Apertar os dentes depois de iniciar um antidepressivo: pode haver relação?
Postado em: 21/10/2026
Pode haver relação entre o uso de antidepressivos e o aparecimento de apertamento ou ranger dos dentes. Existem relatos de sintomas após o início ou a mudança do tratamento, mas a sequência no tempo, sozinha, não comprova que o medicamento seja a causa. A investigação considera o que já acontecia antes, as outras prescrições e fatores como estresse e problemas do sono.1,2
Bruxismo é o nome usado para o apertamento ou ranger dos dentes, que pode acontecer acordado ou durante o sono. Algumas pessoas percebem que mantêm os dentes apertados enquanto se concentram; outras só descobrem o ranger noturno porque alguém o ouviu. Dor ou cansaço na mandíbula e sensibilidade dentária também podem motivar a avaliação.3
Comece pelo que mudou
É útil contar ao prescritor quando o sintoma começou em relação ao antidepressivo. Já havia apertamento antes? Ele surgiu depois de iniciar o medicamento ou de alterar a dose? O desconforto aparece durante o dia, ao acordar ou em ambos os momentos? Esses detalhes ajudam a relacionar o sintoma às mudanças no tratamento.1
Uma anotação breve pode reunir:
- Data aproximada do início e das mudanças no tratamento.
- O que foi percebido: apertamento, ranger ouvido por outra pessoa, dor ou cansaço na mandíbula.
- Repercussões, como sensibilidade ao comer ou dificuldade para mastigar.
- Outros medicamentos e mudanças no sono, no estresse ou no consumo de cafeína e álcool.
Problemas do sono, tensão emocional e hábitos também se associam ao bruxismo. Não há uma observação caseira capaz de separar, com segurança, “bruxismo da ansiedade” de “bruxismo do remédio”.2,4
Se alguém percebe ronco alto, pausas na sua respiração ou engasgos durante a noite, informe isso ao médico. Esses sinais podem motivar investigação de apneia do sono, que pode coexistir com o bruxismo. Conforme o caso, um exame do sono ajuda a esclarecer o que acontece durante a noite.3,4,5
Não interrompa e reinicie o antidepressivo para testar a hipótese. Leve o relato a quem prescreveu e mantenha a investigação odontológica. Se utiliza várias medicações, o texto sobre como organizar a revisão do esquema pode ajudar na preparação.
Por que a relação com o remédio exige avaliação
Uma revisão crítica publicada em 2026 sobre antidepressivos e bruxismo examinou relatos e séries de casos, além de estudos que avaliaram os participantes em um único momento. As avaliações variavam muito e frequentemente se baseavam no relato dos participantes. Faltava uma comparação adequada entre o período anterior e o posterior ao início do medicamento que também considerasse a influência de fatores psicológicos.2
Isso limita a atribuição da causa, mas não descarta uma possível reação adversa. Na decisão sobre o tratamento, o prescritor considera o benefício do antidepressivo, a intensidade do desconforto e o resultado da avaliação odontológica. Fluoxetina, sertralina e venlafaxina são exemplos de medicamentos presentes nesses relatos, que não permitem comparar o risco entre antidepressivos.1,2
O dentista e o prescritor avaliam partes diferentes do problema
O dentista procura sinais como dentes lascados, desgaste do esmalte e danos em restaurações, além de examinar a sensibilidade e os músculos da mandíbula. Se você percebeu uma lasca nova, sensibilidade nos dentes ou dor na mandíbula, marque a avaliação sem esperar a próxima revisão de rotina. Esses achados ajudam a identificar danos e a necessidade de tratamento odontológico, mas não comprovam que o antidepressivo seja a causa.2,3,4
Quando indicada, uma placa pode proteger os dentes do dano associado ao apertamento e ao ranger. Ela deve ser escolhida e ajustada pelo dentista e não substitui a investigação das causas do bruxismo.3,4
O prescritor pode avaliar um ajuste de dose ou a troca do antidepressivo, considerando a relação com o início do sintoma, outras causas possíveis e o benefício do tratamento. A revisão de relatos clínicos descreve melhora com essas e outras intervenções, mas não permite definir uma estratégia superior para todos nem um prazo garantido de recuperação.1
Se o apertamento acontece enquanto você está acordado
Perceber as situações em que mantém os dentes apertados pode ajudar a interromper esse hábito durante a vigília. Um lembrete discreto na mesa ou no celular pode servir para notar a posição da mandíbula e deixar os dentes separados em repouso. Essa orientação se aplica ao período acordado; não significa que seja possível controlar voluntariamente o ranger durante o sono.3
Quando os dentes ou a mandíbula estiverem doloridos, evite mascar chiclete e comer alimentos muito duros enquanto a região estiver sensível.4
No acompanhamento, observe se a dor, a sensibilidade e o cansaço mandibular diminuíram e se ficou mais confortável comer ou realizar suas atividades. Se houver ranger noturno percebido por outra pessoa, esse relato também ajuda. Sintomas persistentes ou sinais de dano dentário justificam avaliação, sem esperar que o desconforto se torne intenso.4
Referências
- Garrett AR, Hawley JS. SSRI-associated bruxism: a systematic review of published case reports. Neurol Clin Pract. 2018;8(2):135–141.
- Leonan-Silva B, Manfredini D, Machado EV, da Silva Filho VF, Rodarte L, Flecha OD, et al. Assessment of self-reported and clinically reported bruxism in studies on selective serotonin reuptake inhibitors and serotonin-norepinephrine reuptake inhibitors use: a critical appraisal aligned with the Standardized Tool for the Assessment of Bruxism principles. J Am Dent Assoc. 2026 Jul 25:S0002-8177(26)00267-9. Publicação antecipada online.
- National Institute of Dental and Craniofacial Research. Bruxism [Internet]. Revisado em mar 2025 [citado em 21 out 2026].
- NHS. Teeth grinding (bruxism) [Internet]. Revisado em 8 abr 2026 [citado em 21 out 2026].
- NHS. Sleep apnoea [Internet]. Revisado em 11 maio 2026 [citado em 21 out 2026].
Foto: Gustavo Fring / Pexels.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.