Transtorno bipolar e enxaqueca: como conciliar o acompanhamento?

Postado em: 18/10/2026

Mulher sentada no sofá, com uma manta sobre os ombros e a mão na cabeça.

Um medicamento tomado quando a dor começa, outro para diminuir a frequência das crises e um tratamento para o transtorno bipolar: quem tem as duas condições pode receber prescrições com finalidades diferentes. Entender a função de cada uma ajuda a perceber o que melhorou e o que ainda precisa ser ajustado.1,2,3

A coexistência de duas condições é chamada de comorbidade. Em um estudo brasileiro com 339 pessoas com transtorno bipolar I ou II, a presença de enxaqueca esteve associada a maior número de episódios de humor, especialmente depressivos. O resultado indica uma associação; não demonstra que a enxaqueca cause bipolaridade nem determina como uma pessoa específica irá evoluir.4

Antes de comparar remédios, esclareça a finalidade

O tratamento da crise de enxaqueca busca aliviar a dor e os sintomas que a acompanham naquele momento. O preventivo procura diminuir a ocorrência e o impacto das crises ao longo do tempo. Por isso, a eficácia de um medicamento de uso contínuo não é avaliada apenas pelo que aconteceu em um único dia de dor.1,2

No transtorno bipolar, a escolha também depende da fase: tratar uma mania, uma depressão ou prevenir novos episódios exige considerar evidências diferentes. Um medicamento útil em uma dessas situações não necessariamente tem o mesmo papel nas demais.3 A mania é uma fase de aumento anormal de energia e atividade, com humor elevado ou irritável; a hipomania é uma forma menos intensa.5

Há uma pergunta simples para levar às consultas: “Qual é o objetivo deste medicamento e como vamos saber se ele o está cumprindo?” A resposta permite acompanhar, por exemplo, dias de dor e capacidade de trabalhar, ao mesmo tempo que se observa a evolução do humor. Os resultados precisam ser avaliados separadamente, mesmo quando um medicamento participa dos dois tratamentos.

Um medicamento pode ajudar nas duas condições?

Pode, em situações específicas. O valproato é utilizado em determinados contextos do transtorno bipolar e também pode ser considerado na prevenção da enxaqueca. Essa possibilidade não basta para escolhê-lo: fase do transtorno bipolar, resposta anterior, efeitos adversos e riscos reprodutivos interferem na decisão.2,3

O risco durante a gravidez é particularmente relevante: a exposição ao valproato pode prejudicar o desenvolvimento fetal. Possibilidade de gestação e planejamento reprodutivo devem ser avaliados antes da escolha, sem interromper um tratamento em andamento por conta própria.2 O artigo sobre valproato no transtorno bipolar detalha suas indicações e o acompanhamento.

O topiramato mostra por que não se deve presumir que todo medicamento usado na enxaqueca também estabilize o humor. Embora tenha utilidade na prevenção da enxaqueca, quatro ensaios controlados não demonstraram benefício sobre placebo como tratamento isolado da mania aguda no transtorno bipolar I. Esse resultado é específico da situação estudada; a eficácia para a dor não comprova eficácia antimaníaca.2,6

Inclua na lista o remédio usado apenas quando há dor

Os profissionais precisam conhecer a prescrição completa, inclusive medicamentos de uso eventual.

Alguns antidepressivos podem ser considerados para prevenir enxaqueca. Em quem tem transtorno bipolar, essa escolha precisa levar em conta o histórico de mania ou hipomania, episódios com sintomas mistos e reações anteriores a antidepressivos, pelo risco de desestabilização do humor.2,3 Sintomas mistos são sintomas depressivos e de mania ou hipomania presentes no mesmo episódio.5

Já anti-inflamatórios usados para dor podem elevar a concentração de lítio no sangue e aumentar o risco de toxicidade. Se você usa lítio, verifique com o prescritor quais medicamentos para a crise podem ser utilizados e como o uso será acompanhado. Não ajuste o lítio para compensar uma possível interação.7 Veja também o texto sobre exames e acompanhamento durante o tratamento com lítio.

Levar a mesma lista atualizada às consultas de psiquiatria e neurologia facilita essa avaliação. Além do nome, registre dose, finalidade e frequência de uso, incluindo suplementos e medicamentos sem receita. Depois de uma mudança, confirme como a informação chegará ao outro profissional e qual equipe deverá ser procurada se surgirem problemas.3,7

O que anotar entre as consultas

Um registro breve pode reunir os dias com dor, quanto ela atrapalhou as atividades e o medicamento utilizado. Acrescentar mudanças importantes de sono, humor ou energia e as datas de alterações na prescrição ajuda a reconstruir a sequência. Essa reunião de informações é uma sugestão prática de organização, não um teste validado para as duas condições.3,8

Conte também em quantos dias precisou de medicação para a crise. O uso frequente de determinados medicamentos pode contribuir para a persistência ou piora da dor, situação chamada de cefaleia por uso excessivo de medicação. O registro ajuda o médico a investigar essa possibilidade; não indica que você deva retirar o medicamento sozinho.8

Se a dor fez você sair mais cedo do trabalho ou cancelar um compromisso, anote isso também. Assim, o registro mostra tanto a frequência das crises quanto o que elas impediram você de fazer.

Se as dores aumentarem, a medicação de crise passar a ser necessária com mais frequência ou surgirem efeitos indesejados, antecipe a avaliação. Dor súbita muito intensa, perda de força ou outra alteração neurológica nova e alteração da consciência exigem avaliação urgente. Não atribua automaticamente um sintoma novo ao humor ou à aura da enxaqueca.8

Para o próximo retorno, leve o registro e a lista de medicamentos, mesmo que uma das condições esteja melhor. Uma pergunta ainda sem resposta — como qual remédio usar durante a dor — pode ser justamente o ponto que precisa ser combinado entre os profissionais.

Referências

  1. Puledda F, Sacco S, Diener HC, et al. International Headache Society global practice recommendations for the acute pharmacological treatment of migraine. Cephalalgia. 2024;44(8):03331024241252666. doi:10.1177/03331024241252666.
  2. Puledda F, Sacco S, Diener HC, et al. International Headache Society global practice recommendations for preventive pharmacological treatment of migraine. Cephalalgia. 2024;44(9):03331024241269735. doi:10.1177/03331024241269735.
  3. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.
  4. Brietzke E, Moreira CLR, Duarte SVB, Nery FG, Kapczinski F, Scippa AM, et al. Impact of comorbid migraine on the clinical course of bipolar disorder. Compr Psychiatry. 2012;53(6):809–812. doi:10.1016/j.comppsych.2011.10.006.
  5. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [acesso em 18 out 2026].
  6. Kushner SF, Khan A, Lane R, Olson WH. Topiramate monotherapy in the management of acute mania: results of four double-blind placebo-controlled trials. Bipolar Disord. 2006;8(1):15–27. doi:10.1111/j.1399-5618.2006.00276.x.
  7. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management [Internet]. London: NICE; 2014. Clinical Guideline 185. Seção sobre lítio. [acesso em 18 out 2026].
  8. National Institute for Health and Care Excellence. Headaches in over 12s: diagnosis and management [Internet]. London: NICE; 2012 [atualizado em 3 jun 2025; acesso em 18 out 2026]. Clinical Guideline 150.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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