Discinesia tardia: como reconhecer movimentos involuntários durante o tratamento?

Postado em: 18/10/2026

Ilustração 2D de uma mulher com detalhes ampliados dos lábios contraídos e da língua projetada para fora da boca, com traços que indicam movimento.

Movimentos repetidos da língua, lábios que se contraem ou uma mastigação que continua sem haver alimento na boca podem chamar a atenção de quem usa antipsicóticos — às vezes, primeiro de um familiar. A discinesia tardia é uma das possibilidades que precisam ser avaliadas. Ela também pode atingir dedos, braços, pernas e tronco, e tem opções de tratamento para reduzir os movimentos.¹²

O nome “tardia” se refere ao aparecimento mais adiante na exposição ao medicamento, frequentemente após meses ou anos. Não existe, porém, um prazo único que permita confirmar ou descartar o problema. Ter usado a mesma prescrição por bastante tempo não elimina a necessidade de avaliar uma mudança nova.²

Essa possibilidade não se restringe a quem tem esquizofrenia. Antipsicóticos também são usados em transtornos do humor, e o acompanhamento dos movimentos continua necessário nessas situações. Outros medicamentos que bloqueiam a ação da dopamina, incluindo alguns utilizados contra náuseas, também podem estar envolvidos.¹²

O movimento e a sensação que o acompanha ajudam a diferenciar

Na acatisia, costuma haver uma inquietação interna, uma necessidade difícil de conter de levantar, andar ou mudar de posição. Na discinesia tardia, o que chama a atenção são os movimentos involuntários, que não dependem dessa urgência de se mover.¹

Um tremor ritmado das mãos, rigidez com lentificação dos movimentos ou uma contração que mantém o pescoço em posição anormal precisam de outra caracterização. Podem representar efeitos motores diferentes, e mais de um deles pode ocorrer na mesma pessoa. O momento em que começaram ajuda a investigação, mas não resolve o diagnóstico sozinho: também existem apresentações tardias de acatisia e de contrações musculares anormais, chamadas distonias.³

Por isso, dizer “minha mão está tremendo” ou “minha boca começou a se mexer sozinha” já é uma informação útil. Não é necessário chegar à consulta com o nome do problema definido.

O que o médico precisa observar

A avaliação reúne o exame dos movimentos, os medicamentos usados atualmente e no passado e a sequência das mudanças. Dependendo dos achados, pode ser necessário investigar outras causas ou solicitar avaliação neurológica.³

O relato deve incluir o que ficou mais difícil: mastigar, pronunciar palavras, usar as mãos no trabalho ou se sentir à vontade diante de outras pessoas. Um movimento pouco evidente durante uma consulta pode incomodar muito no cotidiano.²

A AIMS, sigla em inglês para uma escala de movimentos involuntários anormais, ajuda o profissional a registrar intensidade e evolução. Sua pontuação não confirma o diagnóstico nem determina, sozinha, se é preciso tratar.²

Se já houver um vídeo dos movimentos, ele pode complementar a descrição, com respeito à privacidade e ao consentimento de quem aparece. Não é preciso provocar o sintoma ou conseguir filmá-lo para procurar avaliação. Um familiar também pode ajudar relatando o que percebeu e quando, sem transformar isso em vigilância constante.

Como o tratamento é escolhido

A revisão dos medicamentos pode levar à mudança de dose ou de antipsicótico, considerando também a proteção que ele oferece contra o transtorno tratado. A retirada não garante que os movimentos desapareçam; em algumas situações, eles podem se tornar mais evidentes após a redução. Não suspenda o tratamento por conta própria.³

Há medicamentos específicos que podem reduzir a discinesia, como os inibidores de VMAT2. Eles são considerados especialmente quando os movimentos são moderados, intensos ou incapacitantes. Movimentos leves também podem justificar tratamento se atrapalham atividades ou a convivência; a decisão inclui o benefício esperado, os riscos e a preferência do paciente.²

Essa escolha exige distinguir qual efeito motor está presente. Um medicamento utilizado para rigidez ou outro movimento anormal não deve ser reaproveitado por conta própria para tratar uma suspeita de discinesia.³

Quanto os medicamentos ajudaram nos estudos?

Dois ensaios permitem dimensionar o benefício, sem supor que todas as pessoas terão a mesma resposta:

  • Valbenazina — KINECT 3: o estudo incluiu adultos com discinesia moderada ou grave e transtornos psicóticos ou do humor. Após seis semanas, uma redução de pelo menos metade da pontuação dos movimentos na AIMS ocorreu em 40% dos participantes avaliados no grupo da maior dose testada (28 de 70), em 23,8% no outro grupo do medicamento (15 de 63) e em 8,7% com placebo (6 de 69). Os percentuais foram calculados entre quem foi avaliado na sexta semana, não entre todos os 234 participantes inicialmente sorteados. Atingir esse critério significa uma redução importante na escala, não necessariamente o desaparecimento dos movimentos; ficar abaixo dele também não significa ausência de qualquer melhora.⁴
  • Deutetrabenazina — AIM-TD: entre 298 participantes sorteados, 222 integraram a análise principal de eficácia. A parte da escala usada nesse estudo vai de 0 a 28 pontos, e as médias iniciais dos grupos estavam próximas de 9 a 10 pontos. Em 12 semanas, dois dos três grupos do medicamento tiveram reduções médias de 3,2 e 3,3 pontos na AIMS, contra 1,4 ponto com placebo. O terceiro grupo não demonstrou vantagem estatística. Aqui, os números são mudanças na intensidade dos movimentos, e não percentuais de pessoas curadas.⁵⁶

Esses resultados mostram que é possível reduzir os movimentos. Os ensaios não compararam diretamente os dois medicamentos, nem demonstram que o efeito continuará depois de encerrar o tratamento.⁴⁵

No Brasil, a Anvisa aprovou a indicação da deutetrabenazina para discinesia tardia em adultos em 2021, indicação também presente na bula brasileira consultada, aprovada em 2023.⁷⁶ Isso não informa estoque ou cobertura pelo sistema de saúde. Na escolha, o médico avalia possíveis efeitos adversos, como sonolência, e interações com os demais medicamentos. Durante o tratamento, acompanha se os movimentos diminuíram e se os efeitos adversos dificultam manter a medicação.⁶

O que levar à consulta — e quando antecipá-la

Uma anotação curta pode reunir:

  • quais partes do corpo se movimentam e quando isso foi percebido;
  • o que os movimentos passaram a atrapalhar;
  • os medicamentos atuais e anteriores, incluindo os usados para náuseas, com as mudanças recentes de tratamento.

Avise a equipe ao perceber movimentos novos, sem esperar o próximo exame de rotina. Dificuldade importante para respirar ou engolir exige atendimento imediato, independentemente de se tratar ou não de discinesia tardia.¹³

Se o receio é perder um tratamento psiquiátrico que trouxe melhora, diga isso ao médico. O objetivo é reduzir os movimentos preservando, tanto quanto possível, a estabilidade do transtorno tratado.³

Referências

  1. International Parkinson and Movement Disorder Society. Medication-induced movement disorders: essential facts for patients [Internet]. 2025 [citado 18 out 2026]. Disponível em: Movement Disorder Society.

2. American Psychiatric Association. The American Psychiatric Association practice guideline for the treatment of patients with schizophrenia. 3rd ed. Washington (DC): American Psychiatric Association Publishing; 2021. Disponível em: edição integral, hospedada pela University of North Carolina.

3. New York State Department of Health. Diagnosis and management of medication-induced movement disorders (MIMDs) [Internet]. 2025 [citado 18 out 2026]. Disponível em: New York State Department of Health.

4. Hauser RA, Factor SA, Marder SR, Knesevich MA, Ramirez PM, Jimenez R, et al. KINECT 3: a phase 3 randomized, double-blind, placebo-controlled trial of valbenazine for tardive dyskinesia. Am J Psychiatry. 2017;174(5):476-484. doi:10.1176/appi.ajp.2017.16091037.

5. Anderson KE, Stamler D, Davis MD, Factor SA, Hauser RA, Isojärvi J, et al. Deutetrabenazine for treatment of involuntary movements in patients with tardive dyskinesia (AIM-TD): a double-blind, randomised, placebo-controlled, phase 3 trial. Lancet Psychiatry. 2017;4(8):595-604. doi:10.1016/S2215-0366(17)30236-5.

6. Teva Farmacêutica Ltda. Austedo® (deutetrabenazina): bula do profissional de saúde [Internet]. Versão BU_08; aprovada pela Anvisa em 31 jul 2023 [citado 18 out 2026]. Disponível em: cópia da bula brasileira.

7. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Austedo® (Deutetrabenzina): nova indicação [Internet]. 2021 nov 3 [atualizado 2021 nov 23; citado 18 out 2026]. Disponível em: Anvisa.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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