DBT para borderline: como funciona a terapia comportamental dialética na prática?

Postado em: 17/10/2026

Terapeuta fazendo anotações durante atendimento individual

Na terapia comportamental dialética, conhecida pela sigla DBT, uma situação difícil da semana pode se tornar o ponto de partida da sessão. Paciente e terapeuta examinam como ela aconteceu, identificam o que poderia ter sido feito de outra maneira e ensaiam respostas para usar fora do consultório. O tratamento combina esse trabalho individual com aprendizagem de habilidades e apoio para colocá-las em prática.1

“Dialética” se refere à possibilidade de reconhecer o sofrimento e trabalhar mudanças ao mesmo tempo. O terapeuta pode compreender por que alguém sentiu raiva e ajudá-lo a mudar uma reação que trouxe prejuízos. Reconhecer uma emoção não exige aprovar todas as ações que vieram depois dela.2

A DBT é uma das psicoterapias estruturadas utilizadas no tratamento do transtorno de personalidade borderline. Para entender uma indicação, pergunte como o atendimento está organizado e quais problemas serão trabalhados: o nome da abordagem, sozinho, não descreve tudo o que será oferecido.3

O que faz parte de um programa de DBT

No modelo ambulatorial padrão, há quatro componentes com funções diferentes.1

Componente Como participa do tratamento
Psicoterapia individual Trabalha as dificuldades prioritárias da pessoa e a aplicação das habilidades em sua vida.
Treino de habilidades, geralmente em grupo Ensina formas de lidar com emoções, sofrimento e relações, com exercícios e prática entre encontros.
Orientação entre sessões Ajuda a escolher e usar habilidades em situações do cotidiano, conforme as regras de contato combinadas.
Equipe de consulta dos terapeutas Reúne os profissionais para discutir o trabalho e manter a qualidade da aplicação da DBT. O paciente não participa dessa reunião.

A orientação entre sessões, às vezes chamada de coaching, tem objetivo, horários e limites definidos. Não significa disponibilidade irrestrita do terapeuta. O serviço também precisa explicar o que fazer em uma crise e quando procurar atendimento de urgência.1

Um grupo de habilidades pode ser parte de uma proposta terapêutica útil, mas não equivale, por si só, ao programa completo. Existem adaptações da DBT; entender quais componentes foram mantidos e como se conectam permite avaliar melhor a indicação. Não se pode presumir que uma adaptação terá os mesmos resultados do programa padrão, nem concluir que seja ineficaz apenas por ser diferente.1

Como uma situação da semana é trabalhada

Considere o seguinte caso ilustrativo: uma pessoa se preparou para conversar com um familiar sobre um assunto importante. Quando ele pede para mudar o horário, ela sente raiva intensa, encerra a conversa de maneira brusca e depois se arrepende.

Na sessão, o terapeuta pode ajudar a reconstruir a sequência: como ela estava antes do pedido, o que entendeu ao ouvi-lo, qual emoção apareceu, o que teve vontade de fazer e o que aconteceu depois de desligar. Talvez a mudança de horário tenha sido interpretada como falta de consideração. Sair da conversa pode ter aliviado a tensão naquele momento, mas também deixou o assunto sem solução.

Esse exame detalhado, chamado análise do comportamento, ajuda a localizar pontos em que outra resposta pode ser experimentada.1 No exemplo, seria possível ensaiar como comunicar a frustração e pedir um novo horário, sem precisar resolver o assunto enquanto a raiva está intensa. O caso ilustra um trabalho terapêutico; essa reação isolada não permite diagnosticar borderline.

As habilidades ensinadas na DBT se distribuem em quatro áreas: atenção plena, para perceber o que está acontecendo no presente; tolerância ao mal-estar, para atravessar momentos difíceis sem agravar o problema; regulação emocional, para compreender as emoções e modificar respostas que trazem prejuízos; e efetividade interpessoal, para expressar necessidades, negociar e estabelecer limites. Elas são praticadas em situações concretas, como a conversa do exemplo.2

Entre entender uma habilidade e conseguir usá-la

Na sessão, pode parecer simples formular um pedido. Em casa, sob tensão, a pessoa pode voltar à reação habitual. Essa dificuldade entra no tratamento: é preciso descobrir se faltou reconhecer o momento de usar a habilidade, lembrar como fazê-la ou conseguir praticá-la naquela situação.

Registros breves ajudam a trazer informações para o encontro seguinte: o que aconteceu, qual resposta foi tentada e que resultado teve. O terapeuta pode rever o episódio e ajustar o treino. Faltas, dificuldade com os exercícios e conflitos na própria terapia também precisam ser discutidos, inclusive quando alguma atitude do profissional atrapalhou o trabalho. São questões a compreender e resolver, não prova automática de falta de vontade.4

No modelo padrão, a terapia individual e o treino de habilidades costumam ocorrer semanalmente, com prática entre os encontros. A duração de um módulo do grupo não é a duração de todo o tratamento. Convém combinar um período inicial de acompanhamento e quando os objetivos serão revistos, em vez de interpretar o fim de um módulo como prazo para estar recuperado.1

Que mudanças podem ser esperadas?

Os objetivos precisam corresponder aos problemas da pessoa. Podem incluir reduzir comportamentos que tragam risco, manter compromissos, lidar com desacordos sem romper relações e diminuir o sofrimento. A avaliação deve acompanhar sintomas e funcionamento; passar um período sem crise não responde, sozinho, como estão as relações, o trabalho ou os estudos.3

Um ensaio de 2015 comparou três modalidades de DBT em 99 mulheres com borderline e alto risco de suicídio, durante um ano de tratamento, seguido de outro ano de acompanhamento. As tentativas e os pensamentos suicidas diminuíram nos três grupos, sem diferença estatisticamente significativa entre as modalidades. As modalidades que incluíam ensino de habilidades tiveram maior redução da frequência de autolesões sem intenção suicida e dos sintomas depressivos durante o tratamento, em comparação com a modalidade que não ensinava essas habilidades.5

Nesse estudo, o abandono do tratamento ocorreu em 8 de 33 participantes (24%) no programa padrão e em 16 de 33 (48%) na modalidade sem ensino de habilidades. É uma medida de permanência no tratamento, não uma taxa de cura. A comparação envolveu equipes treinadas e uma população específica; não permite atribuir esses resultados a qualquer grupo ou técnica anunciada como DBT.5

Também há evidência favorável a outras abordagens estruturadas. Em um ensaio com 180 participantes com borderline e histórico de comportamentos suicidas ou autolesivos, tanto a DBT quanto um manejo psiquiátrico especializado produziram melhoras ao longo de um ano, sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos nos desfechos avaliados. Isso não demonstra equivalência em todas as situações; mostra por que não é adequado apresentar a DBT como universalmente superior a qualquer outro tratamento.6

O que esclarecer antes de começar

Além de perguntar sobre formação, experiência e supervisão da equipe, esclareça na avaliação inicial:

  • quais componentes da DBT serão oferecidos e quem será responsável por cada um;
  • como funcionam os contatos entre sessões e o atendimento em crises;
  • que tempo será necessário para sessões, grupo e prática durante a semana;
  • quais problemas terão prioridade e como o progresso será acompanhado.

Uma meta como “conseguir conversar sobre um desacordo sem abandonar um compromisso importante” oferece algo concreto para observar. Ela pode ser discutida junto com objetivos de segurança, redução de sintomas e retomada de atividades. Saber o que será trabalhado — e ter espaço para rever o plano quando houver dificuldades — ajuda a participar das decisões ao longo do tratamento.3

Referências

  1. Association for Behavioral and Cognitive Therapies. Dialectical behavior therapy [Internet]. [citado 17 out 2026]. Disponível em: ficha institucional.
  2. Behavioral Tech Institute. What is DBT? [Internet]. [citado 17 out 2026]. Disponível em: behavioraltech.org/dialectical-behavior-therapy-dbt.
  3. American Psychiatric Association. American Psychiatric Association publishes updated practice guideline on the treatment of borderline personality disorder [Internet]. 10 dez 2024 [citado 17 out 2026]. Disponível em: síntese oficial da diretriz.
  4. McCandless S, Johnston S. Dialectical behavior therapy: a visual review. Part 1. Slide handout with transcript [Internet]. US Department of Veterans Affairs, South Central Mental Illness Research, Education and Clinical Center; [citado 17 out 2026]. Disponível em: material de formação do MIRECC.
  5. Linehan MM, Korslund KE, Harned MS, Gallop RJ, Lungu A, Neacsiu AD, et al. Dialectical behavior therapy for high suicide risk in individuals with borderline personality disorder: a randomized clinical trial and component analysis. JAMA Psychiatry. 2015;72(5):475–482. doi: 10.1001/jamapsychiatry.2014.3039.
  6. McMain SF, Links PS, Gnam WH, Guimond T, Cardish RJ, Korman L, et al. A randomized trial of dialectical behavior therapy versus general psychiatric management for borderline personality disorder. Am J Psychiatry. 2009;166(12):1365–1374. doi: 10.1176/appi.ajp.2009.09010039. Errata em: Am J Psychiatry. 2010;167(10):1283.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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