Transtorno bipolar e anticoncepcionais: quais interações precisam ser avaliadas?
Postado em: 11/10/2026
Antes de começar, trocar ou interromper um anticoncepcional, informe ao profissional quais medicamentos você usa para o transtorno bipolar. Algumas combinações podem diminuir a proteção contra a gravidez; em outras, é o anticoncepcional que altera a quantidade do medicamento no organismo. Por isso, dizer apenas “tomo pílula” ou “uso um estabilizador do humor” não basta para avaliar a interação.1
Os nomes dos produtos, sua composição e a presença de uma pausa hormonal fazem diferença. Uma foto da embalagem ou a receita ajudam a esclarecer isso na consulta. A mesma conferência deve acontecer quando o psiquiatra propõe uma mudança no tratamento e o anticoncepcional continua igual.
Há ainda uma pergunta diferente: quais são os riscos se ocorrer uma gravidez durante o tratamento? Um medicamento pode não reduzir a eficácia do anticoncepcional e, mesmo assim, exigir planejamento reprodutivo específico. O valproato é um exemplo dessa distinção.
Lamotrigina: por que o estrogênio e a pausa importam
Anticoncepcionais combinados contêm um estrogênio e um progestagênio. O estrogênio pode acelerar a eliminação da lamotrigina e reduzir sua concentração no sangue. Durante a pausa sem hormônios de algumas pílulas, essa concentração pode voltar a subir. A bula brasileira orienta acompanhamento clínico quando se inicia ou interrompe a contracepção hormonal.2
Um estudo ajuda a dimensionar essa interação. Em 16 voluntárias saudáveis com dados avaliáveis, entre 22 participantes, a exposição à lamotrigina ao longo do dia foi, em média, 52% menor durante o uso de uma pílula específica com etinilestradiol e levonorgestrel. Ao final da pausa de sete dias, a concentração medida antes da dose estava aproximadamente duas vezes maior do que durante a associação.3
Isso não significa que o tratamento bipolar tenha ficado “52% menos eficaz”. O estudo mediu concentrações e hormônios; não acompanhou recaídas de pessoas com transtorno bipolar. Também não permite calcular a chance de gravidez: as participantes foram orientadas a usar um método contraceptivo alternativo. Houve redução da exposição ao levonorgestrel, mas sem evidência hormonal de ovulação.3
Na prática, quem já está bem com a lamotrigina precisa incluir uma eventual mudança de anticoncepcional no planejamento do tratamento. O prescritor decide se será necessário ajustar a medicação e como acompanhar a resposta. A informação sobre a pausa serve para essa avaliação; não é uma orientação para eliminá-la ou alterar doses por conta própria.2
E quando o anticoncepcional não contém estrogênio?
“Só de progestagênio” também não resolve toda a questão. O desogestrel pode aumentar a exposição à lamotrigina em algumas pessoas. Para outros progestagênios, os dados sobre essa direção da interação são muito limitados.1
As recomendações internacionais diferem quanto à possível influência da lamotrigina sobre a contracepção. O CDC, dos Estados Unidos, não impõe restrição por essa interação aos métodos só de progestagênio. A diretriz britânica FSRH recomenda precaução adicional para pílulas e implante diante da incerteza sobre a eficácia contraceptiva.4,1
Essa diferença não demonstra que o método vá falhar. Ela indica que faltam dados para oferecer uma regra única: a combinação exata precisa ser conferida. Se houver outros medicamentos no esquema, a avaliação pode mudar novamente; não é adequado aplicar a uma associação de vários fármacos uma conclusão obtida com lamotrigina isolada.1,4
Carbamazepina e valproato têm implicações diferentes
A carbamazepina aumenta a atividade de enzimas que participam da eliminação de certos hormônios contraceptivos. Com isso, pode reduzir a eficácia de pílulas combinadas, pílulas só de progestagênio e implantes de etonogestrel. Portanto, quando ela entra no tratamento, revisar a contracepção faz parte da decisão.4
O valproato não segue essa mesma regra. Segundo a bula brasileira, ele não reduz a eficácia dos contraceptivos hormonais. Sua exposição durante a gestação, entretanto, está associada a riscos importantes de malformações e alterações do desenvolvimento da criança. Por isso, prevenção de gravidez e planos reprodutivos precisam ser discutidos desde a escolha do medicamento.5
Também existe uma interação na direção inversa: contraceptivos contendo estrogênio podem diminuir os níveis de valproato. A bula menciona possível piora do controle de crises epilépticas; não fornece uma frequência de desestabilização do transtorno bipolar. A mudança hormonal deve ser informada ao psiquiatra para que ele avalie o acompanhamento necessário.5
O artigo sobre valproato no transtorno bipolar aprofunda suas indicações e advertências. Se a intenção é engravidar, o planejamento deve ocorrer antes de interromper a contracepção, junto à revisão do tratamento.5
O método contraceptivo também muda a avaliação
Uma pílula, um implante e um DIU não têm o mesmo perfil de interação. Use o quadro para identificar a combinação que você precisa discutir na consulta.
| Medicamento e método | Qual questão precisa ser avaliada? |
|---|---|
| Lamotrigina + estrogênio | O anticoncepcional pode reduzir os níveis da lamotrigina, que podem subir durante a pausa. Planejar mudanças no início, na interrupção ou no regime.2 |
| Lamotrigina + progestagênio isolado | Desogestrel pode elevar a exposição à lamotrigina. Há poucos dados para outros progestagênios e divergência nas recomendações sobre a eficácia de pílulas/implante.1,4 |
| Carbamazepina + pílula ou implante de etonogestrel | O medicamento pode diminuir a proteção contraceptiva desses métodos. Conferir a opção em uso antes de mudar o tratamento.4 |
| Valproato + contracepção hormonal | O valproato não reduz a eficácia contraceptiva; o estrogênio pode reduzir seus níveis. O risco da exposição na gestação exige planejamento próprio.5 |
| DIUs e DMPA | Não se espera redução da eficácia contraceptiva pelas interações discutidas com lamotrigina ou carbamazepina. A escolha ainda depende de outras condições clínicas e das preferências da pessoa.1,4 |
DMPA é a sigla para acetato de medroxiprogesterona de depósito, um anticoncepcional injetável só de progestagênio. Essa informação não se aplica automaticamente aos injetáveis combinados, que contêm estrogênio. Os DIUs citados são o de cobre e o que libera levonorgestrel.1
O que combinar antes de uma mudança
Leve ao psiquiatra e ao profissional que acompanha sua contracepção:
- O nome e a composição do método, incluindo se há pausa ou comprimidos sem hormônios na cartela.
- A lista completa dos medicamentos, inclusive produtos usados sem receita, suplementos e fitoterápicos.
- As mudanças recentes, com datas aproximadas: início, interrupção ou troca de produto, alterações de humor e efeitos novos.
- Seus planos reprodutivos e preferências, para que a decisão sobre contracepção faça sentido para você.
Vale sair da consulta sabendo quem acompanhará a mudança, quando haverá uma reavaliação e quais alterações justificam contato antes do retorno. Se os profissionais atendem em serviços diferentes, leve a orientação recebida de um para o outro. Isso evita que uma decisão sobre contracepção fique fora da avaliação psiquiátrica, ou que uma nova prescrição não seja considerada na consulta ginecológica.
Durante o uso de lamotrigina, tontura nova, dificuldade de coordenação ou visão dupla após uma mudança hormonal merecem avaliação. Sangramento fora do habitual também deve ser relatado; isoladamente, ele não confirma que o anticoncepcional perdeu o efeito.1,2,3
Se houver suspeita de gravidez, entre em contato com o médico prontamente, especialmente se usar valproato. Não suspenda o tratamento por conta própria.5 O artigo sobre transtorno bipolar, gravidez e pós-parto explica como organizar essa conversa com antecedência.
Referências
- Faculty of Sexual & Reproductive Healthcare. Clinical guidance: drug interactions with hormonal contraception [Internet]. London: FSRH; 2022 May [citado 10 out 2026]. Disponível em: documento oficial.
- GlaxoSmithKline Brasil Ltda. Lamictal (lamotrigina): bula do profissional de saúde e do paciente [Internet]. Rio de Janeiro: GSK; 2026 [aprovada pela Anvisa em 8 maio 2026; citado 10 out 2026]. Disponível em: bula oficial.
- Sidhu J, Job S, Singh S, Philipson R. The pharmacokinetic and pharmacodynamic consequences of the co-administration of lamotrigine and a combined oral contraceptive in healthy female subjects. Br J Clin Pharmacol. 2006;61(2):191–9. doi:10.1111/j.1365-2125.2005.02539.x.
- Nguyen AT, Curtis KM, Tepper NK, Kortsmit K, Brittain AW, Snyder EM, et al. U.S. Medical Eligibility Criteria for Contraceptive Use, 2024. MMWR Recomm Rep. 2024;73(4):1–126. doi:10.15585/mmwr.rr7304a1. Apêndices de interações.
- Abbott Laboratórios do Brasil Ltda. Depakote (divalproato de sódio): bula do paciente [Internet]. São Paulo: Abbott; 2026 [aprovada pela Anvisa em 5 mar 2026; citado 10 out 2026]. Disponível em: bula oficial.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.