Síndrome das pernas inquietas: quando o desconforto à noite precisa de investigação?

Postado em: 20/10/2026

Ilustração de uma mulher sentada na beira da cama, com linhas junto às pernas representando inquietação.

A necessidade de mexer as pernas ao deitar merece investigação quando se repete e atrapalha o descanso. Na síndrome das pernas inquietas, essa vontade surge ou piora durante o repouso, costuma ser mais intensa à noite e melhora, pelo menos temporariamente, com o movimento.1

Considere esta situação ilustrativa: alguém chega cansado, deita para dormir e começa a sentir uma agonia nas pernas. Caminha pelo quarto e melhora. Ao voltar para a cama, o incômodo reaparece. Esse relato ajuda a explicar o padrão que o médico procura, mas a avaliação também precisa afastar outras causas.1

Como descrever uma sensação difícil de explicar

O desconforto pode parecer um puxão, formigamento, coceira interna ou sensação de algo se movendo nas pernas. Nem sempre é dor. Mais do que encontrar a palavra exata, ajuda explicar quando começa e o que acontece ao se levantar. Em algumas pessoas, o problema aparece também ao permanecer sentado, por exemplo durante uma viagem ou um filme.2

Balançar a perna, sentir formigamento ou ter uma noite agitada não confirma a síndrome. A câimbra, por exemplo, envolve uma contração muscular dolorosa. Ansiedade pode coexistir com pernas inquietas; atribuir todo desconforto ao estado emocional pode deixar o problema sem esclarecimento.1

Outra possibilidade é a acatisia, uma inquietação interna que pode estar relacionada a medicamentos. A distribuição dos sintomas, seus horários e a relação com mudanças da prescrição ajudam a distinguir os quadros.3

O diagnóstico depende do relato; os exames respondem a outras perguntas

Não existe um exame isolado que confirme pernas inquietas. A avaliação reúne a história dos sintomas, o exame clínico e a investigação de outras explicações. A polissonografia, realizada durante uma noite de sono, não é obrigatória para todos: pode ser útil quando há suspeita de outro distúrbio, como apneia.2

Movimentos involuntários e repetidos das pernas durante o sono podem acompanhar a síndrome, mas também ocorrem em outras situações. Encontrá-los em uma polissonografia não equivale, por si só, ao diagnóstico de pernas inquietas.2

A investigação do ferro tem uma função diferente. Em quadros que causam incômodo relevante ou prejuízo, a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono recomenda avaliar ferritina e saturação de transferrina, que ajudam a conhecer as reservas e a disponibilidade de ferro. Ter um hemograma sem anemia não encerra essa avaliação. Os resultados orientam se há indicação de reposição e como fazê-la; não significam que toda pessoa com pernas inquietas deva tomar ferro.4

Quais tratamentos podem ajudar?

O plano considera a frequência dos sintomas e quanto eles prejudicam o sono. Também procura fatores que podem agravá-los: cafeína, álcool, apneia não tratada e alguns medicamentos, inclusive certos antidepressivos, antialérgicos e remédios para náuseas. Informe se os sintomas começaram ou pioraram após iniciar ou ajustar um medicamento. Qualquer mudança na prescrição deve ser avaliada com o profissional responsável.5,4

Quando os sintomas persistem e exigem tratamento medicamentoso, gabapentina e pregabalina estão entre as opções com evidência de benefício. A atualização de 2026 do algoritmo de tratamento situa esse grupo entre as primeiras escolhas para quadros crônicos e persistentes. A indicação leva em conta outros problemas de saúde e medicamentos em uso; tontura e sonolência estão entre os efeitos a acompanhar.5,6

Em um ensaio randomizado com adultos que tinham síndrome das pernas inquietas moderada a grave, 719 pessoas receberam tratamento em quatro grupos. Na comparação após 12 semanas, 125 dos 175 participantes avaliados com pregabalina (71,4%) tiveram sintomas classificados como “muito melhorados” ou “muitíssimo melhorados”, frente a 81 dos 173 com placebo (46,8%) — aproximadamente 25 pontos percentuais de diferença. Esse resultado mede melhora importante, não desaparecimento completo dos sintomas. O estudo acompanhou grupos de tratamento por até um ano e foi financiado pela Pfizer.7

Quando o remédio ajuda no início, mas os sintomas passam a chegar mais cedo

Medicamentos como o pramipexol podem aliviar pernas inquietas, mas o uso prolongado pode provocar um agravamento chamado augmentation. O desconforto que antes surgia à noite passa a começar à tarde, aparece mais rapidamente ao sentar ou se estende a outras partes do corpo. Aumentar a dose por conta própria pode intensificar esse processo.4

Esse risco mudou as recomendações: a diretriz da Academia Americana de Medicina do Sono de 2025 sugere que o pramipexol deixe de ser uma escolha de uso rotineiro. Isso não é uma proibição absoluta. Há situações em que o benefício e as alternativas disponíveis justificam seu uso, com acompanhamento.4

Quem já utiliza o medicamento deve relatar qualquer antecipação ou expansão dos sintomas ao prescritor. A retirada brusca também pode causar piora intensa, por isso uma eventual mudança precisa ser planejada.4

O que levar à consulta

Uma anotação breve de algumas noites pode ajudar. Registre o horário em que o incômodo começou, onde foi sentido, se caminhar aliviou e quanto tempo levou para voltar após parar. Acrescente quantas noites foram prejudicadas e a lista dos medicamentos, incluindo os de uso eventual e mudanças recentes.2

Enquanto a avaliação é organizada, horários regulares para dormir, atividade física moderada e alongamentos podem aliviar sintomas em algumas pessoas.5 Se o problema continua interrompendo o descanso, descreva na consulta se você demora para adormecer, precisa se levantar repetidamente ou fica sem disposição no dia seguinte.

Referências

  1. Allen RP, Picchietti DL, Garcia-Borreguero D, Ondo WG, Walters AS, Winkelman JW, et al. Restless legs syndrome/Willis-Ekbom disease diagnostic criteria: updated International Restless Legs Syndrome Study Group (IRLSSG) consensus criteria—history, rationale, description, and significance. Sleep Med. 2014;15(8):860–873. doi:10.1016/j.sleep.2014.03.025.
  2. National Institute of Neurological Disorders and Stroke. Restless legs syndrome [Internet]. National Institutes of Health; [citado em 19 out 2026]. Disponível em: NIH Health.
  3. Pringsheim T, Gardner D, Addington D, Martino D, Morgante F, Ricciardi L, et al. The assessment and treatment of antipsychotic-induced akathisia. Can J Psychiatry. 2018;63(11):719–729. doi:10.1177/0706743718760288.
  4. Winkelman JW, Berkowski JA, DelRosso LM, Koo BB, Scharf MT, Sharon D, et al. Treatment of restless legs syndrome and periodic limb movement disorder: an American Academy of Sleep Medicine clinical practice guideline. J Clin Sleep Med. 2025;21(1):137–152. doi:10.5664/jcsm.11390.
  5. American Academy of Sleep Medicine. Restless legs syndrome: provider fact sheet [Internet]. [citado em 19 out 2026]. Disponível em: AASM.
  6. Silber MH, Berkowski JA, Buchfuhrer MJ, DelRosso LM, Earley CJ, Lipford MC, et al. An updated algorithm for the management of restless legs syndrome. Mayo Clin Proc. 2026;101(9):1561–1588. doi:10.1016/j.mayocp.2026.05.010.
  7. Allen RP, Chen C, Garcia-Borreguero D, Polo O, DuBrava S, Miceli J, et al. Comparison of pregabalin with pramipexole for restless legs syndrome. N Engl J Med. 2014;370(7):621–631. doi:10.1056/NEJMoa1303646.

Imagem: NIH News in Health. Adaptada para formato horizontal.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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