Cetamina pode causar dependência? O que se sabe sobre o uso médico

Postado em: 04/10/2026

Homem sentado em poltrona usa um aplicador nasal enquanto uma mulher de uniforme azul observa.

A cetamina tem potencial de uso problemático e dependência, e esse risco precisa entrar na avaliação médica.1 Precisar de aplicações de manutenção para preservar a melhora da depressão, porém, não significa, por si só, ter desenvolvido dependência. Em um estudo com escetamina nasal associada a antidepressivo oral, continuar o spray ajudou a adiar a recaída em pessoas que já haviam melhorado.2

O acompanhamento considera tanto a evolução da depressão quanto o modo como a substância é usada. O número de aplicações, sozinho, não resolve essa dúvida.

O que significa dependência nesta conversa

A palavra “vício” costuma reunir preocupações distintas: perder o controle, precisar de quantidades crescentes ou voltar a se sentir mal quando o tratamento termina. Uma dessas experiências não permite concluir automaticamente que as outras estejam presentes.

Termo O que descreve
Tolerância Redução da resposta a uma substância após uso repetido. Não é sinônimo de uso compulsivo.1
Dependência física Adaptação do organismo que pode se manifestar por sintomas de abstinência quando a substância é interrompida ou reduzida de forma importante.1
Uso problemático Uso que passa a causar prejuízo. Um transtorno por uso envolve avaliação de um padrão mais amplo, que pode incluir dificuldade de controle e persistência apesar das consequências.3
Manutenção terapêutica Continuidade do tratamento para tentar preservar o benefício obtido e prevenir recaídas, com reavaliação clínica.2

Essas distinções ajudam a conversar sobre o problema sem rotular a pessoa. Ter medo de voltar a ficar deprimido ou desejar alívio não equivale, isoladamente, a um padrão compulsivo. O que merece investigação é como o uso está acontecendo e quais consequências produz.3

Da mesma forma, uma piora do humor ou uma aplicação percebida como menos eficaz não basta para afirmar que houve tolerância. A comparação precisa considerar a evolução dos sintomas e o restante do tratamento, e não apenas a impressão de uma sessão.

O que os estudos do uso supervisionado permitem dizer

Um dos principais acompanhamentos prolongados é o SUSTAIN-3, com 1.148 participantes provenientes de estudos anteriores. Eles receberam escetamina em spray nasal, associada a antidepressivo oral, por uma média de 42,9 meses. Não foram identificados novos sinais de segurança no conjunto dos dados, e a melhora da depressão geralmente se manteve entre aqueles que continuaram no tratamento.4

O estudo não tinha grupo de comparação e reuniu uma população selecionada. Houve saídas do acompanhamento, e o fabricante participou da pesquisa. Portanto, os resultados precisam ser lidos dentro dessas condições: não demonstram risco zero nem fornecem uma porcentagem de dependência aplicável a qualquer pessoa que receba cetamina.4

A preparação e a via também importam. Resultados com spray nasal não estabelecem o risco ou o protocolo da escetamina subcutânea. Embora as duas formas apareçam sob o nome “cetamina” em conversas sobre depressão, os dados de uma não devem ser transferidos automaticamente para a outra.

No tratamento supervisionado, a equipe pode rever o benefício, observar efeitos adversos e acompanhar mudanças no padrão de uso. A bula norte-americana do spray de escetamina recomenda avaliar esse risco antes do início e monitorá-lo durante o tratamento, com atenção ao histórico de uso problemático de substâncias.1

O acompanhamento vai além do período da aplicação. O Ketamine Side Effect Tool (KSET), desenvolvido para registrar efeitos da cetamina, reúne avaliações antes do tratamento, em cada aplicação e no seguimento prolongado. O instrumento organiza esse registro, mas seu estudo de desenvolvimento não demonstrou que utilizá-lo elimine riscos.5

Precisar continuar o tratamento significa dependência?

O estudo SUSTAIN-1 ajuda a entender por que essa conclusão não é automática. Após 16 semanas de tratamento, 297 adultos com depressão resistente que haviam alcançado melhora estável foram sorteados para continuar o spray de escetamina ou receber spray placebo. Ambos os grupos mantiveram o antidepressivo oral.2

Entre os participantes em remissão estável — com sintomas em nível baixo conforme o critério da pesquisa — houve recaída em 24 de 90 (26,7%) que continuaram a escetamina e em 39 de 86 (45,3%) que passaram ao placebo. O tempo de acompanhamento variou entre participantes; esses percentuais não representam uma taxa em um mesmo número fixo de meses. A continuidade do spray adiou a recaída nessa população selecionada.2

Os pesquisadores também avaliaram a retirada e não identificaram uma síndrome distinta de abstinência nas duas semanas posteriores à interrupção. O estudo excluiu pessoas com transtorno moderado ou grave por uso de álcool ou outras substâncias nos seis meses anteriores e qualquer histórico de transtorno por uso de cetamina. Esse resultado, portanto, não permite concluir que a interrupção esteja livre de riscos em outros contextos.2

Se os sintomas voltarem depois de espaçar ou encerrar as aplicações, relate o que reapareceu, quando começou e o impacto no dia a dia. A piora exige avaliação; o momento em que ocorreu, sozinho, não esclarece sua causa. O artigo sobre manutenção da melhora após o ciclo inicial de cetamina aprofunda como a continuidade pode ser discutida.

O que vale comunicar à equipe

Informe se já houve dificuldade para controlar o uso de álcool, medicamentos ou outras substâncias. Essa informação ajuda a avaliar riscos e organizar o acompanhamento.1 Você pode começar contando qual substância usava e que dificuldade teve para controlar o uso.

Também merecem atenção a vontade de usar fora da orientação, a procura de aplicações principalmente pelos efeitos subjetivos e a continuidade do uso apesar de prejuízos. Essas situações são motivos para avaliação, não uma lista que confirma um diagnóstico.1,3

Se surgiu vontade de antecipar uma aplicação, conte à equipe o que motivou esse desejo. Ele pode estar ligado ao retorno do desânimo, ao medo de uma recaída ou à busca das sensações da sessão. São possibilidades a esclarecer durante a avaliação.

O relato deve incluir o que melhorou e o que ficou mais difícil entre as aplicações. A segurança não é avaliada apenas pelo que acontece na sala de atendimento; sintomas e dificuldades percebidos em casa também precisam ser considerados.5

Como a decisão de continuar é acompanhada

A revisão do tratamento precisa reunir benefício sobre a depressão, atividades retomadas, efeitos adversos e padrão de uso.1,2,5 O alívio durante uma sessão e a recuperação que se sustenta ao longo dos dias são informações diferentes. Vale contar se voltou a trabalhar, cuidar de tarefas ou participar de encontros, além de descrever como se sentiu logo após a aplicação.

Na consulta, três perguntas podem ajudar a tornar a decisão mais clara:

  • Que benefício estamos tentando preservar com a continuidade?
  • Quais mudanças no humor, nos efeitos adversos ou no padrão de uso fariam rever o plano?
  • Como será acompanhado um eventual espaçamento ou encerramento das aplicações?

Não aumente a frequência nem altere o tratamento por conta própria, e não busque aplicações ou produtos fora da equipe assistente. Se a preocupação com dependência apareceu, leve-a à conversa antes de tomar uma decisão sozinho. Na Genuine Mental Health, essa discussão pode fazer parte da avaliação do tratamento com cetamina.

Referências

  1. Janssen Pharmaceuticals, Inc. Spravato (esketamine hydrochloride) nasal spray: prescribing information. DailyMed. Revisado em mar 2026; registro atualizado em 22 set 2026. Acesso em 3 out 2026.
  2. Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, Li H, Zhang Y, Li X, et al. Efficacy of esketamine nasal spray plus oral antidepressant treatment for relapse prevention in patients with treatment-resistant depression: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2019;76(9):893–903. doi:10.1001/jamapsychiatry.2019.1189.
  3. American Society of Addiction Medicine. Definition of addiction. 2019. Acesso em 3 out 2026.
  4. Zaki N, Chen LN, Lane R, Doherty T, Drevets WC, Morrison RL, et al. Safety and efficacy with esketamine in treatment-resistant depression: long-term extension study. Int J Neuropsychopharmacol. 2025;28(6):pyaf027.
  5. Short B, Dong V, Gálvez V, Vulovic V, Martin D, Bayes AJ, et al. Development of the Ketamine Side Effect Tool (KSET). J Affect Disord. 2020;266:615–620. doi:10.1016/j.jad.2020.01.120.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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