Prolactina alta durante o uso de antipsicóticos: o que investigar
Postado em: 01/10/2026
Receber um exame alterado quando o tratamento psiquiátrico está ajudando pode trazer uma preocupação: será preciso mudar o remédio? Alguns antipsicóticos podem aumentar a prolactina, mas o resultado não determina sozinho a causa nem exige suspensão imediata. A avaliação considera o valor encontrado, os sintomas, o histórico dos medicamentos e outras explicações possíveis.¹²
Hiperprolactinemia é o nome dado à prolactina acima da referência esperada.
Por que um antipsicótico pode aumentar a prolactina
A prolactina é produzida pela hipófise, uma pequena glândula na base do cérebro, e participa principalmente da produção de leite após o parto. A dopamina normalmente freia sua liberação. Ao bloquear essa ação sobre a hipófise, alguns antipsicóticos podem permitir que mais prolactina seja liberada no sangue.¹³
Risperidona e haloperidol são exemplos de medicamentos que podem causar essa elevação. O efeito não é igual para todos os antipsicóticos nem para todas as pessoas.¹² Um medicamento com menor efeito sobre a prolactina também precisa ser avaliado quanto ao benefício psiquiátrico e aos demais efeitos indesejados.
Quais mudanças merecem ser relatadas
Alterações que merecem conversa com a equipe incluem menstruação irregular ou ausente, saída de leite fora do contexto esperado de amamentação, redução do desejo sexual e dificuldade de ereção. Ressecamento vaginal e dor nas relações também podem ocorrer.¹
Nem toda dificuldade sexual decorre da prolactina. Outros problemas de saúde, medicamentos e aspectos da vida pessoal também precisam ser considerados. Na consulta, conte quando a mudança começou e quanto ela incomoda.
Quando a elevação interfere na produção de hormônios sexuais por tempo prolongado, pode ser necessário avaliar também a saúde dos ossos. Isso não significa que toda pessoa com um resultado alto desenvolverá osteoporose. Mesmo sem sintomas, um achado persistente merece interpretação para esclarecer sua causa e decidir se basta acompanhar.¹²
O exame alterado precisa de contexto
Quatro perguntas ajudam a organizar a investigação:
Qual é a referência do laboratório? O resultado deve ser lido junto da unidade e do intervalo de referência, que varia conforme o método. Uma elevação discreta pode exigir nova dosagem, considerando fatores como o estresse da coleta.³
Há um resultado anterior? Um exame feito antes do tratamento ou em outra fase pode ajudar a entender quando a prolactina começou a subir. Sem esse registro, ainda é possível investigar; apenas há menos informação para comparar.
Quando começaram o medicamento e os sintomas? A relação temporal com o início do tratamento ou com mudanças na prescrição é uma pista. Ela precisa ser analisada junto dos outros dados, pois a elevação pode ter mais de uma explicação.²
Quais outras causas precisam ser consideradas? Gestação e amamentação, quando aplicáveis, hipotireoidismo, doença renal e outros medicamentos podem influenciar o resultado. O uso de um antipsicótico não elimina a necessidade de avaliar essas possibilidades.²
Em situações selecionadas, o médico pode pesquisar macroprolactina, uma forma do hormônio detectada pelo exame, mas com pouca atividade biológica. Isso ajuda a interpretar resultados que não combinam com o quadro clínico e pode evitar investigações desnecessárias.³
Prolactina alta, portanto, não significa automaticamente um tumor. A necessidade de imagem da hipófise depende da investigação, dos sintomas e da persistência da dúvida sobre a causa. Um número isolado não permite concluir que existe um prolactinoma, tumor geralmente benigno que produz prolactina, nem atribuir toda a alteração ao medicamento.³
Dor de cabeça nova e importante ou alterações da visão pedem avaliação pronta. Esses sinais não devem ser considerados um efeito comum do antipsicótico sem investigação.⁴
É possível cuidar disso sem perder a estabilidade
Depois de esclarecer a causa, pode ser suficiente acompanhar a prolactina e os sintomas. Quando é necessário rever o tratamento, o médico pode considerar ajustes na prescrição, troca do antipsicótico ou associação de outro medicamento. A decisão depende também da persistência da alteração e da resposta ao tratamento psiquiátrico.²⁵
Uma mudança precisa levar em conta o risco de perder o benefício já alcançado. Se a prescrição for alterada, é preciso acompanhar tanto a prolactina quanto o estado mental.⁵
Um exemplo estudado é a associação de aripiprazol à risperidona. Em um ensaio com 30 participantes com esquizofrenia, acompanhado por oito semanas, essa associação reduziu a prolactina em comparação com placebo. Houve, porém, piora dos sintomas psicóticos em dois participantes do grupo que recebeu aripiprazol, embora não tenha havido diferença estatisticamente significativa entre os grupos na evolução das pontuações das escalas de sintomas psiquiátricos e efeitos motores.⁶
O estudo avaliou acrescentar um medicamento, e não substituir a risperidona. Seu tamanho e sua duração limitam as conclusões: a queda da prolactina não garante recuperação de todos os sintomas, e os eventos observados não estabelecem uma taxa de risco válida para qualquer paciente.⁶
O uso especificamente para reduzir a prolactina não consta entre as indicações da bula brasileira de aripiprazol consultada — é um uso fora das indicações de bula, chamado off-label. Isso exige avaliação individual dos benefícios e riscos com o prescritor.⁷
Psiquiatria e endocrinologia podem trabalhar em conjunto quando a causa não está clara, há repercussões hormonais relevantes ou suspeita de doença da hipófise. Se um prolactinoma for diagnosticado, seu tratamento precisará ser coordenado com o cuidado psiquiátrico. As decisões usadas nesse contexto não se aplicam automaticamente a toda elevação associada a antipsicóticos.⁴
O que levar para a consulta
Para facilitar a avaliação psiquiátrica, leve:
- O exame completo, com unidade e referência do laboratório.
- Resultados anteriores que estiverem disponíveis.
- A lista dos medicamentos e as mudanças recentes na prescrição.
- Os sintomas percebidos, quando começaram e como afetam sua rotina.
Não interrompa, reduza ou substitua antipsicóticos por conta própria para testar a prolactina. A revisão da prescrição precisa ser combinada com quem acompanha o tratamento.⁵
Se ocorrer perda súbita da visão, dor de cabeça súbita e intensa ou comprometimento agudo importante, procure atendimento de urgência. Não espere uma consulta de rotina.⁸
Referências
- Endocrine Society. Hyperprolactinemia. Atualizado em 24 jan 2022. Acesso em 1 out 2026.
- Melmed S, Casanueva FF, Hoffman AR, Kleinberg DL, Montori VM, Schlechte JA, et al. Diagnosis and treatment of hyperprolactinemia: an Endocrine Society clinical practice guideline. J Clin Endocrinol Metab. 2011;96(2):273–288. doi:10.1210/jc.2010-1692.
- Glezer A, Garmes HM, Kasuki L, Martins M, Elias PCL, Nogueira VDSN, et al. Diagnosis of hyperprolactinemia in women: a position statement from the Brazilian Federation of Gynecology and Obstetrics Associations (Febrasgo) and the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2024;68:e230502. doi:10.20945/2359-4292-2023-0502.
- Petersenn S, Fleseriu M, Casanueva FF, Giustina A, Biermasz N, Biller BMK, et al. Diagnosis and management of prolactin-secreting pituitary adenomas: a Pituitary Society international Consensus Statement. Nat Rev Endocrinol. 2023;19:722–740. Texto consultado: manuscrito aceito no repositório da University of Birmingham. Correção: doi:10.1038/s41574-023-00916-2, publicada em 17 out 2023.
- Benetti-Pinto CL, Nácul AP, Rosa-e-Silva ACJS, Maciel GAR, Nogueira VDSN, Elias PCL, et al. Treatment of hyperprolactinemia in women: a position statement from the Brazilian Federation of Gynecology and Obstetrics Associations (Febrasgo) and the Brazilian Society of Endocrinology and Metabolism (SBEM). Arch Endocrinol Metab. 2024;68:e230504. doi:10.20945/2359-4292-2023-0504.
- Raghuthaman G, Venkateswaran R, Krishnadas R. Adjunctive aripiprazole in risperidone-induced hyperprolactinaemia: double-blind, randomised, placebo-controlled trial. BJPsych Open. 2015;1(2):172–177. doi:10.1192/bjpo.bp.115.001248.
- Novartis Biociências S.A. Aripiprazol: comprimidos de 10 e 15 mg. Bula para profissionais de saúde. Versão VPS04. Registro MS 1.0068.1177. Atualizada conforme bula padrão aprovada pela Anvisa em 3 ago 2023; versão disponibilizada no portal oficial consultado em 1 out 2026.
- National Health Service. Headaches. Revisado em 17 abr 2024. Acesso em 1 out 2026.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.