Cetamina e sintomas urinários: o que observar e comunicar durante o tratamento?

Postado em: 03/10/2026

Dois recipientes com amostras de urina sobre uma superfície clara.

Ardor ao urinar, vontade de ir ao banheiro muito mais vezes ou sangue na urina merecem avaliação durante o tratamento com cetamina. Esses sintomas não mostram, sozinhos, que o medicamento seja a causa. Infecção urinária, cálculos e outras condições também podem produzir queixas semelhantes.1

Avise a equipe se perceber uma mudança e peça orientação antes da próxima aplicação. Algumas situações exigem atendimento sem esperar pelo retorno habitual: sangue visível na urina precisa ser avaliado prontamente; incapacidade de urinar ou dor abdominal intensa exige atendimento imediato.1,2

Que mudanças merecem ser relatadas?

Preste atenção ao que mudou em relação ao seu padrão: precisar urinar com maior frequência, sentir uma vontade súbita e difícil de adiar, ter dor ou ardor ao urinar ou perceber sangue. Dor na região pélvica ou na parte baixa do abdome e dificuldade para esvaziar a bexiga também devem ser comunicadas.1,2

Vale contar se a queixa já existia antes do tratamento, se ficou mais intensa ou se apareceu depois de uma aplicação. Uma descrição simples ajuda: “passei a levantar várias vezes à noite para urinar” informa mais do que apenas “estou com um problema na bexiga”. Não é preciso chegar à consulta com uma explicação pronta para o sintoma.

Um sintoma urinário significa efeito da cetamina?

A relação no tempo é uma pista, mas não fecha o diagnóstico. O profissional precisa considerar o histórico urinário, os outros medicamentos, o exame clínico e as causas possíveis para decidir quais exames são necessários. Sangue ou ardor, por exemplo, não devem ser atribuídos automaticamente à cetamina nem tratados como uma infecção sem avaliação.1,2

Também é importante separar o tratamento supervisionado do uso recreativo frequente, no qual há relatos de lesões urinárias. As exposições diferem em dose, frequência, duração e acompanhamento. Por isso, os dados de um contexto não podem ser usados para calcular diretamente o risco do outro. Ainda assim, o uso terapêutico não torna uma queixa urinária irrelevante.3

O que os estudos de uso terapêutico observaram?

O SUSTAIN-3, publicado em 2025, acompanhou 1.148 pessoas com depressão resistente que receberam escetamina intranasal associada a antidepressivo oral. Era uma extensão aberta de estudos anteriores, sem grupo de comparação, com duração média de uso de 42,9 meses. Durante o acompanhamento, foram registradas infecções urinárias em 15,8% dos participantes, dor ou ardor ao urinar em 3% e cistite em 2,4%. Não houve caso relatado de cistite intersticial ou ulcerativa atribuído ao tratamento.4

Essas porcentagens reúnem os eventos registrados ao longo do estudo, com duração de uso variável entre os participantes; não representam riscos anuais. A ausência de um grupo de comparação impede concluir quanto desses eventos se deveu ao medicamento. Os resultados também não fornecem uma estimativa de risco para quem recebe escetamina por via subcutânea.4

Um estudo menor analisou retrospectivamente 25 pacientes que receberam escetamina intravenosa ou subcutânea, por diferentes diagnósticos associados a um episódio depressivo. Eles receberam, em média, 11,4 aplicações, e foram analisadas 280 amostras de urina no conjunto dos participantes. Não se observou tendência significativa de aumento de leucócitos (células de defesa) ou hemácias (glóbulos vermelhos) na urina; proteína e hemoglobina livre também não aumentaram na análise descritiva.5

Esses exames foram usados como sinais indiretos de possível lesão urinária. A amostra era pequena, não havia grupo de controle e a última avaliação ocorreu um dia depois do fim do tratamento. O estudo, portanto, não esclarece dano tardio nem define um número seguro de aplicações. Seus resultados também não isolam a segurança de cada via.5

Há ainda um relato de uma paciente que desenvolveu sintomas atribuídos à cistite durante o uso de cetamina sublingual e, posteriormente, oral para depressão. A evolução levou os autores a suspeitar de relação com o tratamento, mas não houve cistoscopia — exame que permite observar o interior da bexiga — e eles reconheceram a possibilidade de outra explicação. Um caso assim alerta para a necessidade de investigar; não estabelece frequência nem prova causalidade definitiva.3

Assim, os dados precisam ser lidos conforme a substância e a forma de administração estudadas. A comparação de vias de uso da cetamina e da escetamina ajuda a entender por que esses resultados não são intercambiáveis.

O que comunicar antes da próxima aplicação?

Entre em contato com a equipe assistente e descreva a mudança antes da sessão seguinte. Para facilitar a avaliação, anote:

  • quando começou e se já havia algo semelhante antes do tratamento;
  • o que está sentindo, com que frequência e quanto isso incomoda;
  • se está melhorando, piorando ou reaparecendo após as aplicações;
  • quais medicamentos e outras substâncias está usando e se houve alguma mudança recente.

Informe também se procurou atendimento ou realizou exames nesse intervalo. A equipe poderá orientar a avaliação necessária e decidir como proceder com a próxima aplicação. Não siga com a sessão sem relatar a intercorrência, nem altere por conta própria a dose ou os intervalos.

Essa comunicação faz parte do acompanhamento de segurança do tratamento. Mesmo quando a depressão melhora, um desconforto urinário novo precisa ser avaliado.

Quando não esperar pelo retorno habitual?

Sangue visível na urina exige avaliação pronta, mesmo em pequena quantidade ou quando você não tem certeza de que seja sangue.1

Se não conseguir urinar ou tiver dor abdominal intensa, procure atendimento de urgência imediatamente. Esses sinais podem indicar um problema que não deve aguardar uma consulta programada.2

Nessas situações, não espere pela resposta de um canal de agendamento para buscar atendimento. Depois, informe à equipe responsável pela cetamina o que aconteceu e quais orientações recebeu, para que isso seja considerado antes de prosseguir com o tratamento.

Referências

1. National Health Service. Blood in urine [Internet]. Revisado em 25 set 2026 [citado em 3 out 2026]. Disponível em: NHS.

2. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Symptoms & causes of urinary retention [Internet]. Revisado em dez 2019 [citado em 3 out 2026]. Disponível em: NIDDK.

3. Chang M, Juruena MF, Young AH. Ketamine cystitis following ketamine therapy for treatment-resistant depression – case report. BMC Psychiatry. 2024;24:9. doi: 10.1186/s12888-023-05468-3.

4. Zaki N, Chen L, Lane R, Doherty T, Drevets WC, Morrison RL, et al. Safety and efficacy with esketamine in treatment-resistant depression: long-term extension study. Int J Neuropsychopharmacol. 2025;28(6):pyaf027. doi: 10.1093/ijnp/pyaf027.

5. Findeis H, Sauer C, Cleare A, Bauer M, Ritter P. Urothelial toxicity of esketamine in the treatment of depression. Psychopharmacology (Berl). 2020;237:3295–3302. doi: 10.1007/s00213-020-05611-y.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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