Lítio e cálcio alto: quando investigar as paratireoides?

Postado em: 20/10/2026

Modelo anatômico do pescoço com as quatro paratireoides destacadas em roxo.

Paratireoides destacadas em roxo. Imagem: BodyParts3D / DBCLS, CC BY-SA 2.1 Japão.

O cálcio pode aparecer elevado em um exame de rotina de quem usa lítio, mesmo sem sintomas. Esse resultado precisa ser esclarecido, mas não significa que o medicamento terá de ser retirado. A avaliação procura confirmar a alteração, entender sua causa e verificar se ela traz repercussões para a saúde.1

Isso pode acontecer mesmo com a litemia adequada. A quantidade de lítio no sangue não informa, sozinha, como estão os sistemas que regulam o cálcio. Por isso, o acompanhamento inclui exames com funções distintas.2

Litemia, cálcio e PTH: o que cada resultado mostra

A litemia mede a concentração de lítio no sangue e ajuda a acompanhar o tratamento. O cálcio sanguíneo verifica a concentração desse mineral. Seu aumento recebe o nome de hipercalcemia.1,2

Já o PTH, ou paratormônio, é produzido pelas paratireoides: pequenas glândulas localizadas junto à tireoide, mas com outra função. O PTH participa da regulação do cálcio por meio de ações nos ossos, nos rins e, indiretamente, na absorção intestinal. Ter cálcio alto, portanto, não é a mesma coisa que ter uma alteração da tireoide.3

O cálcio integra a avaliação inicial e o acompanhamento de quem usa lítio. A necessidade de dosar PTH depende dos achados da avaliação. O artigo sobre exames e acompanhamento do lítio explica o conjunto desse monitoramento.1,2

Por que um PTH “normal” pode precisar de investigação?

Quando o cálcio no sangue aumenta, a resposta esperada das paratireoides é reduzir a liberação de PTH. Se o hormônio continua elevado — ou em um nível que não diminuiu o suficiente —, essa combinação merece investigação.3

Mesmo que o laboratório marque o PTH como “dentro da referência”, o médico pode solicitar uma avaliação das paratireoides. Estar dentro do intervalo impresso no laudo não garante que aquele PTH seja adequado ao cálcio medido. A interpretação depende dos dois resultados juntos, e não apenas de quais números aparecem destacados.4

Antes de concluir a causa, pode ser necessário repetir a dosagem de cálcio. Parte do cálcio circula ligada à albumina, uma proteína do sangue. Por isso, quando o exame mede o cálcio total, a concentração dessa proteína também precisa ser considerada.4

O lítio pode modificar a percepção do cálcio pelas paratireoides e favorecer a liberação de PTH. Mas ele não explica automaticamente toda alteração: resultados anteriores, função renal, outros medicamentos e suplementos também precisam ser considerados.1

O que os rins e os ossos têm a ver com isso

Em determinados quadros de hiperparatireoidismo, a atividade excessiva das paratireoides pode contribuir para perda de massa óssea e formação de cálculos renais. É por isso que a investigação, quando indicada, vai além de repetir exames de sangue.3

A repercussão depende da causa, da intensidade e da persistência da alteração. Uma pequena elevação isolada não demonstra dano aos ossos ou aos rins, nem torna essas consequências inevitáveis. Depois de confirmar um problema, o médico pode avaliar a função renal e solicitar exames como densitometria óssea ou imagem dos rins, conforme o caso.1,4

Cansaço ou dificuldade de concentração não permitem identificar a causa: esses sintomas podem ter várias explicações. Da mesma forma, sentir-se bem não elimina a necessidade de avaliar um exame alterado.4 Para aprofundar outro aspecto do acompanhamento, veja lítio e saúde dos rins.

É possível continuar o lítio?

Em alguns casos, sim. A decisão considera a alteração encontrada, sua evolução e o benefício do lítio para o transtorno do humor. Quando necessário, psiquiatra e endocrinologista organizam juntos a investigação e o tratamento.1

A suspensão do lítio não garante que o cálcio volte ao normal. Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou relatos conflitantes sobre a resolução do hiperparatireoidismo após a retirada do medicamento.5

Não altere o lítio, a vitamina D ou os suplementos sem orientação. Informe o resultado ao prescritor para definir os próximos exames e o prazo da avaliação.

Como preparar a próxima consulta

Leve os laudos completos, com datas e intervalos de referência, inclusive os anteriores ao início do lítio. Uma lista de medicamentos, vitaminas e suplementos ajuda a identificar o que deve ser revisto. Se percebeu mudanças físicas ou de concentração, anote quando começaram.

Procure sair da consulta sabendo:

  • se o cálcio precisa ser confirmado e quais resultados serão analisados junto com ele;
  • se há indicação de avaliação endocrinológica;
  • quem receberá os próximos exames e quando você deve voltar ou entrar em contato.

Se os exames forem solicitados por profissionais diferentes, compartilhe os resultados com os responsáveis pelo acompanhamento. Assim, a decisão sobre o lítio pode levar em conta a investigação das paratireoides.

Referências

  1. Kovacs Z, Vestergaard P, Licht RW, Straszek SPV, Hansen AS, Young AH, et al. Lithium induced hypercalcemia: an expert opinion and management algorithm. Int J Bipolar Disord. 2022;10:34. doi:10.1186/s40345-022-00283-3. Texto integral.
  2. NHS Specialist Pharmacy Service. Lithium monitoring [Internet]. Atualizado em 6 dez. 2024 [citado em 20 out. 2026]. Disponível em: https://sps.nhs.uk/monitorings/lithium-monitoring/.
  3. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Primary hyperparathyroidism [Internet]. Revisado em mar. 2019 [citado em 20 out. 2026]. Disponível em: https://www.niddk.nih.gov/health-information/endocrine-diseases/primary-hyperparathyroidism.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Hyperparathyroidism (primary): diagnosis, assessment and initial management. NICE guideline NG132 [Internet]. 23 maio 2019 [citado em 20 out. 2026]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng132.
  5. Vandermeulen L, Van Melkebeke L, Sienaert P. Lithium-associated hypercalcemia and hyperparathyroidism: a systematic review and meta-analysis. World J Biol Psychiatry. 2024;25(8):417–429. doi:10.1080/15622975.2024.2393373. Resumo no PubMed.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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