Parar de fumar durante o tratamento psiquiátrico: o que precisa ser acompanhado

Postado em: 17/10/2026

Cigarro partido ao meio sobre fundo branco.

Quem faz tratamento para depressão, ansiedade, transtorno bipolar ou esquizofrenia pode recear que parar de fumar piore seu estado emocional. Ter um diagnóstico psiquiátrico não é, por si só, motivo para ficar sem tratamento da dependência de nicotina. É possível planejar a cessação junto ao acompanhamento já realizado, considerando os sintomas atuais, as tentativas anteriores e os medicamentos em uso.¹

O tratamento pode reunir apoio comportamental e medicamentos para facilitar a interrupção do cigarro. Essa combinação aumenta a chance de conseguir parar.² Ao longo do processo, a equipe acompanha tanto a vontade de fumar quanto mudanças no sono, no humor e, em alguns casos, no efeito dos remédios que a pessoa já utiliza.

Como o tratamento ajuda a ficar sem o cigarro

A vontade intensa de fumar, chamada fissura, pode aparecer ligada a situações que se repetem: o café, o intervalo do trabalho, uma discussão ou o fim de uma refeição. Parte do tratamento consiste em reconhecer essas associações e planejar como lidar com a vontade de fumar nessas situações.³

Considere, como exemplo, alguém que sempre fuma durante a pausa no trabalho. O profissional pode ajudar essa pessoa a planejar a pausa de outro modo e depois avaliar o que aconteceu: a vontade diminuiu, permaneceu intensa ou levou a fumar? Essa informação permite ajustar a estratégia.

Os medicamentos também podem diminuir a fissura e os sintomas de abstinência. A reposição de nicotina fornece a substância sem a fumaça do cigarro. A bupropiona é uma opção sem nicotina. Ambas fazem parte do protocolo brasileiro, com indicação definida após avaliação.¹ Quem já usa bupropiona para depressão deve informar que pretende parar de fumar; a prescrição atual não deve ser modificada por conta própria para esse objetivo.

O apoio pode ser individual ou em grupo. A escolha também precisa caber na rotina: disponibilidade para retornos, custo, deslocamento e acesso aos medicamentos influenciam a possibilidade de seguir o plano.²

Quanto os medicamentos ajudaram nos estudos

O ensaio EAGLES incluiu 4.116 fumantes com diagnóstico psiquiátrico clinicamente estáveis. Todos receberam aconselhamento, e os tratamentos duraram 12 semanas. A tabela mostra quantos permaneceram sem fumar durante as semanas 9 a 12 — as quatro últimas do tratamento, com confirmação pelo relato e pela medida de monóxido de carbono no ar expirado.⁴

Tratamento estudado Participantes no grupo Sem fumar durante as semanas 9 a 12
Vareniclina 1.032 29,2%
Bupropiona 1.033 19,3%
Adesivo de nicotina 1.025 20,4%
Placebo 1.026 11,4%

Esses resultados medem um período definido, não uma interrupção definitiva. Por exemplo, a abstinência contínua entre as semanas 9 e 24 foi de 18,3% com vareniclina e 8,3% com placebo.⁴

O estudo não detectou aumento estatisticamente significativo dos eventos neuropsiquiátricos moderados ou graves avaliados, atribuível à vareniclina ou à bupropiona em comparação com adesivo ou placebo. Isso não significa risco zero nem permite aplicar o resultado diretamente a uma crise psiquiátrica aguda.⁴ Para escolher um tratamento, ainda entram a resposta anterior, as contraindicações e o acesso ao medicamento no Brasil.

Sono e humor nos primeiros dias

Irritabilidade, dificuldade de concentração, alterações do sono e vontade de fumar podem acompanhar a abstinência de nicotina. A intensidade varia, e nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas.³

Para a avaliação, ajuda descrever a sequência: quando diminuiu o cigarro, quando começou a dificuldade para dormir, se algum medicamento foi iniciado e quanto a mudança está afetando o trabalho ou as atividades habituais. Isso permite investigar abstinência, efeito de medicamentos e evolução do transtorno psiquiátrico sem atribuir tudo à mesma causa.

No transtorno bipolar, mudanças marcantes de energia, necessidade de sono ou comportamento precisam ser relatadas à equipe. Uma análise do EAGLES com 285 participantes com bipolaridade também estudou pessoas estáveis; seus resultados não permitem escolher um medicamento como o melhor para todas as fases da doença.⁵

Piora intensa do humor, aceleração importante ou sintomas psicóticos pedem avaliação pronta. Se houver risco imediato de autoagressão ou dificuldade de permanecer em segurança, procure atendimento de urgência. Não é necessário esperar um prazo de abstinência terminar para buscar ajuda.

Por que parar de fumar pode alterar o efeito de alguns remédios

A fumaça e a nicotina têm efeitos diferentes sobre o metabolismo dos medicamentos. Componentes da fumaça aceleram a atividade de certas enzimas do fígado. Ao reduzir ou interromper o cigarro, essa influência diminui e a concentração de alguns remédios no sangue pode aumentar, mesmo que a dose continue igual. Ao voltar a fumar, a concentração pode cair.⁶

Isso também pode ocorrer se a pessoa parar de fumar e começar a usar reposição de nicotina. O adesivo ou a goma não mantêm o efeito da fumaça sobre essas enzimas. A interação não se aplica da mesma maneira a todos os medicamentos psiquiátricos.⁶

Clozapina e olanzapina são dois exemplos relevantes. Quem usa esses medicamentos deve avisar o prescritor antes de uma redução ou interrupção planejada do cigarro, quando possível. Se a mudança já aconteceu, comunique prontamente, sobretudo no uso de clozapina, sem esperar sintomas ou a próxima consulta. A equipe define a necessidade de acompanhamento adicional, dosagem do medicamento no sangue ou ajuste da prescrição.⁷

Esse acompanhamento permite planejar a cessação; a interação não é motivo para manter o cigarro. Para quem utiliza clozapina, o artigo sobre clozapina na esquizofrenia explica outros pontos da monitorização.

Organizar a tentativa e retomar o plano se houver dificuldade

Na avaliação, informe quanto fuma, em quais horários, se já está reduzindo e o que dificultou tentativas anteriores. Leve a lista dos medicamentos e defina com os profissionais quem acompanhará a cessação e quando será o próximo retorno. Se houver equipes diferentes, ambas precisam saber das mudanças.¹⁷

Voltar a fumar é informação para rever o tratamento: o que aconteceu, como estava a vontade de fumar e qual apoio faltou naquele momento? O retorno ao cigarro também deve ser comunicado ao prescritor quando há medicamentos sujeitos à interação.⁷ Uma tentativa interrompida pode orientar a próxima, em vez de encerrar a possibilidade de tratamento.¹

Referências

1. Brasil. Ministério da Saúde. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo. Portaria Conjunta nº 10, de 16 de abril de 2020. Brasília: Ministério da Saúde; 2020. Documento oficial.

2. World Health Organization. WHO releases first-ever clinical treatment guideline for tobacco cessation in adults [Internet]. Geneva: WHO; 2024 Jul 2 [citado em 17 out 2026]. Síntese oficial da diretriz.

3. Instituto Nacional de Câncer. Tratamento do tabagismo [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; [citado em 17 out 2026]. Página institucional.

4. Anthenelli RM, Benowitz NL, West R, St Aubin L, McRae T, Lawrence D, et al. Neuropsychiatric safety and efficacy of varenicline, bupropion, and nicotine patch in smokers with and without psychiatric disorders (EAGLES): a double-blind, randomised, placebo-controlled clinical trial. Lancet. 2016;387(10037):2507–2520. doi:10.1016/S0140-6736(16)30272-0.

5. Heffner JL, Evins AE, Russ C, Lawrence D, Ayers CR, McRae T, et al. Safety and efficacy of first-line smoking cessation pharmacotherapies in bipolar disorders: subgroup analysis of a randomized clinical trial. J Affect Disord. 2019;256:267–277. doi:10.1016/j.jad.2019.06.008.

6. NHS Specialist Pharmacy Service. Considering drug interactions with smoking [Internet]. 2023 Oct 31 [atualizado em 8 nov 2023; citado em 17 out 2026]. Orientação sobre fumaça e metabolismo.

7. NHS Specialist Pharmacy Service. Managing specific interactions with smoking [Internet]. 2023 Oct 31 [citado em 17 out 2026]. Orientação sobre interações específicas.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.