Exercício físico no transtorno bipolar: como incluir na rotina e o que esperar?
Postado em: 18/10/2026
Escolher uma atividade pode ser a parte fácil. O difícil é conseguir sair de casa quando falta disposição, encontrar um horário que não encurte o sono e continuar quando a semana muda. Para quem tem transtorno bipolar, essas dificuldades precisam fazer parte do planejamento.
O exercício pode ajudar a melhorar o condicionamento e a saúde física. Caminhada, dança, atividades aquáticas e treino de força são algumas possibilidades; academia não é requisito. Também conta o movimento do cotidiano, como caminhar para se deslocar. “Atividade física” é esse conjunto mais amplo; o exercício é uma forma planejada de praticá-la.¹
Na bipolaridade, ele entra como complemento ao tratamento. O possível benefício sobre a depressão bipolar ainda está em investigação, e praticá-lo não substitui os medicamentos ou o acompanhamento indicados.²
Um plano que caiba também nos dias de pouca disposição
Antes de decidir a modalidade, tente localizar o obstáculo. Se o transporte dificulta chegar à academia, uma opção perto de casa pode ser mais viável. Se o problema é dor, insistir no mesmo movimento pode não ser a melhor saída: a atividade precisa ser adaptada com orientação profissional. Quando a sonolência começou ou piorou após uma mudança de medicação, informe o psiquiatra para que isso seja avaliado.²
Considere o seguinte caso ilustrativo: uma pessoa planejou caminhar em um parque, mas, naquele dia, está com pouca disposição e o deslocamento tornou a tarefa difícil. Ela pode escolher um percurso mais curto perto de casa, compatível com sua condição física. Na próxima oportunidade, retoma o plano; não precisa compensar o que deixou de fazer com esforço excessivo ou reduzindo o tempo de sono.
Esse exemplo mostra uma adaptação possível, não uma prescrição de treino. Uma atividade acessível e um começo compatível com o condicionamento permitem discutir a progressão sem transformar uma meta distante em obrigação imediata. Para a saúde, algum movimento já pode ser melhor do que nenhum.¹
Na fase depressiva, perda de interesse e redução de energia podem tornar tarefas simples muito difíceis. Cobrança e interpretações de “preguiça” não resolvem esses sintomas. Quando o humor está mais estável, fica mais fácil planejar como manter a atividade e o que fazer se a disposição diminuir.²
Quanto o exercício ajudou na depressão bipolar?
Um estudo brasileiro acompanhou pessoas com transtorno bipolar I ou II em episódio depressivo, que acrescentaram exercício aeróbico e de força supervisionado ao tratamento medicamentoso. Quinze começaram e onze concluíram as doze semanas. Entre esses onze concluintes, nove — 82% — tiveram redução de mais da metade dos sintomas depressivos; cinco — 45% — alcançaram o critério de remissão do estudo, isto é, sintomas suficientemente baixos na escala utilizada. Esses cinco estavam entre os nove que responderam, portanto os percentuais não devem ser somados.³
É um resultado promissor, mas o estudo não tinha um grupo de comparação. Não permite separar quanto da melhora se deveu ao exercício, ao restante do tratamento ou à evolução do episódio. Também não demonstrou melhora estatisticamente significativa no funcionamento cotidiano ou na qualidade de vida.³
Um ensaio publicado em 2026 incluiu 26 pessoas internadas por depressão bipolar, das quais 24 concluíram seis semanas. Os centros foram sorteados para oferecer exercício supervisionado ou alongamento, sempre junto do tratamento habitual. Houve melhora nos dois grupos, sem vantagem demonstrada do exercício sobre o alongamento. Pelo tamanho e pelo contexto hospitalar, o estudo não resolve sozinho o que esperar no acompanhamento ambulatorial.⁴
A evidência ainda não permite prometer que o exercício controle um episódio ou previna novas crises. Isso não elimina seus benefícios físicos. Melhorar a capacidade para caminhar, a força ou a saúde cardiovascular são objetivos relevantes mesmo sem perda de peso.¹ Os resultados de pesquisas sobre exercício e depressão unipolar não devem ser transportados automaticamente para a bipolaridade.
Mais energia: quando observar o conjunto
Gostar de treinar e ganhar condicionamento não são, por si só, sinais de hipomania. A atenção muda quando a atividade aumenta abruptamente junto de menor necessidade de dormir, pensamentos acelerados ou impulsividade, sobretudo se isso foge ao padrão habitual. Comunique essa mudança à equipe.²
Treinar de madrugada enquanto se passa a dormir muito menos, sem sentir cansaço, merece uma avaliação diferente de reorganizar o horário de exercício mantendo o sono. Isso não estabelece um diagnóstico nem significa que o treino tenha causado a mudança de humor. O artigo sobre insônia e redução da necessidade de dormir explica melhor essa distinção.
Quem usa lítio precisa considerar calor e perda de líquidos
A desidratação pode aumentar a concentração de lítio no sangue. Por isso, calor e suor intenso merecem atenção. O planejamento deve considerar acesso a líquidos e as orientações individuais recebidas; não há uma quantidade única de água ou sal adequada para todos. Mudanças bruscas na ingestão de sal também precisam ser discutidas com o médico.⁵
Se houver vômitos, diarreia importante ou dificuldade de manter a hidratação, procure orientação médica. Confusão, tremor acentuado, fraqueza importante ou dificuldade para falar podem indicar toxicidade e exigem avaliação urgente; não tente resolver esses sinais apenas bebendo mais água.⁵ O acompanhamento do lítio continua necessário, independentemente do exercício.
O que observar depois de começar
A balança ou o número de treinos não precisam ser a única medida. Observe se a atividade ficou mais tolerável, se passou a caber na rotina e se o sono foi preservado. Se ajudar, anote brevemente o que conseguiu fazer e o que dificultou; não é necessário transformar isso em uma planilha diária.
Na consulta, informações como “a dor me faz interromper a caminhada” ou “o horário do treino está encurtando meu sono” ajudam mais do que apenas dizer que faltou disciplina. Elas permitem decidir se o próximo passo é adaptar a atividade, buscar orientação para uma limitação física ou reavaliar algum aspecto do tratamento.
Referências
- World Health Organization. Physical activity [Internet]. 2024 jun 26 [citado 18 out 2026]. Disponível em: World Health Organization.
2. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Revisado em 2025 [citado 18 out 2026]. Disponível em: NIMH.
3. Lafer B, Duarte CC, Greve JMD, Silva PRS, Almeida KM, Belizario GO, et al. Structured physical exercise for bipolar depression: an open-label, proof-of concept study. Int J Bipolar Disord. 2023;11:14. doi:10.1186/s40345-023-00294-8.
4. Hamada F, Hori H, Kumagai H, Ogata M, Yokoyama H, Tomiyama Y, et al. Effects of adjunctive exercise therapy in patients with bipolar depression: a pilot multicenter cluster-randomized controlled trial. Metabolites. 2026;16(9):679. doi:10.3390/metabo16090679.
5. National Health Service. Side effects of lithium [Internet]. Revisado em 2023 ago 9 [citado 18 out 2026]. Disponível em: NHS.
Imagem: Andres Ayrton / Pexels. Licença Pexels. Cena ilustrativa de atividade física.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.