Antipsicóticos injetáveis de longa ação no transtorno bipolar: quando são considerados?
Postado em: 17/10/2026
Alguns antipsicóticos injetáveis de longa ação podem ser considerados na manutenção do transtorno bipolar tipo I, para ajudar a prevenir novos episódios depois da estabilização. A decisão combina o que funcionou anteriormente, os efeitos do medicamento, a preferência da pessoa e a possibilidade de manter o tratamento. A evidência varia conforme a formulação e é mais consistente para prevenir mania do que depressão.1
“Longa ação” descreve a liberação prolongada do medicamento após a aplicação. Não significa que ele seja mais forte, nem que tenha a mesma finalidade de uma injeção usada em uma emergência.2 E o nome da classe, antipsicótico, não quer dizer que a pessoa necessariamente tenha psicose: alguns desses medicamentos também participam do tratamento dos transtornos do humor.1
O que os estudos mostraram sobre a prevenção de episódios
Em um ensaio, 266 adultos com bipolar I, inicialmente em mania, foram estabilizados com aripiprazol antes do sorteio para continuar a formulação mensal ou receber placebo. A análise de eficácia incluiu 265 participantes. Na fase comparativa, planejada para 52 semanas, foram observadas estas recorrências:3
| Tratamento | Participantes com recorrência pelos critérios do estudo |
|---|---|
| Aripiprazol mensal | 26,5% — 35 de 132 avaliados |
| Placebo | 51,1% — 68 de 133 avaliados |
Esses critérios incluíam piora dos sintomas, necessidade de tratamento adicional ou hospitalização. O benefício ocorreu principalmente na prevenção de mania. Não houve diferença estatisticamente significativa para episódios depressivos.
Nem todos concluíram o acompanhamento; os percentuais representam as recorrências observadas, não taxas de cura ou remissão. Como a comparação incluiu pessoas já estabilizadas e que toleravam o medicamento, ela também não informa o resultado de todos os que começam a usá-lo. O comparador foi placebo, não aripiprazol em comprimidos.3
Um estudo de risperidona de longa ação seguiu uma lógica semelhante: após uma fase inicial, 303 participantes que mantiveram resposta foram sorteados para continuar o medicamento ou receber placebo, por até dois anos. A risperidona prolongou o tempo até uma recorrência, com benefício nos episódios de humor elevado, mas sem diferença significativa para depressão.4
Esses resultados ajudam a entender por que o psiquiatra pergunta quais episódios estão voltando. A prevenção de mania pode ser uma prioridade para alguém, enquanto outra pessoa precisa sobretudo de uma estratégia para depressões recorrentes. Os estudos citados não estabelecem essas formulações como tratamento da depressão bipolar aguda nem permitem transportar suas conclusões automaticamente para o bipolar II.1
Quando a proposta faz sentido na consulta
A discussão costuma começar pelo tratamento atual: houve melhora? Os efeitos são aceitáveis? O que dificulta manter a prescrição? Esquecer uma tomada, não conseguir comprar o medicamento e deixar de tomá-lo por um efeito desagradável são problemas diferentes. Entender a dificuldade evita que uma falha de continuidade seja confundida com falta de eficácia.5
A formulação prolongada pode simplificar parte dessa rotina. Uma pessoa pode preferir aplicações programadas; outra pode considerar o deslocamento ou a própria aplicação um obstáculo. Essa preferência precisa entrar na decisão, junto com a resposta anterior, a tolerabilidade e o histórico dos episódios.1,5
Esclareça também quais comprimidos seriam mantidos. Um injetável pode integrar um esquema com outros medicamentos; escolhê-lo não significa necessariamente substituir toda a prescrição.1 Quando há várias medicações, uma revisão dos objetivos de cada uma ajuda a tornar a proposta compreensível.
O que muda entre uma aplicação e outra
Com as aplicações agendadas, a equipe consegue identificar quando uma dose não foi administrada e discutir com a pessoa o motivo. Ainda é preciso combinar onde o medicamento será obtido e administrado, como comparecer e quem procurar se houver um atraso. Nessa situação, a equipe deve orientar os próximos passos; não se deve compensar uma aplicação por conta própria.2,5
Menos tomadas também não significam menos efeitos adversos. No ensaio de aripiprazol mensal, ganho de peso e acatisia — uma inquietação motora que pode dificultar ficar parado — estiveram entre os efeitos relatados com maior frequência do que com placebo.3 Informar quando começaram e como interferem no dia a dia ajuda a avaliar a tolerabilidade. O acompanhamento de peso e alterações metabólicas associadas aos antipsicóticos integra a avaliação dos efeitos do tratamento.
A liberação prolongada tem outra consequência prática: o medicamento continua no organismo depois da aplicação, e eventuais efeitos indesejados podem não desaparecer imediatamente. Por isso, antes de iniciar uma formulação de longa ação, o psiquiatra precisa avaliar como a pessoa vinha tolerando o medicamento.2
Acesso no Brasil: o que precisa ser conferido
Situação consultada em outubro de 2026. A Johnson & Johnson comunicou o início do processo local de descontinuação do registro de Risperdal Consta, uma apresentação de risperidona de longa ação, e previu sua retirada gradual da comercialização brasileira a partir de fevereiro de 2025. Segundo a empresa, a decisão decorreu de uma estratégia de fornecimento, sem relação com a segurança ou a eficácia do medicamento.6
O comunicado não permite concluir, sozinho, se o cancelamento do registro já foi concluído ou se ainda há algum estoque. Da mesma forma, a existência de estudos com aripiprazol mensal não comprova que essa apresentação esteja registrada e disponível no Brasil. Registro, indicação aprovada e acesso comercial precisam ser verificados para o produto específico antes de planejar seu uso.
Antes de decidir sobre essa possibilidade, esclareça quatro pontos com o psiquiatra:
- Objetivo: quais episódios queremos prevenir com essa formulação?
- Prescrição: o que mudaria no meu tratamento atual e o que continuaria?
- Tolerabilidade: quais efeitos devo comunicar e como serão acompanhados?
- Continuidade: há acesso regular ao produto e às aplicações, e quem devo procurar se surgir um problema?
Referências
- Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi: 10.1176/appi.focus.20230009.
- Janssen-Cilag Farmacêutica Ltda. Risperdal Consta: bula do profissional. VPS TV 4.0; aprovação Anvisa em 23 set 2021 [citado 17 out 2026]. Disponível em: bula do fabricante.
- Calabrese JR, Sanchez R, Jin N, Amatniek J, Cox K, Johnson B, et al. Efficacy and safety of aripiprazole once-monthly in the maintenance treatment of bipolar I disorder: a double-blind, placebo-controlled, 52-week randomized withdrawal study. J Clin Psychiatry. 2017;78(3):324–331. doi: 10.4088/JCP.16m11201.
- Quiroz JA, Yatham LN, Palumbo JM, Karcher K, Kushner S, Kusumakar V. Risperidone long-acting injectable monotherapy in the maintenance treatment of bipolar I disorder. Biol Psychiatry. 2010;68(2):156–162. doi: 10.1016/j.biopsych.2010.01.015.
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi: 10.1111/bdi.12609.
- Johnson & Johnson. Comunicado Risperdal Consta (risperidona). Ago 2024; página publicada em 16 dez 2024 [citado 17 out 2026]. Disponível em: comunicado oficial.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.