Transtorno de escoriação: quando cutucar a pele vira um problema e como tratar?
Postado em: 18/10/2026
Considere esta situação ilustrativa: ao passar a mão no braço, uma pessoa encontra uma pequena irregularidade e começa a mexer nela. Continua até machucar a pele. Em outro momento, enquanto assiste a uma série, só percebe o que está fazendo quando nota que voltou à mesma região. A repetição pode ser bastante consciente ou acontecer quase sem perceber.¹
Quando cutucar a pele provoca lesões, se repete apesar das tentativas de diminuir ou parar e causa sofrimento ou prejuízo à vida, pode haver transtorno de escoriação, também chamado de dermatilomania ou skin picking. Mexer ocasionalmente em uma espinha não basta para esse diagnóstico. A avaliação precisa entender tanto o comportamento quanto o que está acontecendo na pele.²
O tratamento pode trabalhar as duas coisas ao mesmo tempo: tratar as lesões e aprender a interromper a sequência que produz novas feridas. Não é preciso esperar que a pele melhore para procurar ajuda com o comportamento — nem resolver o comportamento antes de avaliar uma ferida importante.¹
A pele também precisa ser examinada
Acne, eczema e outras condições que causam coceira ou irregularidades podem participar do problema. Examinar a pele ajuda a identificar o que precisa de tratamento dermatológico, além das consequências da manipulação. A presença de lesões, por si só, não comprova uma causa psiquiátrica.¹
O profissional também investiga outras explicações, como efeitos de substâncias e sintomas de outros transtornos. Cutucar não é automaticamente um ritual de TOC. Se o comportamento está ligado sobretudo à tentativa de corrigir um suposto defeito de aparência, é importante investigar transtorno dismórfico corporal. Arrancar fios ou pelos, por sua vez, caracteriza outro comportamento, abordado no artigo sobre tricotilomania.²
Ansiedade pode acompanhar os episódios, mas não explica todos eles. Sensações na pele, tédio e hábitos associados a determinadas situações também podem participar. Por isso, perguntar apenas se a pessoa está ansiosa pode deixar de fora uma parte importante do problema.³
Também não se deve concluir, pela ferida, que houve intenção de se machucar. Na escoriação, a lesão pode ser uma consequência indesejada da repetição. Se existe desejo deliberado de se ferir, isso precisa ser relatado e avaliado, mesmo quando a pessoa já recebeu o diagnóstico de dermatilomania.³
O que se aprende na terapia
A terapia cognitivo-comportamental direcionada à escoriação pode incluir o treinamento de reversão de hábito.² O trabalho começa por reconhecer os sinais que antecedem o ato: a mão procurando uma região, a busca por uma textura ou uma situação em que os episódios costumam acontecer. Depois, paciente e terapeuta treinam uma resposta que impeça cutucar naquele momento e a revisam nas sessões seguintes.⁴
No exemplo da abertura, seria útil perceber a mão percorrendo o braço antes de começar a machucá-lo. O terapeuta poderia ajudar a escolher e ensaiar uma resposta incompatível com cutucar, como manter as mãos fechadas naquele momento, se isso fosse adequado à situação.⁴ Nas sessões seguintes, seria possível verificar se ela foi lembrada, se conseguiu interromper a sequência e o que dificultou usá-la. Esse é um exemplo de como se aprende a habilidade, não uma tarefa igual para todos.
A orientação para manter as mãos ocupadas, isoladamente, não explica esse processo. A terapia procura descobrir quando a estratégia precisa entrar, como praticá-la e o que ajustar quando ela não funciona. Também podem ser modificadas condições do ambiente que favorecem a repetição.²
Em um pequeno ensaio de reversão de hábito, 25 adultos foram incluídos e 19 concluíram o estudo. Após três sessões, a frequência média de episódios relatados caiu 77% no grupo de terapia, contra 16% na lista de espera. São reduções na frequência do comportamento, não percentuais de pessoas curadas. Houve avaliação também três meses depois, quando a redução no grupo tratado se manteve.⁴
Em um estudo brasileiro de TCC estruturada, 54 participantes foram distribuídos entre tratamento individual e em grupo, com 27 em cada formato, durante oito semanas. A remissão pelo critério de gravidade clínica adotado no estudo foi de 63% no individual e 52% no grupo. O critério correspondia a uma pontuação baixa na avaliação global do quadro, não necessariamente ao desaparecimento de todas as marcas na pele.⁵
Não houve diferença estatisticamente significativa entre os formatos. Cerca de um terço dos participantes de cada grupo abandonou antes de completar metade das sessões. A análise também considerou essas pessoas, utilizando a última avaliação disponível. Como não havia grupo sem tratamento nem avaliação posterior ao término, os percentuais não demonstram cura duradoura nem permitem garantir o mesmo resultado fora daquele estudo.⁵
Na prática, a melhora pode ser percebida antes de a pele recuperar sua aparência: reconhecer mais cedo o início de um episódio, conseguir interrompê-lo, produzir menos lesões novas ou voltar a uma atividade evitada. Esses avanços e a evolução das feridas merecem ser acompanhados separadamente. Olhar apenas para uma marca antiga pode esconder mudanças importantes no comportamento.
Medicamentos: o que os estudos conseguiram mostrar
A N-acetilcisteína reduziu sintomas em um ensaio específico de escoriação com 66 adultos, comparada a placebo durante 12 semanas. Entre os 53 participantes que concluíram o estudo, foram considerados muito ou muitíssimo melhores 15 de 32 pessoas que receberam N-acetilcisteína (47%), contra 4 de 21 com placebo (19%).⁶
São percentuais de melhora importante entre os concluintes, e não de cura entre todos os participantes que começaram. Não se demonstrou vantagem sobre placebo no funcionamento psicossocial, isto é, nas dificuldades para participar das atividades e relações do cotidiano. O resultado apoia a possibilidade de benefício, mas mostra por que a avaliação precisa acompanhar mais do que a intensidade da vontade de cutucar.⁶
A memantina também apresentou benefício em comparação com placebo em um ensaio de oito semanas com 100 adultos. A amostra reunia pessoas com escoriação ou tricotilomania: o resultado conjunto não fornece uma taxa de resposta específica para quem cutuca a pele. Trata-se de uma opção a ser avaliada pelo psiquiatra, considerando o quadro e os tratamentos já realizados.⁷
Esses achados não constituem uma indicação para começar medicamentos ou suplementos por conta própria. A escolha precisa considerar benefícios esperados, efeitos indesejados, outras condições clínicas e o que a pessoa já utiliza. A psicoterapia direcionada ao comportamento continua sendo uma opção central do tratamento.¹²
Como procurar ajuda sem precisar explicar tudo de uma vez
Uma descrição de um episódio recente já é um bom começo. Para a avaliação, ajudam informações como:
- Onde e quando acontece: região do corpo, atividade que estava realizando e o que percebeu antes de começar.
- O que já tentou: medidas que ajudaram por algum tempo ou que não conseguiram interromper a repetição.
- O que passou a atrapalhar: feridas que reabrem, tempo gasto, compromissos evitados ou dificuldade de mostrar a pele.
Um familiar pode apoiar a busca de tratamento e os combinados feitos com o profissional. Perguntar como ajudar é preferível a repreender cada movimento ou fiscalizar a aparência da pele. A pessoa pode precisar de apoio mesmo depois de aprender estratégias para interromper os episódios.
Feridas importantes ou que não cicatrizam precisam de avaliação médica. Na consulta, o objetivo é entender o que vem mantendo a repetição e definir um tratamento que considere também as lesões. Você não precisa chegar com o diagnóstico pronto nem com a pele sem marcas para começar.¹
Referências
- National Health Service. Skin picking disorder [Internet]. Revisado em 23 abr 2024 [citado em 18 out 2026]. Disponível em: NHS.
- Phillips KA, Stein DJ. Excoriation (skin-picking) disorder [Internet]. Merck Manual Professional Edition. Revisado em nov 2025; atualizado em jan 2026 [citado em 18 out 2026]. Disponível em: Merck Manual.
- The TLC Foundation for Body-Focused Repetitive Behaviors. What is a BFRB? [Internet]. [citado em 18 out 2026]. Disponível em: TLC Foundation.
- Teng EJ, Woods DW, Twohig MP. Habit reversal as a treatment for chronic skin picking: a pilot investigation. Behav Modif. 2006;30(4):411–422. doi:10.1177/0145445504265707.
- Xavier ACM, de Souza CMB, Flores LHF, Bermudez MB, Silva RMF, de Oliveira AC, et al. Skin picking treatment with the Rothbaum cognitive behavioral therapy protocol: a randomized clinical trial. Braz J Psychiatry. 2020;42(5):510–518. doi:10.1590/1516-4446-2019-0636.
- Grant JE, Chamberlain SR, Redden SA, Leppink EW, Odlaug BL, Kim SW. N-Acetylcysteine in the treatment of excoriation disorder: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2016;73(5):490–496. doi:10.1001/jamapsychiatry.2016.0060.
- Grant JE, Chesivoir E, Valle S, Ehsan D, Chamberlain SR. Double-blind placebo-controlled study of memantine in trichotillomania and skin-picking disorder. Am J Psychiatry. 2023;180(5):348–356. doi:10.1176/appi.ajp.20220737.
Imagem: SoozieBea / Wikimedia Commons, originalmente Flickr. CC BY-SA 2.0.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.