Clomipramina no TOC: quando considerar e o que acompanhar?

Postado em: 18/10/2026

Caixa de Clofranil 25 mg, clomipramina, sobre superfície de madeira.

A clomipramina pode reduzir as obsessões e compulsões do transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), mesmo quando a pessoa não tem depressão. Ela pertence ao grupo dos antidepressivos tricíclicos. Ao propor o medicamento, o psiquiatra considera os tratamentos anteriores, o benefício esperado e os efeitos que podem dificultar a continuidade.¹

Os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, conhecidos como ISRS, costumam ser a primeira opção de medicamento por combinarem eficácia e melhor tolerabilidade. A clomipramina pode ser considerada quando uma tentativa adequada com um ISRS não trouxe melhora suficiente ou causou efeitos difíceis de tolerar. Uma boa resposta anterior à própria clomipramina e a preferência do paciente também pesam na escolha.¹²

Isso exige reconstruir o que foi realmente utilizado: por quanto tempo, com que regularidade e com quais resultados. O artigo sobre TOC que não melhora com o tratamento aprofunda essa revisão.

Quanto ela ajudou nos estudos?

Em dois ensaios que reuniram 520 pessoas com TOC, o tratamento durou dez semanas. A redução média da pontuação na Y-BOCS, escala que avalia a gravidade das obsessões e compulsões, foi de 38% e 44% com clomipramina, frente a 3% e 5% com placebo, respectivamente. Esses números representam a diminuição média dos sintomas em cada grupo; não são percentuais de pessoas que ficaram sem TOC.³

Outro ensaio, de 12 semanas, comparou clomipramina, psicoterapia, sua combinação e placebo. Dos 149 adultos distribuídos aleatoriamente entre os grupos, 122 iniciaram o tratamento. Na análise de quem começou a usar clomipramina ou placebo, os resultados foram:⁴

Grupo Atingiram o critério de resposta Não atingiram esse critério
Clomipramina 15 de 36 — 42% 21 de 36 — 58%
Placebo 2 de 26 — 8% 24 de 26 — 92%

Nesse estudo, responder significava ser avaliado como muito ou muitíssimo melhor na escala de impressão clínica global. Resposta não significava desaparecimento de todos os sintomas; quem não atingiu o critério também podia ter apresentado alguma melhora. São resultados de um estudo específico, não uma previsão individual.⁴

O que observar além de “estou melhor”

O tratamento pode tornar os rituais menos demorados, reduzir o sofrimento com as obsessões e permitir a retomada de atividades evitadas. Pensamentos intrusivos ainda podem aparecer durante uma melhora relevante. Por isso, observar como eles interferem no dia ajuda mais do que usar sua presença ou ausência como única medida de resultado.¹

Considere um exemplo ilustrativo: alguém que voltava várias vezes para conferir a porta passa a sair de casa com menos verificações, embora ainda sinta dúvida. Essa mudança merece ser relatada, assim como a dificuldade que permanece. Outro ponto é saber se o tempo recuperado permitiu chegar ao trabalho no horário ou voltar a assumir um compromisso antes evitado.

O benefício é acompanhado ao longo de semanas, considerando o tempo de uso e o tratamento efetivamente realizado. Efeitos indesejados podem aparecer antes da melhora do TOC. Se estiverem atrapalhando, devem ser comunicados durante esse período; não é necessário suportá-los em silêncio até uma data marcada para decidir se o medicamento funcionou.¹⁵

A psicoterapia continua tendo um papel próprio

A exposição e prevenção de resposta (EPR) é uma psicoterapia dirigida ao TOC. Ela trabalha o enfrentamento planejado das situações que desencadeiam as obsessões e a redução dos rituais usados para aliviar o desconforto. Pode ser utilizada por si ou associada ao medicamento, conforme a avaliação.²

No ensaio citado, a EPR foi intensiva no primeiro mês. Ao final, tanto a EPR isolada quanto a combinação com clomipramina reduziram mais a gravidade dos sintomas do que a clomipramina isolada. A combinação não demonstrou vantagem sobre a EPR sozinha. O resultado não estabelece uma sequência obrigatória de tratamento.⁴

Para entender como esse trabalho é organizado, veja como funciona a EPR no tratamento do TOC.

Efeitos que precisam ser relatados

Boca seca, intestino preso, sonolência, tontura e alterações sexuais podem ocorrer com a clomipramina. Dificuldade para urinar também precisa ser comunicada. Ao relatar, indique quando o sintoma começou e o que passou a dificultar: trabalhar com atenção, levantar-se sem tontura ou manter a vida sexual, por exemplo.⁵

Essa descrição ajuda a avaliar a tolerabilidade junto da melhora do TOC. “Tenho menos rituais, mas estou sonolento durante o expediente” traz duas informações necessárias à decisão. Relate os efeitos indesejados ao prescritor, mesmo que o TOC tenha melhorado, sem interromper o medicamento por conta própria.

O que o psiquiatra precisa saber

Doenças cardíacas, desmaios anteriores, convulsões e outros problemas de saúde influenciam o planejamento. Pressão arterial, eletrocardiograma e outros exames são definidos conforme a avaliação. A diretriz NICE recomenda verificar a pressão e realizar ECG antes da prescrição em adultos com risco cardiovascular significativo.²⁵

Leve também a relação dos medicamentos, suplementos e produtos sem receita. Algumas combinações podem elevar a concentração da clomipramina ou aumentar efeitos adversos. Desmaio, convulsão ou febre acompanhada de confusão e rigidez exigem avaliação imediata.⁵

Para o retorno, uma anotação breve é suficiente: quais sintomas mudaram, o que voltou a ser possível fazer e quais dificuldades surgiram com o medicamento. Inclua interrupções ou esquecimentos para que o resultado seja interpretado corretamente. Se houver necessidade de combinar, trocar ou retirar medicamentos, o plano deve ser definido com o prescritor; a retirada da clomipramina costuma precisar ser gradual.²

Referências

  1. Arumugham SS, Narayanaswamy JC, Balachander S, Sharma E, Jaisoorya TS, Reddy SC, et al. Clinical practice guidelines for obsessive-compulsive disorder: 2025 update. Indian J Psychiatry. 2026;68(1):44–67. doi:10.4103/indianjpsychiatry_1259_25.

2. National Institute for Health and Care Excellence. Obsessive-compulsive disorder and body dysmorphic disorder: treatment. Recommendations. Clinical guideline CG31. London: NICE; 2005 [citado em 18 out. 2026].

3. Clomipramine Collaborative Study Group. Clomipramine in the treatment of patients with obsessive-compulsive disorder. Arch Gen Psychiatry. 1991;48(8):730–738. doi:10.1001/archpsyc.1991.01810320054008.

4. Foa EB, Liebowitz MR, Kozak MJ, Davies S, Campeas R, Franklin ME, et al. Randomized, placebo-controlled trial of exposure and ritual prevention, clomipramine, and their combination in the treatment of obsessive-compulsive disorder. Am J Psychiatry. 2005;162(1):151–161. doi:10.1176/appi.ajp.162.1.151.

5. Rising Pharma Holdings, Inc. Clomipramine hydrochloride capsule: prescribing information. DailyMed. Atualizado em 17 abr. 2025 [citado em 18 out. 2026]. Rotulagem norte-americana.

Imagem: Furygroup / Wikimedia Commons. CC BY-SA 4.0. Embalagem estrangeira de clomipramina; enquadramento horizontal.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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