações.

Se o benefício for insuficiente, isso precisa motivar reavaliação, sem atribuir o resultado à falta de empenho do paciente. Diante de risco imediato de autoagressão, é necessário procurar atendimento de urgência, sem esperar pela próxima consulta ou sessão.

Na avaliação psiquiátrica na Genuine Mental Health, informe se já faz psicoterapia e quais objetivos vêm sendo trabalhados. Isso ajuda a discutir como organizar os cuidados propostos.

Referências

  1. Wilkinson ST, Kitay BM, Macaluso M, Santucci MC, Kumpf K, Voghell C, et al. Cognitive behavioral therapy following esketamine for major depression and suicidal ideation for relapse prevention: the CBT-ENDURE randomized trial. J Clin Psychiatry. 2026;87(2):25m16285. doi:10.4088/JCP.25m16285.

  2. Wilkinson ST, Rhee TG, Joormann J, Webler R, Ortiz Lopez M, Kitay B, et al. Cognitive behavioral therapy to sustain the antidepressant effects of ketamine in treatment-resistant depression: a randomized clinical trial. Psychother Psychosom. 2021;90(5):318–327. doi:10.1159/000517074.

  3. Wilkinson ST, Wright D, Fasula MK, Fenton L, Griepp M, Ostroff RB, et al. Cognitive behavior therapy may sustain antidepressant effects of intravenous ketamine in treatment-resistant depression. Psychother Psychosom. 2017;86(3):162–167. doi:10.1159/000457960.

  4. Varela YM, Cavalcanti-Ribeiro P, de Sousa GM, Falchi-Carvalho M, Dos Santos Fernandes Barbalho J, de Oliveira Gomes RB, et al. Exploratory non-randomized clinical trial of subcutaneous esketamine in treatment-resistant depression: effects of ketamine-assisted psychotherapy. J Affect Disord. 2026;414:122369. doi:10.1016/j.jad.2026.122369. Publicado online em 10 ago 2026.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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