Depressão na doença de Parkinson: como reconhecer e organizar o tratamento?

Postado em: 21/10/2026

Homem visto de costas, sentado sozinho em um banco, com uma bengala apoiada ao lado.

Uma pessoa com Parkinson deixa de encontrar os amigos. Ela perdeu o interesse, está exausta ou sair de casa ficou fisicamente mais difícil? A resposta pode envolver mais de um desses fatores. A depressão tem tratamento, mas reconhecê-la exige investigar o que mudou na experiência da pessoa, além do que se observa nos seus movimentos.1

O que mudou além da disposição física?

O rosto menos expressivo e a voz baixa podem fazer parte do Parkinson. Por isso, parecer triste não é o mesmo que estar deprimido: a dificuldade de demonstrar uma emoção pode existir mesmo quando ela está presente.2 Perguntar se a pessoa ainda sente prazer ao receber uma visita ou ouvir uma música costuma trazer informações que a expressão facial, sozinha, não oferece.

A apatia envolve diminuição da motivação e da iniciativa. A pessoa pode precisar de ajuda para começar uma atividade, sem relatar a tristeza ou a culpa associadas à depressão. Já a fadiga é uma sensação de esgotamento físico ou mental. Esses problemas podem coexistir, e a perda de interesse aparece em mais de um deles.3

Na avaliação de depressão, importam a perda de prazer, a desesperança, a autocrítica e as mudanças de sono e participação em relação ao habitual. Não é necessário que a pessoa diga “estou triste” para que exista depressão. Também não basta um período de pouca iniciativa para concluir o diagnóstico. O relato da própria pessoa, complementado por observações de familiares quando ela concorda, ajuda a esclarecer essas diferenças.1

Quando a piora tem horário

Algumas pessoas percebem que o desânimo se intensifica quando os movimentos também pioram. Isso pode ocorrer nos períodos OFF: momentos em que o benefício do tratamento motor diminui e os sintomas do Parkinson reaparecem ou ficam mais intensos. Alterações de humor podem acompanhar essas flutuações.4

Uma anotação como “o desânimo começou junto da rigidez, antes da próxima dose” ajuda a descrever esse padrão na consulta. É um exemplo de registro, não uma conclusão sobre sua causa. Depressão persistente também precisa ser investigada; não se deve atribuir toda piora emocional ao intervalo entre doses nem modificar a levodopa sozinho.4

O que os tratamentos conseguiram nos estudos?

Em um ensaio com 115 participantes, paroxetina e venlafaxina de liberação prolongada reduziram os sintomas depressivos mais que o placebo ao longo de 12 semanas. A redução adicional foi, em média, de 6,2 pontos com paroxetina e 4,2 pontos com venlafaxina, na escala de depressão HAM-D. Essa escala reúne sintomas avaliados pelo profissional; quanto menor a pontuação, menor a intensidade registrada. Os números representam diferenças médias entre grupos, não porcentagens de pessoas curadas.5

O estudo não encontrou benefício dos antidepressivos sobre a função motora. Assim, melhorar a depressão não significa que o medicamento esteja tratando os movimentos do Parkinson.5

Para a psicoterapia, um ensaio com 80 participantes sem demência comparou terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada ao Parkinson, acrescentada ao acompanhamento, com acompanhamento clínico sem acrescentar nova terapia para depressão. Ambos os grupos mantiveram os tratamentos prévios estáveis. Em dez semanas, 56% de quem recebeu TCC (23 de 41 pessoas) apresentou resposta, contra 8% no grupo de comparação (3 de 39). “Resposta” significava melhora acentuada na avaliação clínica ou redução de pelo menos metade da pontuação de depressão; não equivalia necessariamente ao desaparecimento dos sintomas.6

Nessa TCC, trabalharam-se preocupações, estratégias para ansiedade e retomada de atividades compatíveis com as dificuldades físicas. Os familiares receberam orientação para apoiar a prática entre sessões. Esse apoio pode ser considerado com a concordância do paciente; a duração e os componentes do estudo não são uma exigência para todo tratamento. O ensaio não comparou a TCC com outra psicoterapia de intensidade semelhante e não permite estender seus resultados automaticamente a pessoas com demência.6

Esses achados não estabelecem um único tratamento preferível em todas as situações. A revisão da Movement Disorder Society de 2019, com estudos até 2016, considerou a venlafaxina clinicamente útil. Para a paroxetina, os resultados dos estudos foram divergentes; por isso, ela foi classificada como possivelmente útil. Na escolha, entram também a resposta a tratamentos anteriores, os efeitos adversos, os demais medicamentos e as preferências da pessoa.7

Como neurologista, psiquiatra e família podem participar

O plano pode combinar tratamento da depressão, psicoterapia e revisão do controle dos sintomas neurológicos. Para isso, os profissionais precisam conhecer a lista completa de medicamentos e as alterações feitas por outros prescritores. Alguns tratamentos do Parkinson, como selegilina e rasagilina, do grupo dos inibidores da MAO-B, exigem avaliação específica de interações com antidepressivos. Uma possível interação deve ser analisada conforme os medicamentos envolvidos, sem iniciar, suspender ou trocar a associação sozinho.4

Em casa, a família pode ajudar a tornar uma atividade viável. Por exemplo, se a pessoa deseja receber um amigo, pode ser mais confortável combinar uma visita curta em um horário em que se movimenta melhor. Observar se ela aproveita o encontro quando a dificuldade prática é reduzida também ajuda a descrever o problema na consulta. Incentivos gentis e ajuda para começar costumam ser mais úteis que cobranças; pouca iniciativa não deve ser interpretada como preguiça ou falta de afeto.3 O artigo sobre como ajudar uma pessoa com depressão aprofunda essa participação.

Para a próxima avaliação, leve exemplos concretos: desde quando o interesse diminuiu, quais atividades foram abandonadas, como estão o sono e o humor. Acrescente os horários já registrados. Se paciente e familiares perceberam mudanças diferentes, registre ambas. Essas anotações ajudam a descrever o problema; não são um teste de diagnóstico.1

Referências

  1. Parkinson’s Foundation. Depression [Internet]. [citado 21 out 2026]. Disponível em: Parkinson’s Foundation — Depression.
  2. Parkinson’s Foundation. Facial masking [Internet]. [citado 21 out 2026]. Disponível em: Parkinson’s Foundation — Facial masking.
  3. Parkinson’s Foundation. Apathy & motivation in Parkinson’s [Internet]. [citado 21 out 2026]. Disponível em: Parkinson’s Foundation — Apathy & motivation.
  4. American Parkinson Disease Association. Depression and Parkinson’s disease [Internet]. 2025 [citado 21 out 2026]. Disponível em: APDA — Depression and Parkinson’s disease.
  5. Richard IH, McDermott MP, Kurlan R, Lyness JM, Como PG, Pearson N, et al. A randomized, double-blind, placebo-controlled trial of antidepressants in Parkinson disease. Neurology. 2012;78(16):1229–1236. doi: 10.1212/WNL.0b013e3182516244.
  6. Dobkin RD, Menza M, Allen LA, Gara MA, Mark MH, Tiu J, et al. Cognitive behavior therapy for depression in Parkinson’s disease: a randomized controlled trial. Am J Psychiatry. 2011;168(10):1066–1074. doi: 10.1176/appi.ajp.2011.10111669.
  7. Seppi K, Chaudhuri KR, Coelho M, Fox SH, Katzenschlager R, Perez Lloret S, et al. Update on treatments for nonmotor symptoms of Parkinson’s disease—an evidence-based medicine review. Mov Disord. 2019;34(2):180–198. doi: 10.1002/mds.27602.

Foto: Richard Revel.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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