Dissociação durante a cetamina: sentir mais significa melhorar mais?

Postado em: 29/09/2026

Homem observa o próprio reflexo desfocado em um espelho embaçado.

A intensidade da dissociação durante a sessão não permite prever, por si só, quanto a depressão vai melhorar. Alguém pode sentir pouco durante a aplicação e ainda assim responder ao tratamento; uma experiência intensa também não garante melhora.12

O que é dissociação durante a sessão?

Nesse contexto, dissociação descreve alterações passageiras na percepção de si e do ambiente, como sentir o corpo distante ou perceber o lugar como menos real. Esse efeito agudo do medicamento não equivale, por si só, a um transtorno dissociativo.1

A dissociação acompanha a resposta antidepressiva?

Uma análise de dois ensaios de fase 3 com escetamina nasal não encontrou uma relação consistente entre a dissociação durante a aplicação e a melhora antidepressiva posterior. A dissociação também diminuiu com as aplicações repetidas, sem redução correspondente do benefício antidepressivo observado no grupo.1

Com escetamina subcutânea, aplicada sob a pele, um estudo brasileiro analisou 23 participantes que receberam até oito aplicações semanais. Quem teve redução de pelo menos 50% na pontuação da escala de depressão apresentou mais dissociação e sensação de irrealidade do ambiente do que os demais.2

Em outra análise do estudo, não houve associação significativa entre a intensidade da dissociação e as mudanças dos sintomas depressivos ao longo do tratamento na mesma pessoa. Esse resultado responde a uma pergunta diferente da comparação entre quem respondeu e quem não respondeu ao tratamento.2

Outra pesquisa do PRODAF avaliou retrospectivamente 70 pacientes com depressão resistente tratados por via subcutânea ao longo de seis semanas. Nesse grupo, a intensidade dos sintomas dissociativos não se associou à resposta antidepressiva.3

O estudo subcutâneo de 2026 é pequeno e exploratório; a análise nasal partiu de ensaios maiores, mas examinou essa relação posteriormente. Nenhum deles testou se intensificar a dissociação melhoraria o resultado ou comparou diretamente as vias.123

Como perceber se o tratamento está ajudando

Conte à equipe como foi a sessão e como você ficou nos dias seguintes. As sensações durante a aplicação ajudam a acompanhar o atendimento; a evolução da depressão aparece também fora dele.

Na consulta, exemplos concretos ajudam mais do que dizer apenas que a sessão foi forte ou fraca. Ficou menos difícil levantar, cuidar da casa ou conversar com alguém? Alguma atividade voltou a despertar interesse? Essas mudanças podem ser consideradas junto da avaliação médica e das escalas de sintomas.

O artigo sobre resultados do tratamento com cetamina aprofunda como essa evolução é acompanhada.

A experiência deve ser acompanhada, não intensificada como objetivo

Se houver medo, desconforto ou sensações difíceis de descrever, conte à equipe durante o atendimento. Não é necessário suportar uma experiência desagradável por acreditar que ela será mais eficaz. O acompanhamento do nível de consciência e da recuperação integra os cuidados descritos pelo Conselho Federal de Medicina para o uso psiquiátrico da escetamina injetável.4

Dose e continuidade do tratamento devem ser discutidas a partir da melhora dos sintomas, da tolerabilidade e da avaliação clínica — não para tornar a sessão mais intensa.

Referências

  1. Chen G, Chen L, Zhang Y, Li X, Lane R, Lim P, et al. Relationship between dissociation and antidepressant effects of esketamine nasal spray in patients with treatment-resistant depression. Int J Neuropsychopharmacol. 2022;25(4):269–279. doi:10.1093/ijnp/pyab084.
  2. Gonçalves KTC, Tavares VDO, Palhano-Fontes F, Cavalcanti-Ribeiro P, Almeida VRN, Barbosa DC, et al. Dissociation and antidepressant response to subcutaneous esketamine: a clinical study. J Psychiatr Res. 2026;201:674–683. Publicado on-line em 23 jul. 2026; edição de outubro. doi:10.1016/j.jpsychires.2026.07.016.
  3. Del Sant LC, Sarin LM, Lucchese AC, Magalhães EJM, Tuena MA, Nakahira C, et al. Impact of repeated doses of subcutaneous esketamine on acute dissociative symptoms in treatment-resistant depression. Pharmaceuticals (Basel). 2023;16(1):31. doi:10.3390/ph16010031.
  4. Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024: uso da escetamina para o tratamento de transtornos mentais. Brasília: CFM; 2024. Consultado em 26 set. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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