Terapia de aceitação e compromisso na depressão: como funciona na prática?

Postado em: 21/10/2026

Mulher escreve em uma folha durante uma sessão de psicoterapia, acompanhada pela terapeuta.

Considere o seguinte caso ilustrativo: uma mulher com depressão recebe uma mensagem de uma amiga convidando-a para um encontro. Pensa “vou estragar o encontro”, sente vergonha e deixa o convite sem resposta. Ela sente falta da amizade, mas passa a esperar que o desânimo desapareça para retomar o contato.

A terapia de aceitação e compromisso, conhecida pela sigla ACT, pode trabalhar justamente essa dificuldade: como pensamentos e sentimentos dolorosos influenciam escolhas e afastam a pessoa de relações ou atividades importantes. O objetivo é desenvolver flexibilidade psicológica — perceber o que se passa consigo, considerar a situação e ampliar as possibilidades de agir.1

O que fazer com o pensamento “vou estragar o encontro”?

Uma possibilidade é experimentar a formulação “estou tendo o pensamento de que vou estragar o encontro”. Essa mudança ajuda a observar o pensamento e sua influência sobre o comportamento. Na ACT, esse processo é chamado de desfusão: modificar a relação com uma ideia, sem precisar apagá-la ou decidir de antemão que ela é falsa.1

Voltando ao caso ilustrativo, o terapeuta poderia perguntar o que a pessoa imagina que aconteceria, como costuma reagir a essa previsão e o que aquela amizade representa. Talvez ela queira manter o vínculo, mas não consiga passar uma tarde inteira fora de casa. Uma resposta breve, a proposta de um encontro mais curto ou um contato por telefone poderiam ser alternativas a discutir.

Repetir uma frase não resolveria essa dificuldade por si só. A proposta seria perceber quando a previsão passa a determinar a escolha e investigar se existe uma resposta possível, mesmo com algum desconforto. A pessoa também poderia identificar uma razão concreta para recusar aquele convite. O trabalho considera a situação real, não exige aceitar qualquer oportunidade de contato.

Nesse exemplo, preservar a amizade seria um valor; enviar uma mensagem seria uma ação possível naquela direção. Valores orientam escolhas ao longo do tempo e não se resumem a metas de produtividade ou tarefas cumpridas.1

Se responder continuasse difícil, seria preciso descobrir o obstáculo: falta de energia, receio de perguntas, dificuldade de explicar o afastamento ou uma tarefa grande demais para aquele momento. A atividade poderia ser reformulada com o terapeuta.

Aceitar o sofrimento não significa desistir de melhorar

Na ACT, aceitação se refere à possibilidade de reconhecer experiências internas difíceis sem organizar todas as escolhas em torno de evitá-las. Isso não significa aprovar uma situação abusiva, tolerar condições que precisam mudar ou abandonar o tratamento dos sintomas.1

Uma pessoa pode trabalhar a relação com a tristeza e, ao mesmo tempo, buscar alívio da depressão. A psicoterapia pode integrar um plano com medicamentos, conforme a avaliação clínica. A diretriz VA/DoD inclui ACT entre as opções de psicoterapia para depressão maior e recomenda considerar o quadro e as preferências do paciente na escolha do tratamento.2

A terapia cognitivo-comportamental para depressão também trabalha pensamentos, comportamentos e dificuldades do cotidiano.2 As abordagens têm ênfases próprias, mas não se dividem entre “pensar positivo” e “aceitar tudo”. Seus recursos podem se sobrepor, e atividades graduadas não pertencem exclusivamente à ACT.1

Quanto melhoraram os pacientes nos estudos?

Um ensaio em atendimento ambulatorial comparou ACT e TCC em 82 adultos tratados por depressão maior: 44 receberam ACT e 38, TCC. O tratamento previa até 20 sessões ao longo de 30 semanas. O estudo permitia manter antidepressivos em dose estável.3

Ao final, a estimativa de remissão foi de 75% com ACT e 80% com TCC. Nesse estudo, remissão significava não preencher mais os critérios de depressão maior na entrevista diagnóstica. Como faltavam algumas avaliações finais, os pesquisadores usaram um método estatístico para estimar os dados ausentes. São resultados daquele grupo, não uma previsão individual.3

Ambos os grupos apresentaram redução dos sintomas e melhora da qualidade de vida. Não foi detectada diferença estatística entre as terapias, mas o estudo não comprovou equivalência entre elas e tinha capacidade limitada para identificar diferenças pequenas. Quem não atingiu remissão pode, ainda assim, ter melhorado.3

Após um ano, os pesquisadores avaliaram 52 dos 82 participantes do mesmo ensaio e observaram manutenção da melhora nos dois grupos. As perdas de acompanhamento limitam a certeza sobre os resultados de longo prazo.4

Como acompanhar o progresso na terapia

Trabalhar com valores não dispensa acompanhar a depressão. Além das atividades tentadas, o terapeuta deve observar a evolução dos sintomas e do funcionamento: sono, interesse, energia, participação nas relações e capacidade de atender às necessidades cotidianas.

No caso ilustrativo, enviar uma mensagem seria uma informação útil, mas insuficiente para concluir que a depressão melhorou. Também interessaria saber se o isolamento diminuiu, como a pessoa se sentiu, quais dificuldades persistiram e se o plano precisaria mudar. Uma tarefa não realizada poderia ajudar a identificar uma barreira que ainda não havia sido compreendida.

Antes de iniciar ACT, pergunte ao profissional qual é sua experiência com depressão, como serão definidos os objetivos e de que forma ele avaliará a resposta ao tratamento. Também pode pedir que explique como adaptaria uma proposta que você não conseguisse realizar. Essas respostas ajudam a entender o trabalho oferecido e a avaliar sua adequação às suas necessidades, preferências e possibilidades de acesso.2

Referências

  1. Association for Contextual Behavioral Science. About ACT [Internet]. Jenison: ACBS; [citado em 21 out 2026]. Disponível em: https://contextualscience.org/about_act.
  2. Psychological Health Center of Excellence. Effective psychotherapies for the treatment of major depressive disorder [Internet]. Department of Defense; 2022 [atualizado em out 2022; citado em 21 out 2026]. Disponível em: material de apoio à diretriz VA/DoD de 2022.
  3. A-Tjak JGL, Morina N, Topper M, Emmelkamp PMG. A randomized controlled trial in routine clinical practice comparing acceptance and commitment therapy with cognitive behavioral therapy for the treatment of major depressive disorder. Psychother Psychosom. 2018;87(3):154–163. doi: 10.1159/000486807.
  4. A-Tjak JGL, Morina N, Topper M, Emmelkamp PMG. One year follow-up and mediation in cognitive behavioral therapy and acceptance and commitment therapy for adult depression. BMC Psychiatry. 2021;21:41. doi: 10.1186/s12888-020-03020-1.

Foto: Polina Tankilevitch.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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