Síndrome dos ovários policísticos e saúde mental: quando depressão e ansiedade precisam de tratamento?

Postado em: 28/10/2026

Ilustração do útero e das trompas, com um ovário em corte mostrando vários folículos.

Considere uma situação: a mulher acompanha a síndrome dos ovários policísticos (SOP), faz os exames solicitados e observa o ciclo menstrual. Mas deixou de encontrar amigas e perdeu o interesse em atividades de que gostava. Nas consultas, esses acontecimentos acabam ficando em segundo plano. Depressão e ansiedade merecem avaliação própria em quem tem SOP, mesmo quando as manifestações físicas já estão sendo tratadas.1

A SOP envolve alterações hormonais e metabólicas, com manifestações variáveis. Acne, pelos indesejados, alterações menstruais e preocupações com a fertilidade podem ter repercussões emocionais. Também existem pressões sociais e comentários sobre aparência ou peso. Essas experiências não são iguais para todas, e a associação entre SOP e sofrimento psicológico não permite atribuir cada caso a uma causa hormonal única.2

Ao pesquisar o assunto, você poderá encontrar PMOS — Polyendocrine Metabolic Ovarian Syndrome. Fontes internacionais passaram a usar esse nome para a condição anteriormente chamada PCOS, em inglês, a partir de maio de 2026. Trata-se da mesma condição; neste texto, mantemos SOP, nome pelo qual muitas pacientes a conhecem.3

O que mudou na vida, além dos exames?

Sentir preocupação com um diagnóstico não significa, por si só, ter um transtorno mental. A persistência dos sintomas e sua interferência na rotina ajudam a orientar a avaliação. Na depressão, podem aparecer perda de interesse, desânimo, dificuldade de concentração, culpa e afastamento das pessoas. Não é necessário apresentar todos esses sinais para procurar ajuda.4

Uma descrição concreta costuma esclarecer mais do que dizer apenas “estou estressada”. Por exemplo: “Tenho recusado convites porque fico pensando no que vão comentar sobre minha aparência” ou “Mesmo nos dias em que me sinto fisicamente bem, não tenho interesse em sair”. São exemplos ilustrativos de informações úteis para a avaliação, sem funcionar como teste de diagnóstico.

O sofrimento também pode envolver a alimentação. Episódios de perda de controle e sofrimento com o corpo precisam ser considerados independentemente do peso.1 Quando essa for a dificuldade principal, o artigo sobre tratamento da compulsão alimentar aprofunda a investigação e as opções de tratamento.

Por que investigar mesmo sem uma queixa espontânea

A diretriz internacional recomenda rastrear depressão e ansiedade em todas as adultas com SOP, usando instrumentos validados para o contexto local. Isso significa investigar ativamente esses sintomas, sem depender de a paciente mencioná-los primeiro.1

Um questionário ajuda a identificar quem precisa de avaliação clínica. Seu resultado não determina sozinho um diagnóstico nem uma prescrição. O intervalo ideal entre rastreamentos ainda é desconhecido: o diagnóstico de SOP pode ser uma oportunidade inicial, e mudanças clínicas ou acontecimentos de vida podem justificar nova avaliação, conforme julgamento profissional.1

O que o tratamento pode trabalhar

O plano pode incluir psicoterapia, medicamentos ou ambos, conforme a intensidade dos sintomas, a história clínica e as preferências da paciente. Em depressões moderadas ou graves, a medicação pode integrar o tratamento desde o início.4 Não é preciso primeiro emagrecer, normalizar exames ou concluir uma tentativa de psicoterapia para receber tratamento psiquiátrico quando indicado.1,4 Na escolha e no acompanhamento do medicamento, também se considera seu possível efeito sobre o peso e os sintomas da SOP.1

Na terapia cognitivo-comportamental (TCC), a paciente pode trabalhar pensamentos de desvalorização pessoal e comportamentos que limitam sua rotina.4 No exemplo dos convites recusados, isso pode envolver examinar o receio de ser julgada pela aparência e a decisão de evitar encontros por esse motivo. Tratar esse sofrimento não significa atribuir à SOP uma origem emocional.

Há pesquisa específica nessa população. Em um ensaio no Irã com 84 mulheres com SOP e sintomas depressivos e ansiosos, o grupo que participou de oito sessões semanais de TCC foi comparado a um grupo de controle que recebeu o tratamento medicamentoso habitual da SOP. No Inventário de Depressão de Beck (BDI), que vai de 0 a 63 pontos, com valores maiores indicando mais sintomas, a média caiu de 24,4 para 6,7 no grupo de TCC. No controle, passou de 23,3 para 24,5.5

Foi uma redução expressiva de sintomas ao final das sessões, mas essas médias não informam quantas participantes entraram em remissão. O estudo era pequeno, quase todas tinham infertilidade, participantes e avaliadores sabiam qual tratamento havia sido recebido, e não houve acompanhamento prolongado. O resultado apoia a utilidade da intervenção naquele contexto, sem prever a melhora de cada paciente.5

Como perceber se a vida está menos limitada

Além de acompanhar os sintomas, ajuda definir o que se deseja recuperar. Retomar um encontro com amigas, voltar a uma atividade abandonada ou conseguir se concentrar no trabalho são exemplos de objetivos que podem ser discutidos com o profissional. Eles permitem observar mudanças que um resultado de exame não descreve.

Esses objetivos devem corresponder ao que incomoda a paciente, sem pressupor que todas desejem engravidar, perder peso ou modificar a aparência. Para uma mulher, a maior dificuldade pode ser o isolamento; para outra, a ansiedade persistente. Quem apresenta os dois grupos de sintomas pode aprofundar essa relação no texto sobre ansiedade e depressão ao mesmo tempo.

Se o sofrimento persiste, relatar há quanto tempo começou e quais atividades foram prejudicadas já oferece um ponto de partida para a avaliação.4

Referências

  1. Teede HJ, Tay CT, Laven J, Dokras A, Moran LJ, Piltonen TT, et al. Recommendations from the 2023 International Evidence-based Guideline for the Assessment and Management of Polycystic Ovary Syndrome. Fertil Steril. 2023;120(4):767-793. doi:10.1016/j.fertnstert.2023.07.025. Disponível em: https://integration.asrm.org/globalassets/_asrm/practice-guidance/practice-guidelines/pdf/recommendations_from_the_2023_int_evidence-based_guideline_on_pcos.pdf.
  2. World Health Organization. Polycystic ovary syndrome [Internet]. Geneva: WHO; 2026 Jan 22 [citado 2026 out 28]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/polycystic-ovary-syndrome.
  3. Monash University. PCOS Guideline/PMOS Guideline [Internet]. Melbourne: Monash Centre for Health Research and Implementation; [citado 2026 out 28]. Disponível em: https://www.monash.edu/medicine/mchri/pcos/guideline.
  4. National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado 2026 out 28]. NIH Publication No. 24-MH-8079. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/depression.
  5. Majidzadeh S, Mirghafourvand M, Farvareshi M, Yavarikia P. The effect of cognitive behavioral therapy on depression and anxiety of women with polycystic ovary syndrome: a randomized controlled trial. BMC Psychiatry. 2023;23:332. doi:10.1186/s12888-023-04814-9. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1186/s12888-023-04814-9.

Ilustração: erico / JSHG / DBCLS, CC BY 4.0. Adaptada para formato horizontal, com fundo branco.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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