Lítio e saúde dos rins: o que acompanhar durante o tratamento?
Postado em: 18/10/2026
A creatinina veio mais alta que no exame anterior. Para quem usa lítio há anos e está bem com o tratamento, esse resultado costuma trazer uma dúvida imediata: será necessário parar? Uma alteração precisa ser investigada, mas não decide sozinha a retirada. O médico considera como a função renal vem evoluindo, o que pode ter contribuído para a mudança e quanto o lítio tem ajudado a controlar o transtorno do humor.¹
Também é possível perceber mais sede ou produzir mais urina antes de notar mudanças relevantes nos exames de filtração.²³
Litemia, filtração e volume de urina mostram coisas diferentes
Os rins filtram o sangue e regulam quanto de água o organismo conserva. O lítio pode afetar essas funções de maneiras diferentes.²³
| Informação | O que ajuda a entender |
|---|---|
| Litemia | Quanto lítio está circulando no sangue, para interpretar o tratamento junto com os sintomas e os efeitos adversos. |
| Creatinina e taxa de filtração estimada | Como está a capacidade de filtrar o sangue. A taxa de filtração é uma estimativa calculada a partir de exames e características da pessoa. |
| Sede e aumento do volume de urina | Se pode haver dificuldade para conservar água e concentrar a urina, algo que exige avaliação própria. |
Uma litemia dentro da faixa indicada pelo médico não substitui os exames renais, e a quantidade de urina não mede diretamente a capacidade de filtração.²³
O artigo sobre lítio no transtorno bipolar e acompanhamento explica a coleta da litemia e os demais exames de rotina.
Mais sede e mais urina merecem ser relatadas
Quando os rins passam a concentrar menos a urina, uma quantidade maior de água pode ser eliminada, acompanhada de mais sede. Isso pode acontecer sem uma perda importante da filtração. Por isso, o médico investiga o sintoma mesmo quando a creatinina não mudou muito.³
Ir várias vezes ao banheiro não significa necessariamente produzir um volume excessivo de urina: as idas podem ser frequentes, mas com pequenas quantidades. Para a avaliação, ajuda descrever o que mudou: passou a acordar à noite para urinar? Precisa beber água muito mais vezes? A mudança começou há poucos dias ou vem aumentando há meses?³
Não restrinja líquidos para tentar urinar menos ou testar se o problema melhora. Informe a mudança à equipe, que poderá decidir quais exames são necessários.²
Por que o médico compara os exames antigos
Uma queda que se repete em exames sucessivos é diferente de um resultado isolado. Importam a velocidade da mudança e o contexto em que o sangue foi colhido: doença recente, desidratação, novos medicamentos e outras condições que afetam os rins. Quando a alteração persiste, o acompanhamento costuma ser intensificado.¹²
Uma coorte sueca acompanhou 10.946 pessoas que iniciaram lítio ou valproato, com seguimento mediano de 4,5 anos. Não encontrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos no risco de progressão de doença renal crônica ou lesão renal aguda. Concentrações mais elevadas de lítio, porém, se associaram a maior risco de lesão renal aguda. Esses resultados não eliminam a necessidade de acompanhar quem usa o medicamento durante décadas.⁴
Se a função renal continuar caindo, como decidir?
A decisão considera o comprometimento renal, sua evolução e a resposta psiquiátrica. Um histórico de recaídas graves ou de melhora importante com lítio pesa nessa avaliação, assim como as alternativas já utilizadas. Dependendo da situação, psiquiatra e nefrologista podem avaliar juntos a continuidade do tratamento.¹
Há evidência de que a retirada pode desacelerar a perda de função renal. Em um estudo de 2025 com 168 adultos, os pesquisadores compararam a evolução da filtração antes e depois da interrupção do lítio e observaram uma queda média mais lenta após a retirada. Desacelerar a perda não significa recuperar a função que já foi perdida. O estudo era observacional e não determina, sozinho, a melhor decisão para cada paciente.⁵
Outra coorte, publicada em 2026, acompanhou 196 usuários de lítio por uma mediana de 8,8 anos. No pequeno subgrupo com dados após a interrupção, a diferença na velocidade de queda da filtração não foi estatisticamente significativa. Os resultados mostram por que não é possível prometer que suspender o medicamento fará os rins voltar ao estado anterior.⁶
Quando a retirada é indicada de forma planejada, ela precisa incluir acompanhamento do humor. Parar abruptamente por conta própria, apenas por preocupação com um laudo, pode aumentar o risco de recaída.¹
Situações que exigem contato antes da próxima consulta
Avise médicos e farmacêuticos de que usa lítio antes de iniciar outro medicamento. Isso inclui anti-inflamatórios vendidos sem receita. Vômitos, diarreia ou dificuldade para manter a ingestão de líquidos também exigem orientação rápida, porque podem alterar a concentração do lítio. Não faça mudanças importantes no consumo de sal sem discutir o tratamento.²⁷
Confusão, tremor grosseiro, dificuldade para andar ou coordenar os movimentos, especialmente com vômitos ou diarreia, podem indicar intoxicação. Nessa suspeita, não tome novas doses de lítio até receber avaliação médica urgente. Procure atendimento imediatamente; não espere uma consulta de rotina. Uma litemia aparentemente normal não exclui toxicidade.²⁷
No acompanhamento habitual, reúna os exames anteriores e os atuais e anote quando começaram as mudanças na sede ou na urina. Leve também os nomes dos medicamentos iniciados recentemente.
Referências
1. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. CG185 [Internet]. 2014 [atualizado em 2 set 2025; citado em 18 out 2026]. Recomendações 1.10.14–1.10.26.
2. Specialist Pharmacy Service. Lithium monitoring. Atualizado em 6 dez 2024 [citado em 18 out 2026].
3. Tabibzadeh N, Vidal-Petiot E, Cheddani L, Haymann JP, Lefevre G, Etain B, et al. Chronic lithium therapy and urine-concentrating ability in individuals with bipolar disorder: association between daily dose and resistance to vasopressin and polyuria. Kidney Int Rep. 2022;7(7):1557–1564. doi:10.1016/j.ekir.2022.04.008.
4. Bosi A, Clase CM, Ceriani L, Sjölander A, Fu EL, Runesson B, et al. Absolute and relative risks of kidney outcomes associated with lithium vs valproate use in Sweden. JAMA Netw Open. 2023;6(7):e2322056. doi:10.1001/jamanetworkopen.2023.22056.
5. Fransson F, Werneke U, Öhlund L, Jonsson PA, Ott M. Kidney function decline improves after lithium discontinuation. J Intern Med. 2025;297(3):289–299. doi:10.1111/joim.20054.
6. van der Aa MJ, Zittema D, Doornebal J, Hartong EGTM, Bisseling EM, Dammers J, et al. A significant decline of glomerular filtration rate in the majority of long-term lithium users: results of a Dutch prospective 10-year cohort study. Bipolar Disord. 2026;28(2):e70082. doi:10.1111/bdi.70082.
7. National Health Service. Side effects of lithium. Revisado em 9 ago 2023 [citado em 18 out 2026].
Imagem de destaque: Robina Weermeijer / Unsplash — Unsplash License.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.