Alimentação no tratamento da depressão: o que os estudos permitem recomendar?
Postado em: 15/10/2026
Melhorar a alimentação pode ajudar no tratamento da depressão, como complemento à psicoterapia, aos medicamentos ou a outras intervenções indicadas. Os resultados mais promissores vieram de programas que combinaram mudanças nas refeições com orientação profissional. Eles não demonstram que um alimento isolado funcione como antidepressivo nem que seja possível substituir o tratamento habitual por uma dieta.1
Para quem está deprimido, porém, a dificuldade pode começar antes de escolher o que comer: sair para comprar alimentos, decidir uma refeição e lavar a louça podem exigir mais energia do que se tem naquele dia. Uma orientação útil precisa considerar essas tarefas, além da qualidade da alimentação.
O que foi estudado — e quanto ajudou
Parte das pesquisas avaliou uma alimentação de padrão mediterrâneo, com variedade de alimentos vegetais e mudanças no conjunto das refeições. Houve acompanhamento para ajudar os participantes a colocar as orientações em prática. Os estudos abaixo fizeram perguntas diferentes:
| Estudo e participantes | O que foi comparado | Resultado principal para entender o estudo |
|---|---|---|
| SMILES: 67 adultos em um episódio de depressão e com alimentação de baixa qualidade no início do estudo | Sete consultas nutricionais em 12 semanas versus encontros de apoio social, mantendo o tratamento em curso | O grupo de orientação nutricional teve maior redução dos sintomas. A remissão foi um desfecho adicional.2 |
| AMMEND: homens de 18 a 25 anos com depressão; 72 concluíram o estudo | Intervenção alimentar com aconselhamento versus encontros de apoio social, durante 12 semanas | Houve maior melhora na escala de sintomas respondida pelos participantes. O resultado desse grupo específico não determina o benefício em outras idades.3 |
| PREDIDEP: 196 pessoas recuperadas de um episódio depressivo | Tratamento habitual com intervenção mediterrânea e azeite extravirgem versus tratamento habitual sem intervenção nutricional, durante dois anos | Não houve diferença demonstrada na recorrência da depressão, o desfecho principal. Alguns resultados de sintomas, avaliados como desfechos secundários, foram favoráveis.4 |
No SMILES, entre quem foi avaliado ao final das 12 semanas, 10 de 31 pessoas (32,3%) do grupo alimentar atingiram remissão, comparadas com 2 de 25 (8%) no grupo de apoio social. Remissão significava ficar abaixo do limite de sintomas definido pela escala do estudo; não significava cura definitiva. Quem não atingiu esse limite ainda poderia ter melhorado parcialmente.2
É um resultado encorajador, de um ensaio pequeno, com perdas no acompanhamento. O estudo excluiu pessoas com bipolaridade e com duas ou mais falhas de antidepressivos no episódio atual. Seus números não devem ser transferidos para esses grupos.2 Além disso, os participantes sabiam qual intervenção recebiam, e a informação oferecida no recrutamento pode ter criado expectativas. Uma correção de 2018 esclareceu esse aspecto do SMILES, sem retirar seus resultados.5
A diretriz CANMAT classifica a intervenção alimentar mediterrânea como uma opção complementar de terceira linha, pela evidência ainda limitada. Isso significa que ela tem menos sustentação para tratar a depressão do que intervenções estabelecidas. Não é necessário esperar outros tratamentos falharem para organizar melhor as refeições.1
Isso exige um cardápio mediterrâneo?
Não é preciso importar um cardápio para buscar mais variedade. Feijão, lentilha, frutas, verduras, legumes e preparações já presentes na alimentação brasileira podem fazer parte dessa organização. O Guia Alimentar para a População Brasileira valoriza a cultura alimentar e reconhece que preço, disponibilidade, tempo e habilidades culinárias influenciam o que chega à mesa.6
Adaptar escolhas à rotina brasileira é uma orientação geral de alimentação, não uma reprodução dos protocolos dos ensaios.
Se alguém costuma comprar comida pronta, por exemplo, pode observar quais opções acessíveis incluem alimentos variados. Não é obrigatório cozinhar tudo em casa para começar a prestar atenção à alimentação.
Quando falta energia para comprar ou preparar comida
O Guia Alimentar propõe planejamento, divisão das tarefas e preparo antecipado como formas de reduzir o trabalho diário.6 Na depressão, essas ideias precisam caber na disposição disponível. As sugestões a seguir são adaptações práticas; não foram testadas isoladamente como tratamento antidepressivo.
Comece pela refeição que está ficando sem solução. Considere uma situação hipotética: a pessoa consegue almoçar no trabalho, mas chega em casa sem disposição e passa a noite sem jantar. Organizar esse horário pode ser mais útil do que elaborar um plano para todas as refeições da semana. Vale identificar primeiro o que falta: comida disponível, vontade de comer, alguém para ajudar ou energia para o preparo.
Escolha uma opção que exija poucas decisões. Pensar em uma preparação já conhecida costuma ser mais simples do que testar uma receita nova com muitos ingredientes. Uma alternativa pode ficar definida para os dias difíceis, conforme os alimentos disponíveis e as orientações individuais já recebidas. O objetivo imediato é não ter de resolver compras, preparo e escolha ao mesmo tempo.
Peça ajuda para uma tarefa delimitada, quando houver alguém disponível. Uma pessoa próxima pode comprar os itens de uma lista curta, levar uma refeição ou lavar os utensílios. Um pedido possível seria: “Estou conseguindo comer, mas não estou dando conta de ir ao mercado”. Há outras formas de ajudar uma pessoa com depressão sem transformar o apoio em cobrança.
Use a disposição de um dia melhor para facilitar outro, se isso for viável. Preparar uma quantidade maior de feijão e congelar parte, quando há equipamento e condições adequadas de armazenamento, é uma possibilidade descrita no Guia.6 Mas uma boa manhã não precisa virar a obrigação de cozinhar para a semana inteira. Resolver apenas uma refeição futura já pode retirar uma tarefa do dia seguinte.
Se o problema for dinheiro, falta de cozinha ou impossibilidade de fazer compras, uma lista de receitas não resolve a barreira. Isso precisa ser dito na consulta, para que a orientação considere os recursos existentes. E recorrer a comida pronta em um dia difícil não torna inúteis as outras mudanças que a pessoa conseguiu fazer.
Pouco apetite e mudanças de peso também entram na consulta
A depressão pode alterar o apetite, o peso e a capacidade de realizar tarefas cotidianas. Por isso, é útil diferenciar “não sinto fome” de “sinto fome, mas não consigo preparar nada”. As duas situações merecem atenção, mas podem exigir respostas diferentes.7
Ao conversar com o profissional, descreva quando a mudança começou, quais refeições ficaram mais difíceis e se houve perda ou ganho de peso sem intenção. Informe também se isso coincidiu com o início ou a mudança de algum medicamento, para que o profissional avalie possíveis efeitos do tratamento.1
Essas informações ajudam a decidir se é preciso investigar alguma condição física ou dificuldade nutricional. Não se pode concluir que haja deficiência de vitaminas apenas pela presença de depressão; a necessidade de exames na avaliação da depressão depende da história e dos achados clínicos.
Se a pessoa deixou de conseguir comer ou beber, ou está apresentando deterioração física importante, é necessário procurar atendimento prontamente. Nessa situação, insistir em dicas de alimentação pode atrasar a avaliação necessária.7
Quando buscar orientação nutricional individual
Um nutricionista pode adaptar a alimentação às condições de saúde e às restrições de cada pessoa. Isso ganha importância quando há perda de peso, doença clínica ou dificuldade persistente para atender às necessidades alimentares.6
Para a próxima consulta, leve uma dificuldade concreta. Pode ser estar pulando uma refeição, ter perdido o apetite ou depender de alguém para comprar comida. Esse relato dá ao profissional um ponto de partida para discutir uma mudança possível agora, sem exigir que toda a alimentação esteja organizada antes de pedir ajuda.
Referências
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- Jacka FN, O'Neil A, Opie R, Itsiopoulos C, Cotton S, Mohebbi M, et al. A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the ‘SMILES’ trial). BMC Med. 2017;15:23. doi:10.1186/s12916-017-0791-y.
- Bayes J, Schloss J, Sibbritt D. The effect of a Mediterranean diet on the symptoms of depression in young males (the “AMMEND: A Mediterranean Diet in MEN with Depression” study): a randomized controlled trial. Am J Clin Nutr. 2022;116(2):572–580. doi:10.1093/ajcn/nqac106.
- Cabrera-Suárez BM, Hernández-Fleta JL, Molero P, González-Pinto A, Lahortiga F, Cabrera C, et al. Mediterranean diet-based intervention to improve depressive symptoms: analysis of the PREDIDEP randomized trial. Nutr Neurosci. 2024;27(9):951–961. doi:10.1080/1028415X.2023.2283290.
- Jacka FN, O'Neil A, Opie R, Itsiopoulos C, Cotton S, Mohebbi M, et al. Correction to: A randomised controlled trial of dietary improvement for adults with major depression (the ‘SMILES’ trial). BMC Med. 2018;16:236. doi:10.1186/s12916-018-1220-6.
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Guia alimentar para a população brasileira. 2ª ed., 1ª reimpr. Brasília: Ministério da Saúde; 2014. Texto integral, cópia disponibilizada pela Associação Brasileira de Nutrição.
- National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; [citado 14 out 2026]. Disponível em: material institucional.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.