Antidepressivos e risco de sangramento: cuidados com anti-inflamatórios e anticoagulantes
Postado em: 20/10/2026
Monitor de INR, utilizado no acompanhamento da varfarina. Foto: Thilo Parg / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0. Redimensionada para publicação.
Usar um antidepressivo junto de um anticoagulante pode fazer parte de um tratamento necessário. A associação exige atenção ao risco de sangramento, mas não é, por si só, motivo para interromper os medicamentos. A decisão considera por que cada um foi prescrito e como acompanhar o uso conjunto.1
A revisão precisa incluir também o remédio para dor usado por poucos dias. Anti-inflamatórios comprados sem receita entram nessa avaliação, mesmo quando o uso é ocasional.
O que o antidepressivo tem a ver com sangramento?
As plaquetas ajudam a conter um sangramento ao se ativarem e se agruparem no local da lesão. A serotonina participa desse processo. Antidepressivos da classe dos inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os ISRS, podem reduzir a serotonina armazenada nas plaquetas e interferir em seu funcionamento. Isso não exige que a quantidade de plaquetas no sangue esteja baixa.2
A sertralina é um exemplo dessa classe. Sua associação com anti-inflamatórios, antiagregantes ou anticoagulantes pode aumentar o risco de sangramento.3 Isso não transforma o antidepressivo em um anticoagulante nem permite atribuir o mesmo risco a todos os antidepressivos.
Três grupos de medicamentos que precisam ser diferenciados
A expressão “remédio para afinar o sangue” pode reunir medicamentos que agem de maneiras diferentes. Identificar o nome exato evita confusões na consulta.4
| Grupo | Exemplos | Por que informar o uso |
|---|---|---|
| Anticoagulantes | Varfarina e apixabana | Interferem no processo de coagulação para prevenir ou tratar coágulos. O acompanhamento depende do medicamento. |
| Antiagregantes plaquetários | AAS em baixa dose e clopidogrel | Reduzem a agregação das plaquetas. Precisam ser considerados mesmo quando o paciente não os chama de “anticoagulantes”. |
| Anti-inflamatórios não esteroides, ou AINEs | Ibuprofeno e naproxeno | Usados para dor e inflamação, também podem aumentar o risco de sangramento nas associações descritas. |
Esses exemplos ajudam a reconhecer os grupos, mas não substituem a lista completa das receitas e dos produtos usados sem prescrição.3,4
Considere uma situação: alguém em tratamento para depressão e em uso de anticoagulante pensa em tomar ibuprofeno por alguns dias para uma dor nas costas. Como seria temporário, não o inclui entre seus medicamentos. Esse é justamente um uso que deve ser informado ao médico ou farmacêutico antes de começar. Levar uma foto da embalagem ajuda a identificar o produto, inclusive quando o nome comercial não é familiar à equipe.
Que aumento de risco foi observado?
Um estudo publicado em 2024 analisou registros de pessoas com fibrilação atrial, uma alteração do ritmo cardíaco, predominantemente idosas. O uso de ISRS com anticoagulante oral esteve associado a uma taxa 33% maior de sangramentos que levaram à internação ou à morte, em comparação com o anticoagulante isolado. A associação foi mais forte nos primeiros meses de uso conjunto.1
Os 33% representam uma diferença relativa entre taxas: não significam que 33 em cada 100 pacientes sangraram, nem um aumento de 33 pontos percentuais. Esse resultado, sozinho, não informa a probabilidade individual. Como o estudo foi observacional, diferenças entre os pacientes também podem ter influenciado a associação. O achado se refere a ISRS com anticoagulantes nessa população; não é uma estimativa para qualquer antidepressivo ou combinação.1
Como organizar o acompanhamento
Para uma revisão dos medicamentos, reúna as receitas em uma única lista. Acrescente o que toma ocasionalmente, quando começou cada medicamento e quais doses foram alteradas recentemente. Se já houve sangramento, informe quando ocorreu, como se manifestou e se precisou de atendimento. Também identifique quem acompanha a anticoagulação, para que uma mudança feita por um prescritor seja conhecida pelo outro.
Uma pergunta útil é: “Se eu precisar de um remédio para dor ou receber uma nova receita, com quem devo conferir a associação?”
Para quem usa varfarina, o INR é um exame que ajuda a acompanhar o efeito anticoagulante. O médico pode precisar rever sua monitorização ao avaliar uma associação medicamentosa. Já a apixabana e outros anticoagulantes orais diretos não são acompanhados por INR de rotina; isso não dispensa os retornos e a avaliação de efeitos adversos.3,5
Não suspenda, troque nem reorganize os horários por conta própria para tentar resolver uma interação. Leve a dúvida aos prescritores, que podem avaliar a necessidade de cada medicamento e definir o acompanhamento.
Sangramento intenso ou persistente, vômito com sangue ou fezes negras exigem atendimento de urgência. Não espere a consulta habitual nem conclua que a causa é apenas o antidepressivo. Leve a lista de medicamentos ou, se possível, as embalagens para a avaliação.6
Referências
- Rahman AA, Platt RW, Beradid S, Boivin JF, Rej S, Renoux C. Concomitant use of selective serotonin reuptake inhibitors with oral anticoagulants and risk of major bleeding. JAMA Netw Open. 2024;7(3):e243208. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.3208. Texto integral.
- McCloskey DJ, Postolache TT, Vittone BJ, Nghiem KL, Monsale JL, Wesley RA, et al. Selective serotonin reuptake inhibitors (SSRIs): measurement of effect on platelet function. Transl Res. 2008;151(3):168–172. doi:10.1016/j.trsl.2007.10.004. Texto integral.
- Viatris Specialty LLC. ZOLOFT — sertraline hydrochloride: prescribing information [Internet]. DailyMed; atualizado em 8 ago 2023 [citado em 20 out 2026]. Seções 5.3, 7.1 e 17. Disponível em: DailyMed — informação de prescrição norte-americana.
- NHS. Anticoagulant medicines: overview [Internet]. Revisado em 9 set 2024 [citado em 20 out 2026]. Disponível em: NHS — visão geral dos anticoagulantes.
- NHS. Anticoagulant medicines: dosage [Internet]. Revisado em 9 set 2024 [citado em 20 out 2026]. Disponível em: NHS — acompanhamento da anticoagulação.
- NHS. Anticoagulant medicines: side effects [Internet]. Revisado em 9 set 2024 [citado em 20 out 2026]. Disponível em: NHS — efeitos adversos dos anticoagulantes.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.