Ansiedade de separação em adultos: quando o medo de se afastar limita a rotina

Postado em: 18/10/2026

Duas pessoas acenam na plataforma de uma estação, junto a um trem.

Considere esta situação ilustrativa: uma pessoa recebe a oportunidade de viajar a trabalho, mas desiste porque imagina que algo grave acontecerá à mãe durante sua ausência. A mãe está bem e tem apoio; mesmo assim, a possibilidade de ficar longe parece insuportável. Cancelar a viagem traz alívio, mas também uma perda profissional.

A ansiedade de separação pode ocorrer em adultos. O transtorno envolve medo excessivo de se afastar de pessoas com quem existe um vínculo importante, com sofrimento ou prejuízo na vida. A intensidade, a persistência e o contexto desse medo precisam ser avaliados; a situação descrita, sozinha, não permite um diagnóstico.¹

Quando ficar perto se torna uma condição para fazer as coisas

O receio pode aparecer antes de uma viagem, na hora de sair de casa ou ao dormir sem alguém próximo. Algumas pessoas temem perder esse familiar ou que ele sofra algum dano. Podem surgir sintomas físicos, dificuldade de tolerar o afastamento e pedidos repetidos de confirmação de que está tudo bem.¹

Também é possível que os sintomas comecem na vida adulta. Um estudo com 38.993 adultos de 18 países identificou tanto início na infância quanto depois dos 18 anos. Portanto, não ter passado por isso quando criança não exclui a possibilidade atual. O estudo investigou a história relatada pelos participantes; não permite prever quem desenvolverá o transtorno.²

Saudade, proximidade familiar e morar com parentes não são, por si, sinais de doença. Há diferença entre um medo desproporcional e a preocupação de quem acompanha alguém gravemente doente ou enfrenta uma ameaça real. Violência, necessidade de assistência e condições de segurança precisam ser consideradas antes de propor mais independência.

Na descrição diagnóstica para adultos, a persistência costuma ser de seis meses ou mais. Isso não significa esperar esse prazo para pedir ajuda quando já existe sofrimento ou limitação.¹

O que está por trás da dificuldade de sair?

“Não consigo sair sozinho” pode descrever experiências diferentes. Na ansiedade generalizada, as preocupações se espalham por vários assuntos; no transtorno de pânico, pode predominar o medo de novas crises.¹ Uma perda recente, uma mudança importante ou sintomas depressivos também precisam ser compreendidos na avaliação. Mais de um problema pode estar presente.²

Por isso, interessa saber o que a pessoa imagina que aconteceria durante o afastamento. Teme que o familiar morra? Que não consiga ajudá-lo? Que ela própria passe mal sem aquela companhia? O mesmo comportamento — desistir de sair — pode ter razões diferentes. Medo de abandono, isoladamente, também não define um transtorno de personalidade.

Ajuda contar o que vem depois desse medo: telefonar, conferir mensagens, pedir que alguém acompanhe ou cancelar a atividade. É útil observar se isso traz alívio e por quanto tempo. Esses detalhes permitem relacionar a ansiedade às escolhas que passaram a restringir a rotina, em vez de resumir tudo ao rótulo de “dependência emocional”.

Como essa sequência pode ser trabalhada na terapia

A psicoterapia pode explorar o sentido da separação, as ameaças imaginadas e as respostas ao medo. Abordagens diferentes vêm sendo estudadas, incluindo terapias centradas nos vínculos e a terapia cognitivo-comportamental, ou TCC.³˒⁴

Retomando a situação ilustrativa, a pessoa e o terapeuta poderiam relacionar quatro elementos: viajar; imaginar a mãe desamparada; cancelar a viagem ou checar repetidamente se ela está bem; e desejar voltar a aceitar compromissos profissionais. O trabalho começaria por esclarecer as necessidades reais da mãe e o que torna o afastamento tão ameaçador.

Na TCC, esse entendimento pode orientar uma retomada gradual de atividades, planejada em conjunto e acompanhada pelo terapeuta. Ao comparar o que temia com o que de fato aconteceu, a pessoa pode rever suas interpretações e planejar, com o terapeuta, a próxima tentativa.⁴ Trata-se de uma possibilidade de trabalho clínico, não de uma instrução para viajar de repente, cortar contato ou deixar alguém sem a assistência de que precisa.

O que os estudos mostram sobre a melhora

Os estudos específicos em adultos ainda são pequenos. Em um piloto de psicoterapia centrada nos vínculos, seis pessoas com resposta insuficiente a tratamentos anteriores para ansiedade iniciaram e cinco concluíram 12 semanas. Nesses cinco participantes, a pontuação média de ansiedade geral caiu de 18,6 para 8,8 — nessa escala, valores menores indicam menos sintomas. Sem grupo de comparação, não é possível determinar quanto da mudança se deveu à terapia ou estimar uma taxa de sucesso.³

Uma publicação de 2026 descreveu três adultos tratados com TCC: os autores relataram remissão nos três, com sintomas muito reduzidos ao final do tratamento. Dois deles também usaram medicamentos. São relatos clínicos úteis para conhecer o trabalho terapêutico; não permitem concluir que esse resultado ocorrerá na mesma proporção em outros pacientes.⁴

Medicamentos podem ser avaliados conforme os sintomas e os transtornos associados. Um estudo piloto comparou vilazodona e placebo em 24 adultos durante 12 semanas. Ao longo do tratamento, as avaliações de sintomas de separação e de satisfação com a qualidade de vida favoreceram o medicamento. A proporção de participantes com resposta na semana 12, porém, não diferiu de forma estatisticamente significativa. Esse resultado não estabelece a vilazodona como tratamento de primeira escolha para ansiedade de separação adulta.⁵

O apoio de quem está próximo e o primeiro atendimento

Quem acompanha pode ajudar a descrever o que ficou difícil, oferecer companhia para a consulta e participar do planejamento quando a pessoa desejar. Se os pedidos de confirmação ocupam grande parte do dia, isso pode ser levado ao profissional. Não é necessário transformar a família em fiscal do celular, ameaçar afastamento ou impor uma proibição de mensagens.

Para organizar o primeiro relato, escolha uma situação recente e anote:

  • O afastamento que provoca medo: de quem, em qual situação e desde quando isso acontece.
  • A consequência temida e a reação: o que imagina que pode acontecer, o que faz para aliviar a ansiedade e se há algum risco concreto.
  • O que deixou de fazer: trabalhar, estudar, dormir ou participar de uma atividade que gostaria de retomar.

Essas anotações não são um teste. Elas ajudam a explicar como o medo interfere na rotina. O progresso poderá ser observado naquilo que volta a ser possível: cumprir um compromisso, descansar ou passar algum tempo longe sem precisar abandonar os vínculos importantes da própria vida.

Referências

  1. American Psychiatric Association. What are anxiety disorders? [Internet]. Revisão médica indicada: maio de 2026 [citado 18 out 2026].

2. Silove D, Alonso J, Bromet E, Gruber M, Sampson N, Scott K, et al. Pediatric-onset and adult-onset separation anxiety disorder across countries in the World Mental Health Survey. Am J Psychiatry. 2015;172(7):647–656. doi:10.1176/appi.ajp.2015.14091185.

3. Milrod B, Altemus M, Gross C, Busch F, Silver G, Christos P, et al. Adult separation anxiety in treatment nonresponders with anxiety disorders: delineation of the syndrome and exploration of attachment-based psychotherapy and biomarkers. Compr Psychiatry. 2016;66:139–145. doi:10.1016/j.comppsych.2016.01.004.

4. Umut Kılınç S, Engel FN, Devrim Balaban Ö. Cognitive behavioral therapy for separation anxiety disorder: three cases. J Cogn Behav Psychother Res. 2026;15(2):116–126. doi:10.14744/JCBPR.2026.90560.

5. Schneier FR, Moskow DM, Choo TH, Galfalvy H, Campeas R, Sanchez-Lacay A. A randomized controlled pilot trial of vilazodone for adult separation anxiety disorder. Depress Anxiety. 2017;34(12):1085–1095. doi:10.1002/da.22693.

Imagem: RDNE Stock project. Pexels.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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