Despersonalização e desrealização: por que posso me sentir distante de mim ou do mundo?

Postado em: 28/09/2026

Rosto de mulher visto em reflexos desfocados sobre uma superfície de vidro.

“Parece que estou assistindo à minha vida” e “o lugar é conhecido, mas parece irreal” são formas de descrever experiências chamadas despersonalização e desrealização. Elas podem ocorrer separadamente ou juntas. Dar nome à sensação é um começo; entender por que ela aparece exige conhecer o contexto e o impacto na vida.¹

O que muda entre despersonalização e desrealização?

Na despersonalização, o distanciamento envolve a própria pessoa: pensamentos, sentimentos, corpo ou ações parecem afastados de quem os vivencia. Na desrealização, o estranhamento envolve o ambiente: pessoas e objetos podem parecer pouco familiares, distantes ou sem a vivacidade habitual.¹

Despersonalização Desrealização
Uma frase ilustrativa seria: “Eu falo e me movo, mas parece que observo tudo de fora”. Uma frase ilustrativa seria: “Reconheço minha casa, mas sinto como se ela fosse um cenário”.
O foco do estranhamento está na experiência de si. O foco está na experiência do mundo ao redor.

Essas descrições são aproximações. Você pode usar palavras diferentes e ainda assim conseguir comunicar o que está acontecendo. Não precisa reproduzir uma expressão encontrada na internet para que seu relato mereça atenção.

Reconhecer a sensação como estranha faz parte da avaliação

No transtorno de despersonalização/desrealização, a pessoa mantém a capacidade de reconhecer que a experiência de irrealidade é uma sensação, embora possa ser muito intensa. Por exemplo: sabe que está em casa e que os familiares continuam sendo as mesmas pessoas, mas sente tudo distante.²

Essa diferença entre o que alguém sente e o que entende estar acontecendo ajuda a descrever a experiência. Na consulta, vale contar ambas as coisas: “parecia um sonho” e “eu sabia que estava acordado” dizem mais do que apenas “estava estranho”.

O sofrimento pode ser grande mesmo quando a pessoa parece calma, pouco expressiva ou consegue conversar normalmente.² Quem acompanha alguém nessa situação pode começar ouvindo sua descrição, sem exigir uma explicação pronta. Perguntar “o que ficou difícil para você?” abre espaço para falar do impacto que talvez não seja visível.

Ter o sintoma é diferente de ter o transtorno

Um episódio de distanciamento não basta para diagnosticar o transtorno. A avaliação considera sintomas persistentes ou recorrentes, sofrimento importante ou prejuízo no cotidiano e a possibilidade de outra condição explicar melhor o quadro. Também verifica a preservação da percepção de realidade.³

Por isso, contar apenas quanto tempo durou um episódio deixa perguntas em aberto. Aconteceu uma vez ou vem se repetindo? Impediu alguma atividade? O que mais estava acontecendo naquela época? A duração, sozinha, não define o diagnóstico.

A investigação procura o contexto, não uma causa automática

Ansiedade, crises de pânico, depressão e uso de substâncias podem acompanhar essas experiências. Cannabis e outras drogas entram na investigação, assim como condições médicas, incluindo algumas crises epilépticas. A relação com esses fatores precisa ser avaliada individualmente.³ Quando os episódios aparecem junto de crises de medo intenso, o texto sobre transtorno do pânico pode ajudar a entender esse contexto.

Experiências traumáticas também podem estar relacionadas. Existe um subtipo de transtorno de estresse pós-traumático, ou TEPT, em que pode haver despersonalização, desrealização ou ambas.⁴ A avaliação considera o conjunto de sintomas e sua relação com o acontecimento; uma sensação isolada não permite concluir que existe TEPT. O artigo sobre reconhecimento e avaliação do TEPT desenvolve essa diferença.

A consulta reúne a história dos episódios e a avaliação clínica. Exames podem ser indicados quando houver suspeita de outra causa, especialmente diante de uma apresentação incomum. Ressonância e eletroencefalograma não formam um pacote obrigatório para toda pessoa com essa queixa.³

Para preparar o relato, você pode fazer uma anotação breve:

  • Quando começou e se houve alguma mudança próxima desse início.
  • O que sentiu, por quanto tempo aproximadamente e em quais situações voltou a acontecer.
  • Como estavam o sono e a rotina; quais medicamentos, álcool ou outras substâncias havia usado.
  • O que passou a evitar ou ficou difícil fazer: por exemplo, “tenho evitado encontrar pessoas porque fico preocupado com a sensação”.

Um ou dois exemplos e a lista de medicamentos usados podem ajudar.

O que o cuidado pode oferecer

O tratamento pode incluir psicoterapia e cuidado de condições associadas, como depressão, ansiedade ou pânico. Medicamentos podem ser indicados para essas condições. Para o transtorno de despersonalização/desrealização em si, a eficácia de um tratamento medicamentoso específico ainda não está estabelecida.¹,³

Entre as abordagens investigadas está a terapia cognitivo-comportamental adaptada ao transtorno de despersonalização/desrealização. Ela trabalha a compreensão dos sintomas, os fatores que podem mantê-los e mudanças na maneira de interpretá-los e responder a eles, conforme a história de cada pessoa.⁵

Esse trabalho pode partir de perguntas como “O que penso quando me sinto distante e como isso muda o que faço depois?”. A pessoa e o terapeuta constroem juntos uma explicação para o padrão observado e definem o que faz sentido trabalhar nas sessões. O foco é encontrar maneiras de lidar com o sofrimento e com suas repercussões na vida cotidiana, com acompanhamento profissional.⁵

Um ensaio publicado em dezembro de 2025 comparou essa terapia ao cuidado habitual em 30 participantes com esse diagnóstico. Era um estudo de viabilidade: procurava saber se seria possível realizar uma pesquisa maior e como organizar o tratamento. Apenas 63% completaram a avaliação final. Os sinais preliminares de melhora precisam ser interpretados com essas limitações; ainda não estabelecem eficácia definitiva ou uma chance individual de sucesso.⁵

Ao discutir um plano, vale perguntar o que será acompanhado e quando reavaliar. Você gostaria de retomar alguma atividade, entender melhor os episódios ou reduzir o sofrimento que eles provocam?

Se a sensação persiste, se repete ou interfere na sua vida, uma avaliação psiquiátrica pode ajudar a organizar a investigação. Confusão que começa de repente, com desorientação ou dificuldade importante para pensar e falar com clareza, pede atendimento médico imediato.⁶

Referências

  1. NHS. Dissociative disorders. Revisado em 14 ago. 2023. Consultado em 25 set. 2026.
  2. American Psychiatric Association. What are dissociative disorders?. Revisão médica em out. 2024. Consultado em 25 set. 2026.
  3. Spiegel D. Depersonalization/derealization disorder. MSD Manual Professional Edition. Atualizado em jan. 2026. Consultado em 25 set. 2026.
  4. Lanius R, Miller M, Wolf E, Brand B, Frewen P, Vermetten E, et al. Dissociative subtype of PTSD. National Center for PTSD, US Department of Veterans Affairs. Atualizado em 9 dez. 2025. Consultado em 25 set. 2026.
  5. Hunter ECM, Ring L, Gafoor R, Morant N, Lewis G, Perkins J, et al. Cognitive Behavior Therapy for Depersonalization-Derealization Disorder (CBT-f-DDD): a feasibility randomized trial. Pilot Feasibility Stud. 2026;12(1):9. Publicação eletrônica em 10 dez. 2025. doi:10.1186/s40814-025-01742-1.
  6. NHS. Sudden confusion (delirium). Revisado em 28 maio 2024. Consultado em 25 set. 2026.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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