Exames na depressão: o que eles podem esclarecer?

Postado em: 14/10/2026

Profissional com máscara e luvas segura um tubo com amostra de sangue.

Exames de sangue normais não excluem depressão. O diagnóstico depende dos sintomas, de sua duração e do impacto na vida, avaliados junto da história clínica. Quando o psiquiatra pede exames, pode estar procurando uma condição que contribua para os sintomas ou verificando a segurança de um tratamento — são perguntas diferentes.1˒2

Por isso, receber uma solicitação não significa que o médico duvide do sofrimento relatado. E sair da consulta sem exames novos não significa, por si só, que a avaliação tenha sido incompleta. O que precisa ficar claro é qual informação falta e como ela pode influenciar a decisão.

O que a consulta esclarece e o laboratório não mostra

Na avaliação, importa saber quando a perda de interesse começou, se o sono mudou, como estão a energia e a concentração e o que deixou de ser possível no cotidiano. O médico também pergunta sobre outros problemas de saúde e medicamentos em uso. Há doenças e efeitos de medicamentos que podem produzir manifestações semelhantes às da depressão.1

Considere um exemplo ilustrativo: alguém procura ajuda porque está exausto. Um resultado laboratorial não informa se essa pessoa ainda sente prazer nas atividades, se passou a se isolar ou se o cansaço acompanha uma mudança persistente do humor. Essas informações vêm da conversa. Se houver suspeita de uma condição física associada, o exame ajuda a investigar essa outra parte da história.

Uma pessoa pode ter depressão e, ao mesmo tempo, uma doença clínica que agrave a falta de energia. Encontrar uma delas não encerra automaticamente a investigação da outra.1

Por que o psiquiatra pode investigar anemia ou tireoide

O hemograma ajuda a identificar alterações nas células do sangue, incluindo sinais de anemia. Ele reúne medidas como a hemoglobina, proteína responsável pelo transporte de oxigênio. O resultado pode indicar a necessidade de investigar mais, mas não mostra sozinho a causa da alteração nem explica toda queixa de cansaço.3

O exame de TSH mede um hormônio que estimula a tireoide e ajuda a investigar seu funcionamento.4 A diretriz NICE orienta considerar essa investigação em pessoas com depressão, mesmo sem exigir a presença de todos os sintomas físicos típicos de uma doença tireoidiana.5 O artigo sobre depressão e hipotireoidismo aprofunda essa relação.

Esses exemplos não formam uma lista obrigatória. A diretriz CANMAT reconhece que há pouca evidência direta para exames de sangue de rotina na depressão, embora hemograma e TSH possam ser úteis. A necessidade de outros exames depende do que a pessoa relata, dos achados do exame físico e de seus problemas de saúde.2

O mesmo vale para dosagens de vitaminas e hormônios: uma suspeita específica pode justificar a investigação, mas não há um painel que todas as pessoas com depressão precisem completar. Exames de imagem do cérebro também não fazem parte da rotina para confirmar o diagnóstico; são considerados quando há indicação clínica própria.2

Uma forma de entender o pedido é separar as perguntas:

Pergunta clínica O exame pode ajudar a esclarecer O que não conclui sozinho
Há anemia contribuindo para a falta de energia? O hemograma pode mostrar alterações compatíveis com anemia. A causa da anemia ou de todos os sintomas.
Há alteração da função tireoidiana? Exames como o TSH ajudam a investigar essa possibilidade. Se a tireoide explica integralmente o quadro depressivo.
O tratamento com lítio está sendo acompanhado com segurança? A concentração do medicamento e exames de função renal e tireoidiana ajudam no monitoramento. Se a depressão já melhorou ou qual deve ser a próxima prescrição.

São situações ilustrativas, com finalidades distintas; os exames e sua interpretação dependem da avaliação.2˒3˒5˒6

Exames para acompanhar a medicação têm outra função

Alguns medicamentos exigem exames de acompanhamento mesmo quando a pessoa está melhor. É o caso do lítio, cujo monitoramento inclui sua concentração no sangue e a função dos rins e da tireoide.6

Nesse caso, o exame não está procurando uma confirmação laboratorial da depressão. Ele fornece informações para o uso seguro da medicação. Uma coleta programada, portanto, não significa que surgiu uma complicação. Também não permite avaliar, sem a consulta, se o tratamento está trazendo o benefício esperado.

O artigo sobre exames e acompanhamento do lítio no transtorno bipolar detalha esse monitoramento em pessoas com bipolaridade.

Não se deve transferir essa rotina para todos os antidepressivos. O monitoramento laboratorial depende do medicamento, de outras doenças e de fatores individuais.2

O teste farmacogenético para antidepressivos responde a outra pergunta: como certas variantes genéticas podem influenciar o processamento de medicamentos. Não diagnostica depressão nem garante a escolha de um remédio eficaz.2

Como entender um resultado normal, alterado ou um exame não solicitado

O sinal de alerta ao lado de um número no laudo merece interpretação. Valores fora da faixa de referência podem ou não indicar um problema que precise de tratamento. O médico considera a intensidade da alteração, os sintomas, outros resultados e fatores que possam ter interferido na medida. Da mesma forma, estar dentro da referência não é um atestado de que toda a saúde está bem.7

Leve o laudo completo, com a data e a referência do laboratório, e os resultados anteriores que tiver. Informe também os medicamentos e suplementos usados. Isso ajuda a interpretar o achado no contexto, em vez de tratar um número destacado como diagnóstico definitivo.7

Duas pessoas que relatam cansaço podem sair com solicitações diferentes. Uma pode precisar investigar uma alteração ainda não esclarecida; outra já pode ter resultados recentes suficientes para a pergunta daquele momento. O número de exames não permite comparar a qualidade das consultas.

Antes de sair, vale perguntar: “Que hipótese estamos investigando?”, “Como esse resultado pode mudar a decisão?” e “Quando vamos rever o resultado?”. Se nenhum exame foi solicitado, você pode perguntar se os dados disponíveis já respondem às dúvidas clínicas. Se os resultados vierem normais e os sintomas continuarem limitando sua vida, conte ao médico o que ainda não melhorou.

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado 13 out 2026]. Disponível em: NIMH.
  2. Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi: 10.1177/07067437241245384.
  3. National Library of Medicine. Complete blood count (CBC) [Internet]. Bethesda: MedlinePlus; 2024 [citado 13 out 2026]. Disponível em: MedlinePlus.
  4. National Library of Medicine. TSH (thyroid-stimulating hormone) test [Internet]. Bethesda: MedlinePlus; 2024 [atualizado 30 out 2024; citado 14 out 2026]. Disponível em: MedlinePlus.
  5. National Institute for Health and Care Excellence. Thyroid disease: assessment and management. NICE guideline NG145 [Internet]. London: NICE; 2019 [atualizado 2023; citado 13 out 2026]. Recomendações 1.2.1–1.2.11. Disponível em: NICE NG145.
  6. NHS Specialist Pharmacy Service. Lithium monitoring [Internet]. London: SPS; 2021 [atualizado 6 dez 2024; citado 13 out 2026]. Disponível em: SPS.
  7. National Library of Medicine. How to understand your lab results [Internet]. Bethesda: MedlinePlus; 2025 [citado 13 out 2026]. Disponível em: MedlinePlus.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.