Depressão após a COVID-19: como avaliar o humor sem atribuir todos os sintomas à depressão?
Postado em: 28/10/2026
Depressão pode aparecer depois da COVID-19, mas cansaço e dificuldade de concentração, por si sós, não permitem chegar a esse diagnóstico. A condição pós-COVID, também chamada de COVID longa, pode afetar diferentes sistemas do corpo e produzir sintomas físicos, cognitivos e emocionais. Investigar uma possível depressão deve fazer parte da avaliação, sem encerrar a investigação das outras manifestações.1
Ter começado depois da infecção é uma informação importante, mas não demonstra a causa de cada sintoma. Uma pesquisa publicada em 2025, com registros de cinco países, encontrou aumento do risco de diagnóstico de depressão após a COVID-19 em quatro das cinco bases nos primeiros seis meses, sem associação significativa na britânica. Entre seis meses e dois anos, essa associação foi observada apenas na França. As infecções estudadas ocorreram entre dezembro de 2019 e dezembro de 2020, antes da vacinação. O estudo reforça a importância de avaliar o humor, mas não estima a probabilidade individual de depressão após uma infecção atual.2
Querer fazer, conseguir fazer e sentir prazer
Considere duas situações ilustrativas. Uma pessoa quer encontrar os amigos e gosta da companhia deles, mas sai exausta do encontro. Outra consegue participar de uma atividade pouco exigente, porém percebe que perdeu o interesse e o prazer que antes sentia. A segunda experiência ajuda a investigar a anedonia, nome dado à diminuição da capacidade de sentir prazer. As situações podem coexistir e não separam diagnósticos por uma regra simples.3
Essa diferença muda a interpretação de uma escala de depressão. Ao assinalar que tem “pouco interesse” em fazer coisas, alguém pode estar descrevendo exaustão, perda de prazer ou ambas. Uma pontuação elevada precisa ser examinada com a história dos sintomas; não confirma depressão sozinha. O psiquiatra procura entender o que a pessoa deixou de fazer, por qual motivo e como se sente nas atividades que ainda consegue realizar.3
O mesmo raciocínio se aplica às palpitações. Se surgem especialmente ao ficar em pé e vêm acompanhadas de tontura, esse padrão precisa ser avaliado clinicamente. Alterações da regulação da frequência cardíaca podem ocorrer na condição pós-COVID; atribuir tudo à ansiedade pode atrasar essa investigação.1
Quando a piora aparece no dia seguinte
Algumas pessoas apresentam piora dos sintomas após esforço físico ou mental, conhecida pelas siglas PESE ou PEM. Uma atividade aparentemente pequena pode ser seguida de agravamento desproporcional da fadiga, da dor ou da dificuldade de raciocinar. Segundo o CDC, essa piora costuma aparecer entre 12 e 48 horas depois e pode durar dias ou semanas. Esse intervalo ajuda a reconhecer um padrão, mas não funciona como teste diagnóstico.4
Alguém pode conseguir participar de uma reunião pela manhã e perceber a piora apenas no dia seguinte. Relatar o que fez, quanto tempo depois piorou e por quanto tempo os sintomas duraram ajuda a equipe a ajustar as orientações.
Exames usuais sem alterações não anulam essas limitações. Não existe um exame de laboratório isolado capaz de confirmar ou excluir a condição pós-COVID. A avaliação combina história, exame clínico e investigação dirigida às manifestações de cada pessoa.4
O tratamento da depressão pode começar junto com o acompanhamento físico
Quando há depressão, a psicoterapia e, conforme a indicação, os antidepressivos podem integrar o tratamento. A diretriz da Organização Mundial da Saúde recomenda apoio psicológico e orienta considerar medicamentos segundo as preferências da pessoa, outras doenças e possíveis efeitos adversos. Isso não equivale a escolher um antidepressivo preferencial para toda depressão após COVID-19.5
A psicoterapia pode trabalhar a perda de interesse, o sofrimento com as limitações e a reorganização de atividades possíveis. A terapia cognitivo-comportamental para depressão é uma das abordagens utilizadas.5 Receber esse apoio não significa que os sintomas físicos sejam imaginários, nem que tratar a depressão resolva toda a condição pós-COVID.3
Há uma adaptação especialmente importante: não transformar a retomada de atividades em uma obrigação de aumentar o esforço toda semana. A OMS condiciona a recomendação de exercício à ausência de PESE, com adaptação individual e monitorização. Quando o esforço provoca piora, insistir em metas fixas de progressão pode ser inadequado.5
Uma possibilidade a discutir com a equipe, por exemplo, é encurtar um encontro que costuma ser exaustivo ou dividir uma tarefa doméstica em momentos diferentes. A resposta precisa ser observada também depois da atividade. Pausas, identificação de fatores que agravam os sintomas e redução temporária de atividades durante uma piora fazem parte das orientações da OMS para a condição pós-COVID.1
No acompanhamento, recuperar o prazer de estar com a família e voltar a tolerar uma jornada de trabalho são resultados diferentes. O humor pode melhorar enquanto a tolerância ao esforço continua limitada. Essa melhora tem valor e não torna dispensável investigar o que ainda impede a retomada das atividades.4
Não é necessário esperar meses para procurar avaliação se os sintomas estão prejudicando a rotina. Diante de risco imediato de se machucar, dor no peito nova e persistente ou falta de ar intensa, procure atendimento de urgência.3,6,7
Referências
- World Health Organization. Post COVID-19 condition (long COVID) [Internet]. Geneva: WHO; 2025 fev 26 [citado 2026 out 28]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/post-covid-19-condition-(long-covid).
- Chai Y, Lam ICH, Man KKC, Hayes JF, Wan EYF, Li X, et al. Psychiatric and neuropsychiatric sequelae of COVID-19 within 2 years: a multinational cohort study. BMC Med. 2025;23:144. doi:10.1186/s12916-025-03952-z. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s12916-025-03952-z.
- Cheng AL, Herman E, Abramoff B, Anderson JR, Azola A, Baratta JM, et al. Multidisciplinary collaborative guidance on the assessment and treatment of patients with Long COVID: a compendium statement. PM R. 2025;17(6):684–708. doi:10.1002/pmrj.13397. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/pmrj.13397.
- Centers for Disease Control and Prevention. Long COVID clinical guidance [Internet]. Atlanta: CDC; 2026 mar 9 [citado 2026 out 28]. Disponível em: https://www.cdc.gov/long-covid/hcp/clinical-guidance/index.html.
- World Health Organization. Clinical management of COVID-19: living guideline, June 2025 [Internet]. Geneva: WHO; 2025 [citado 2026 out 28]. Disponível em: https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/381920/B09467-eng.pdf?sequence=1.
- NHS. Chest pain [Internet]. 2023 Aug 8 [citado 28 out 2026]. Disponível em: https://www.nhs.uk/symptoms/chest-pain/.
- NHS. Shortness of breath [Internet]. 2024 Jan 30 [citado 28 out 2026]. Disponível em: https://www.nhs.uk/symptoms/shortness-of-breath/.
Fotografia: Heike Trautmann / Unsplash. Cena ilustrativa.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.