Transtorno bipolar na perimenopausa: o que pode mudar no humor e no acompanhamento?
Postado em: 15/10/2026
Para quem tem transtorno bipolar, mudanças persistentes no sono, na energia ou no humor durante a perimenopausa merecem entrar na consulta. Algumas mulheres apresentam mais sintomas depressivos nessa fase, mas isso não significa que a doença necessariamente vá piorar ou que seja preciso trocar um tratamento que funciona. A avaliação precisa considerar tanto as manifestações da menopausa quanto a história da bipolaridade.1,2
O que está mudando nessa fase?
A perimenopausa é o período em torno da última menstruação. Em geral, começa com mudanças no ciclo menstrual e se estende até um ano após a última menstruação. A menopausa natural é reconhecida depois de 12 meses consecutivos sem menstruar, quando não há outra causa para essa interrupção.1
Ondas de calor, suor noturno, alterações do sono e mudanças de humor podem aparecer, com intensidade muito variável. Algumas mulheres têm poucos sintomas; outras encontram dificuldades para trabalhar, descansar ou manter atividades habituais. Em quem já tem bipolaridade, entender quando essas mudanças começaram e como se relacionam entre si ajuda a organizar a avaliação.1,2
O que os estudos mostram sobre bipolaridade e perimenopausa
Um estudo acompanhou 56 mulheres com transtornos do espectro bipolar durante quatro meses; 44 entraram na análise principal. As participantes na transição mais tardia ou no início da pós-menopausa tiveram, em média, mais sintomas depressivos do que aquelas em estágios anteriores. A pesquisa era pequena e teve perdas de acompanhamento. Além disso, as medidas de estradiol e FSH, dois hormônios avaliados, não apresentaram associação consistente com a intensidade dos sintomas.3
Uma revisão publicada em 2026 reuniu 14 estudos e encontrou resultados mais consistentes para aumento de depressão e ansiedade em mulheres com bipolaridade já conhecida; os achados sobre hipomania e mania foram menos uniformes. São associações que justificam atenção ao período, sem permitir prever quem terá uma recaída ou concluir que as alterações hormonais sejam a causa de cada mudança de humor. A evidência sobre tratamentos específicos para bipolaridade nessa fase ainda é limitada.2
Dormir mal e precisar de menos sono são experiências diferentes
Considere duas situações ilustrativas. Na primeira, uma mulher desperta repetidamente com calor e suor. Quer dormir, mas não consegue voltar ao sono; no dia seguinte, sente cansaço e dificuldade para cumprir seus compromissos. Na segunda, ela passa a dormir muito menos, sente pouca necessidade de descanso e começa a assumir projetos, falar ou se movimentar muito mais do que de costume.
O primeiro relato descreve sono interrompido. O segundo inclui menor necessidade de sono acompanhada de aumento de energia, algo que pode aparecer na hipomania ou na mania. Nenhum desses exemplos, isoladamente, define um episódio: duração, outras mudanças e repercussão na vida precisam ser avaliadas.1,4
Ao contar o que aconteceu, descreva como ficou durante o dia, além do número de horas dormidas. O artigo sobre sono e transtorno bipolar aprofunda essa distinção.
O que levar à consulta
Você não precisa identificar sozinha se a mudança vem da menopausa, da bipolaridade ou de outro problema. Pode levar algumas observações, mesmo com datas aproximadas, para ajudar a reconstruir a sequência dos acontecimentos.1,5
| Mudança percebida | Informação útil para relatar |
|---|---|
| Ciclo e sintomas físicos | Quando o ciclo ficou irregular, data aproximada da última menstruação e presença de calor ou suor noturno. |
| Sono e energia | Se está difícil adormecer ou se há despertares; como se sente no dia seguinte; se a necessidade de descanso diminuiu. |
| Humor e atividades | O que mudou no interesse, na irritabilidade, no ritmo de atividades e na capacidade de trabalhar ou cumprir compromissos. |
| Tratamentos e produtos utilizados | Medicamentos, produtos sem receita e suplementos; início, troca ou interrupção de tratamento hormonal, com datas aproximadas. |
Também vale contar se houve episódios de humor ligados ao ciclo menstrual ou ao pós-parto. Em um estudo retrospectivo com 567 mulheres, sintomas pré-menstruais e depressão pós-parto estiveram associados a relatos de depressão na perimenopausa. Como parte dos dados dependia da lembrança das participantes, o achado ajuda a justificar essa conversa, sem prever uma recaída individual.6
Não é necessário preencher um diário durante semanas ou fazer exames hormonais por conta própria antes de procurar avaliação. Se alguém próximo percebeu mudanças, você pode convidar essa pessoa a contribuir com exemplos, caso se sinta confortável. Informações concretas, como compromissos abandonados ou uma atividade muito fora do habitual, costumam tornar o relato mais compreensível.
O que pode ser revisto no acompanhamento
O psiquiatra pode comparar o quadro atual com episódios anteriores, revisar a resposta ao tratamento e avaliar sono, saúde física e possíveis efeitos dos medicamentos. A mesma queixa — como falta de energia — pode ter mais de uma contribuição. Isso evita que um sintoma importante seja tratado apenas como parte esperada da menopausa.5
A avaliação pode levar à manutenção do esquema que está funcionando, ao tratamento de um problema de sono ou à revisão do plano para um episódio de humor. A decisão depende do que foi identificado, não apenas da chegada à perimenopausa. Se houver depressão, o diagnóstico de bipolaridade continua orientando a escolha dos medicamentos: um antidepressivo não deve ser iniciado automaticamente porque o desânimo apareceu nessa fase.2,4
Se você também faz acompanhamento ginecológico, informe a cada profissional os tratamentos prescritos pelo outro, incluindo mudanças recentes.
A terapia hormonal pode ajudar?
A terapia hormonal pode ser considerada para sintomas da menopausa, conforme a avaliação ginecológica, a história de saúde e as preferências da paciente. Essa indicação é diferente de prescrevê-la para tratar o transtorno bipolar. Até o momento, a pesquisa específica não sustenta recomendar terapia hormonal de forma geral para controlar episódios de depressão, hipomania ou mania.1,2
Terapias com estrogênios podem reduzir as concentrações de lamotrigina no sangue; um estudo observacional identificou essa associação, e a bula brasileira alerta para a possível interferência da reposição hormonal no medicamento.7,8
Se você usa lamotrigina, informe ao prescritor quando for iniciar, trocar ou interromper um tratamento hormonal, para que ele avalie a necessidade de acompanhamento adicional. Não ajuste a medicação por conta própria.7,8
Quando antecipar o contato
Procure manter a regularidade possível dos horários de sono e seguir o plano já combinado para sinais precoces. Se surgirem mudanças importantes de energia, comportamento ou capacidade de funcionar, entre em contato antes do retorno habitual. Não é necessário esperar uma crise para discutir uma piora que já está interferindo na rotina.4,5
Perda de contato com a realidade, comportamento que coloque alguém em perigo ou risco imediato de autoagressão exigem atendimento de urgência.4,5
Na próxima consulta, vale sair com um combinado concreto: quais mudanças observar, em que situação antecipar o contato e quem procurar se isso acontecer fora do horário de atendimento. Assim, ao perceber algo diferente, você já sabe qual será o próximo passo.
Referências
- World Health Organization. Menopause [Internet]. Geneva: WHO; 2024 Oct 16 [citado 14 out 2026]. Disponível em: WHO — Menopause.
- Radosavljevic J, Bengi D, Frey BN. Bipolar disorder and perimenopause: an update. Bipolar Disord. 2026;28(7):e70186. Publicado online em 30 set 2026. doi: 10.1111/bdi.70186.
- Marsh WK, Gershenson B, Rothschild AJ. Symptom severity of bipolar disorder during the menopausal transition. Int J Bipolar Disord. 2015;3:17. doi: 10.1186/s40345-015-0035-z.
- National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 14 out 2026]. Disponível em: NIMH — Bipolar disorder.
- National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185 [Internet]. London: NICE; 2014 [atualizado 2 set 2025; citado 14 out 2026]. Disponível em: NICE — Recomendações CG185.
- Gordon-Smith K, Perry A, Di Florio A, Craddock N, Jones I, Jones L. Associations between lifetime reproductive events among postmenopausal women with bipolar disorder. Arch Womens Ment Health. 2025;28:573–581. doi: 10.1007/s00737-024-01533-2.
- Reimers A. Hormone replacement therapy with estrogens may reduce lamotrigine serum concentrations: a matched case-control study. Epilepsia. 2017;58(1):e6–e9. doi: 10.1111/epi.13597.
- GlaxoSmithKline Brasil. Lamictal (lamotrigina): bula do profissional de saúde, comprimidos [Internet]. [citado 14 out 2026]. Disponível em: bula brasileira do fabricante.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.