TDAH e TOC em adultos: como diferenciar as dificuldades e reconhecer quando coexistem?

Postado em: 25/10/2026

Mão com caneta junto a uma página impressa com anotações.

Considere uma situação ilustrativa: duas pessoas demoram muito para enviar uma mensagem de trabalho. Uma começa a escrever, muda para outra tarefa e perde o fio do que precisava dizer. A outra termina o texto, mas o relê repetidamente, presa à dúvida de ter escrito algo ofensivo e à necessidade de conferir mais uma vez.

Visto de fora, o resultado é parecido: a mensagem não é enviada. O que interrompe a tarefa pode ser diferente. TDAH e TOC podem coexistir, mas demora ou desatenção, isoladamente, não permitem identificar nenhum dos dois.1,2

O que acontece entre começar e terminar?

Na avaliação, o profissional procura entender o percurso da dificuldade. A pessoa se desviou da atividade? Ficou tentando resolver uma dúvida que retornava a cada verificação? Evitou começar por antecipar o sofrimento ligado a um pensamento? Essas perguntas ajudam a explorar o problema, mas precisam ser interpretadas junto da história clínica.1,2

No TOC, repetir uma ação pode trazer alívio passageiro e ainda assim ocupar muito tempo. A compulsão também pode ser mental: alguém parece estar parado diante da tela, enquanto repete palavras ou tenta neutralizar um pensamento indesejado. Nem toda repetição, porém, é uma compulsão.2

Isso mostra o limite do estereótipo de que TDAH é desorganização e TOC é organização. Uma mesa arrumada não revela se a pessoa consegue manter a atenção, assim como uma tarefa incompleta não revela se houve distração ou um ritual. No exemplo da mensagem, contar apenas quantos minutos foram gastos deixaria de fora o principal: o que a pessoa estava fazendo durante esse tempo.

A história das dificuldades muda a interpretação

O diagnóstico de TDAH em adultos inclui investigar manifestações desde a infância, sua persistência e o prejuízo em diferentes ambientes. Uma dificuldade recente de concentração não demonstra TDAH. O profissional avalia se há um padrão mais antigo e se outra condição explica melhor o que está acontecendo.1

Relatos de familiares e informações anteriores podem ajudar a reconstruir essa história. A avaliação não se resume a um boletim escolar ou a uma nota baixa. Importa entender a evolução: o que já era difícil, o que mudou e em quais situações o problema aparece. O guia de TDAH em adultos explica o processo de avaliação com mais detalhes.

Escalas podem organizar informações e acompanhar sintomas, mas não estabelecem o diagnóstico sozinhas. Também é preciso investigar obsessões e rituais que talvez a pessoa não tenha relatado por vergonha ou por não reconhecer que poderiam fazer parte do TOC.1,2

Quando há TDAH e TOC na mesma pessoa

Um estudo brasileiro com 955 adultos atendidos por TOC identificou histórico de TDAH em parte da amostra. Isso sustenta a importância de considerar a coexistência, sem indicar a probabilidade de um leitor ter os dois transtornos. Por ser um estudo transversal de uma amostra clínica, ele também não demonstra qual tratamento deve vir primeiro.3

Reconhecer os dois problemas permite acompanhar dificuldades que poderiam ficar escondidas sob um único diagnóstico. No exemplo inicial, a pessoa pode se distrair em algumas etapas e ficar presa a verificações em outras. Reduzir uma dessas interrupções não permite presumir que a outra também tenha desaparecido.

Para o TOC, há intervenções específicas, como a terapia cognitivo-comportamental com exposição e prevenção de resposta, além de medicamentos quando indicados. Nessa terapia, a pessoa enfrenta gradualmente situações que despertam obsessões e aprende a não realizar a compulsão habitual, com orientação do terapeuta. O artigo sobre TOC apresenta essas possibilidades.2

Quando há TOC associado, a diretriz NICE recomenda ajustar a dose do medicamento para TDAH mais lentamente e acompanhar a evolução com maior frequência. Nessa etapa, a pessoa pode observar se a distração diminuiu e se as verificações continuam interrompendo as tarefas, além de relatar mudanças no sono ao prescritor. A recomendação não estabelece proibição automática de estimulantes nem garante que eles melhorem ou piorem o TOC.1

Voltar à tarefa que motivou a avaliação pode tornar o acompanhamento mais claro. A pessoa consegue retomar a mensagem depois de uma interrupção? A necessidade de conferir continua impedindo o envio? Descrever essas diferenças ajuda o profissional a avaliar o tratamento sem atribuir toda dificuldade à falta de esforço ou esperar que uma única mudança resolva tudo.

Referências

  1. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NICE guideline NG87 [Internet]. London: NICE; 2018 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng87/chapter/recommendations.
  2. National Institute of Mental Health. Obsessive-Compulsive Disorder: When Unwanted Thoughts or Repetitive Behaviors Take Over [Internet]. Bethesda: NIMH; 2023 [citado 25 out 2026]. Disponível em: https://www.nimh.nih.gov/health/publications/obsessive-compulsive-disorder-when-unwanted-thoughts-or-repetitive-behaviors-take-over.
  3. Blanco-Vieira T, Santos M, Ferrão YA, Torres AR, Miguel EC, Bloch MH, et al. The impact of attention deficit hyperactivity disorder in obsessive-compulsive disorder subjects. Depress Anxiety. 2019;36(6):533–542. doi:10.1002/da.22898. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30990937/.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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