Antidepressivos e amamentação: o que considerar para tratar a mãe e cuidar do bebê?

Postado em: 17/10/2026

Bebê mamando em enquadramento próximo

Em muitas situações, é possível usar um antidepressivo e continuar amamentando. A escolha considera o tratamento de que a mãe precisa, o que já funcionou e a saúde do bebê. Estar amamentando, por si só, não é motivo para interromper uma medicação eficaz.1

Há uma diferença importante entre começar um antidepressivo após o parto e decidir o que fazer com um tratamento que já vinha funcionando. Encontrar na internet outro medicamento descrito como “preferencial” não resolve essa segunda decisão.

Se o antidepressivo já estava funcionando

Sertralina e paroxetina são opções preferenciais entre os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os ISRS, nas orientações do serviço britânico de informação sobre medicamentos SPS. As pequenas quantidades que costumam passar para o leite são um dos motivos dessa preferência. A recomendação se aplica a bebês saudáveis e nascidos a termo, sem prematuridade.2

O mesmo documento esclarece que não é necessário substituir um ISRS usado com sucesso durante a gravidez apenas para escolher um desses dois medicamentos, desde que o bebê tenha nascido a termo e esteja saudável. “Preferencial” ajuda a orientar uma escolha inicial; não significa que todo tratamento diferente deva ser trocado.2

Na consulta, conte quanto o tratamento ajudou e o que aconteceu em tentativas anteriores de troca ou retirada. Esses dados têm peso na decisão. Se a medicação só começou depois do parto, se não houve boa resposta ou se o bebê nasceu prematuro, a avaliação precisa considerar essas circunstâncias; a orientação de manter o tratamento não deve ser aplicada automaticamente.

Esse planejamento pode começar durante a gravidez. O artigo sobre antidepressivos na gravidez aborda as decisões desse período, que serão revistas à luz das condições após o nascimento.

Se for preciso começar agora

A escolha reúne duas perguntas: qual medicamento tem boa possibilidade de tratar o quadro da mãe e o que se conhece sobre seu uso durante a lactação? Uma resposta favorável a um tratamento anterior pode ser especialmente útil. Também entram na avaliação os efeitos que a mulher já apresentou e os demais medicamentos em uso.1

Há alternativas além dos ISRS. Duloxetina, mirtazapina, trazodona e venlafaxina, por exemplo, têm recomendações específicas de uso e acompanhamento na amamentação. A quantidade de dados varia, e ter menos estudos não equivale, sozinho, a ser um medicamento proibido. Isso exige uma análise própria, especialmente quando o bebê não se enquadra no grupo de nascidos a termo e saudáveis.3

O diagnóstico também muda a escolha. Se há transtorno bipolar ou episódios anteriores de mania ou hipomania, a decisão não se resume a escolher um antidepressivo compatível com a amamentação. É preciso avaliar o tratamento do transtorno bipolar como um todo.1 Esse planejamento é explicado no texto sobre bipolaridade na gravidez e no pós-parto.

A idade e a saúde do bebê fazem diferença

O organismo de um recém-nascido ainda está amadurecendo sua capacidade de eliminar medicamentos. Isso merece atenção particular nos prematuros. A idade atual, doenças do bebê e outros remédios que ele recebe também podem modificar a avaliação.4

Por isso, uma orientação adequada para um bebê saudável de alguns meses não deve ser simplesmente transferida para um prematuro recém-nascido. Se o bebê precisa de acompanhamento mais próximo, isso não determina, por si só, a interrupção do tratamento materno ou da amamentação. Os profissionais precisarão ajustar o plano à situação.

Passar para o leite é o mesmo que afetar o bebê?

São etapas diferentes. Primeiro, considera-se quanto do medicamento passa para o leite. Depois, quanto o bebê absorve e consegue eliminar. Para entender se houve algum efeito, é necessário observar sua condição clínica; a presença de uma substância no leite não responde a todas essas perguntas.4

Um estudo de 2024 ajuda a visualizar essa diferença. Os pesquisadores avaliaram 37 mães e seus bebês, durante o uso de sertralina, citalopram ou paroxetina. Os medicamentos foram encontrados no leite. No grupo da sertralina, formado por 15 bebês, as concentrações sanguíneas foram muito baixas ou não detectáveis.5

Esse resultado informa sobre a exposição naquele estudo. Não significa ausência absoluta de medicamento nem demonstra risco zero: foi uma amostra pequena, com uma coleta de sangue por bebê, que não permite excluir efeitos raros ou avaliar o desenvolvimento ao longo de anos.5

O que acompanhar no dia a dia

O pediatra pode orientar a observação das mamadas, do despertar para se alimentar, de sonolência ou irritabilidade fora do habitual e da evolução do peso. A proposta é reconhecer mudanças relevantes, não vigiar cada movimento do bebê. Uma alteração merece avaliação, mas não prova que o antidepressivo foi a causa.3,4

Se o bebê estiver muito difícil de despertar ou não conseguir mamar, procure avaliação urgente. Não espere a consulta programada nem atribua o sinal automaticamente ao remédio.6

O acompanhamento também precisa verificar se a mãe está melhorando e como tolera o tratamento.1 Relate mudanças concretas: houve diminuição da tristeza ou da ansiedade? Ficou mais fácil se alimentar, tomar decisões e realizar tarefas? Algum efeito do medicamento está atrapalhando o dia?

Se amamentar estiver difícil, informe os profissionais que acompanham você e o bebê. Pode ser necessário apoio específico para a alimentação do bebê, além da avaliação psiquiátrica.3 Diga também com quem pode dividir tarefas e se está passando o dia ou a noite sem ajuda. Essas condições precisam entrar no planejamento do acompanhamento. Para reconhecer sintomas maternos que merecem avaliação, veja depressão pós-parto e baby blues.

O que levar à consulta

Para que o prescritor e o pediatra avaliem a mesma situação, reúna:7

  • Sobre o tratamento: nome e dose dos medicamentos, quando começaram, quais foram usados na gravidez e como foi a resposta. Inclua produtos sem receita, suplementos e fitoterápicos.
  • Sobre o bebê: com quantas semanas nasceu, idade atual, condições de saúde e medicamentos que recebe.
  • Sobre a alimentação: se recebe apenas leite materno ou também outras formas de alimentação, dificuldades nas mamadas e mudanças percebidas.

Se os profissionais atendem em serviços diferentes, leve a receita e as orientações recebidas de um para o outro. Ao final, combine o que observar, quando será a reavaliação e quem procurar se houver uma mudança.

Não há uma regra universal de esperar certo número de horas entre o comprimido e a mamada, nem de descartar o leite. Essas estratégias dependem do medicamento e podem ser impraticáveis para quem amamenta com frequência.4 Se uma advertência na bula gerar dúvida, converse com os profissionais antes de mudar o plano. Evite suspender o antidepressivo de repente ou interromper a amamentação automaticamente.2

Referências

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Treatment and Management of Mental Health Conditions During Pregnancy and Postpartum: ACOG Clinical Practice Guideline No. 5. Obstet Gynecol. 2023;141(6):1262–1288. doi:10.1097/AOG.0000000000005202. Texto integral.
  2. NHS Specialist Pharmacy Service. Using SSRI antidepressants during breastfeeding [Internet]. 2023 Jan 13 [atualizado em 17 nov 2023; citado em 17 out 2026]. Disponível aqui.
  3. NHS Specialist Pharmacy Service. Using certain antidepressants during breastfeeding [Internet]. 2023 Nov 15 [atualizado em 17 nov 2023; citado em 17 out 2026]. Disponível aqui.
  4. NHS Specialist Pharmacy Service. Advising on medicines during breastfeeding [Internet]. [Atualizado em 31 mar 2026; citado em 17 out 2026]. Disponível aqui.
  5. Den Besten-Bertholee D, Touw DJ, Damer EA, Mian P, Ter Horst PGJ. Sertraline, citalopram and paroxetine in lactation: passage into breastmilk and infant exposure. Front Pharmacol. 2024;15:1414677. doi:10.3389/fphar.2024.1414677.
  6. National Health Service. When to get urgent medical help for babies and children under 5 [Internet]. [Revisado em 6 ago 2026; citado em 17 out 2026]. Disponível aqui.
  7. NHS Specialist Pharmacy Service. Questions to ask when giving advice on medicines and breastfeeding [Internet]. [Atualizado em 31 mar 2026; citado em 17 out 2026]. Disponível aqui.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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