Transtorno bipolar e sono: insônia ou redução da necessidade de dormir?
Postado em: 08/09/2026
Duas pessoas podem dizer “dormi só quatro horas” e estar descrevendo situações bem diferentes. Uma passou a noite tentando dormir e atravessou o dia cansada. A outra acordou cedo, sentiu-se disposta e começou a fazer mais coisas do que de costume. A primeira descreve melhor a insônia. A segunda pode estar vivendo uma redução da necessidade de sono. Quando vem acompanhada de aumento de energia ou atividade e de outras mudanças de comportamento, essa redução pode ser um sinal de hipomania ou mania.1,2
Uma noite ruim, sozinha, não diagnostica transtorno bipolar nem confirma o início de uma nova fase. O que importa é a mudança em relação ao padrão habitual e o que acontece junto com ela.
Como diferenciar insônia de menor necessidade de sono?
Na insônia, há vontade ou necessidade de dormir, mas o sono não vem como deveria. A pessoa pode demorar a adormecer, despertar várias vezes ou acordar cedo demais. No dia seguinte, sente a conta: cansaço, sonolência, irritabilidade, lentidão ou dificuldade de concentração.
Na redução da necessidade de sono, a pessoa passa a dormir menos do que o habitual, mas, mesmo assim, não sente o cansaço que seria esperado. Pode acordar com muita energia e vontade de fazer coisas: começar tarefas, conversar, sair, organizar planos ou se envolver em vários projetos ao mesmo tempo.
Esse sinal chama ainda mais atenção quando vem acompanhado de outras mudanças, como fala mais rápida, pensamentos acelerados, maior sociabilidade, irritabilidade ou “pavio curto”, aumento da autoconfiança e maior impulsividade. A autoconfiança pode aumentar de forma perceptível: a pessoa pode se sentir mais capaz do que o habitual, ter uma certeza incomum de que suas ideias ou decisões estão corretas ou acreditar que consegue realizar coisas que normalmente avaliaria com mais cautela. Na prática, a impulsividade pode aparecer como gastos fora do habitual, compromissos precipitados ou decisões que a pessoa normalmente avaliaria com mais cuidado.
Quando vários desses sinais aparecem juntos e representam uma mudança clara em relação ao jeito habitual da pessoa, aumenta a possibilidade de fazerem parte de uma alteração do humor.1,2
Algumas perguntas costumam esclarecer melhor o que está acontecendo:
- Se tivesse oportunidade, a pessoa gostaria de dormir mais?
- Como se sente no dia seguinte: cansada ou com energia fora do habitual?
- Houve aumento de atividade, velocidade do pensamento, fala ou impulsividade?
- A mudança é nítida em relação ao padrão habitual e acompanha uma alteração do humor?
Nenhuma resposta isolada fecha diagnóstico. Até porque o mesmo número de horas pode refletir insônia, escolha de ficar acordado, efeito de uma substância ou uma mudança do humor.
O sono muda em todas as fases do transtorno bipolar?
Não existe um único “sono do transtorno bipolar”. Na depressão, algumas pessoas têm insônia ou acordam muito cedo; outras dormem por muitas horas e continuam sem se sentir descansadas. Em fases de mania e em estados mistos, o tempo total de sono costuma diminuir. E, mesmo fora de um episódio, o sono pode permanecer irregular ou pouco reparador.3
Uma revisão sistemática com metanálise publicada em 2025 reuniu 44 estudos e 7.614 pessoas com transtorno bipolar. Fora dos episódios, 52% dos participantes apresentavam sono de má qualidade. Durante a depressão, a estimativa de insônia chegou a 63%. Já nas fases maníacas ou mistas, os estudos encontraram menor duração total e menor eficiência do sono. São números de grupos pesquisados, com métodos diferentes entre si — úteis para mostrar que o problema é frequente, não para prever a experiência individual.3
Pouco sono sempre indica hipomania ou mania?
Não. Estresse, ansiedade, dor, trabalho em turnos, cuidado de um bebê, cafeína, álcool, estimulantes, medicamentos e problemas clínicos também encurtam o sono. Ronco intenso, pausas respiratórias percebidas, pernas inquietas ou sonolência importante durante o dia podem apontar para um transtorno do sono que precisa ser investigado.
A relação entre sono e humor funciona em mão dupla. Dormir mal pode aumentar a instabilidade em alguém vulnerável; ao mesmo tempo, a mudança do sono pode ser uma das primeiras manifestações de um episódio que está começando. Por isso, uma redução nítida do sono acompanhada de mais energia, atividade ou impulsividade merece atenção antes que o quadro se torne uma crise. Para quem já passou por episódios semelhantes, vale deixar combinado com a equipe quais sinais justificam contato mais rápido.4,5
Para entender como essas mudanças se relacionam com os episódios, veja também por que a hipomania pode passar despercebida no transtorno bipolar tipo II.
A mudança do sono pode antecipar uma alteração do humor?
Às vezes, sim. Muitas pessoas percebem, olhando para trás, que começaram a dormir de outro modo antes de notar claramente a mudança do humor. Uma revisão sistemática de 2025 reuniu 17 publicações referentes a 13 estudos prospectivos. Em geral, períodos de sono mais longo, com início mais cedo e despertar mais tardio, foram seguidos por piora do humor depressivo. Mudanças na direção oposta apareceram com maior frequência antes da elevação do humor. Como os resultados variaram bastante entre os estudos, não foi possível reuni-los em uma metanálise.4
O mais útil, portanto, é conhecer o padrão individual. Para algumas pessoas, dormir menos é um sinal precoce que se repete. Para outras, a primeira mudança é dormir mais, levantar cada vez mais tarde ou começar a variar muito os horários. Esse histórico vale mais do que tentar aplicar uma regra igual para todos.
Como acompanhar o sono sem transformar tudo em alerta?
Em períodos de estabilidade, um registro simples ajuda a conhecer o padrão de base. Não precisa ser sofisticado. Anote:
- horário aproximado em que deitou e levantou;
- quanto tempo acredita ter dormido e quanto tempo permaneceu na cama;
- despertares durante a noite;
- sonolência, cansaço ou energia ao acordar e ao longo do dia;
- humor, velocidade do pensamento e nível de atividade;
- consumo de cafeína, álcool ou outras substâncias;
- mudanças de rotina, viagens e medicamentos.
Não é preciso medir cada minuto nem perseguir um número universal de horas. Procure mudanças no seu padrão e veja se elas caminham junto com alterações do humor e da atividade. Relógios e aplicativos podem mostrar tendências, mas não fazem diagnóstico — e o que registram nem sempre coincide com a percepção de quem dormiu.3,4
Se a mudança for abrupta e vier com aceleração, impulsividade ou piora do funcionamento, não espere completar várias semanas de diário para procurar orientação.
O que ajuda a proteger o ritmo de sono?
O sono não precisa ser perfeito para ser mais estável. Manter horários relativamente regulares para levantar, fazer refeições e iniciar as principais atividades do dia ajuda a organizar o ritmo biológico. Também vale observar o efeito da cafeína no fim do dia, do álcool usado para “dar sono”, da luz intensa à noite, do trabalho em turnos e dos cochilos longos.
Há ainda intervenções psicológicas e comportamentais adaptadas ao transtorno bipolar que trabalham a insônia e os ritmos circadianos. Uma revisão reuniu 19 estudos que relataram 16 ensaios randomizados. Algumas abordagens tiveram resultados positivos, embora as amostras fossem pequenas e os protocolos muito diferentes entre si.6 Restrição ou privação de sono e protocolos com luz intensa não devem ser tentados por conta própria: no transtorno bipolar, o momento e a forma de uso precisam considerar a fase atual e o histórico de humor.
Se o sono mudou depois do início ou do ajuste de um medicamento, informe quem o prescreveu. Aumentar sedativos ou interromper estabilizadores, antidepressivos e outras medicações por conta própria pode atrapalhar a avaliação e trazer riscos.
Na Genuine, a avaliação psiquiátrica pode integrar o padrão de sono à linha do tempo do humor, em vez de interpretar a noite isoladamente.
Quando a mudança do sono exige atendimento rápido?
Não espere a próxima consulta se a mudança estiver se repetindo ou for muito diferente do habitual, principalmente quando vier com energia crescente, fala acelerada, irritabilidade, impulsividade ou decisões incomuns. Para quem já reconhece o sono como primeiro sinal de recaída, o contato pode precisar ser ainda mais cedo.
Procure atendimento imediato diante de vários dias quase sem dormir com piora progressiva, psicose, agitação intensa, comportamento perigoso, pensamento de suicídio ou risco de machucar alguém.1,5 Se houver risco imediato, vá a um pronto-socorro ou ligue para o SAMU, 192, serviço gratuito e disponível 24 horas.7
Referências
- National Institute of Mental Health. Bipolar Disorder. Revisado em 2025.
- Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. DOI: 10.1111/bdi.12609.
- Marchetti M, Mayeli A, Sanguineti C, et al. Sleep abnormalities in bipolar disorders across mood phases: a systematic review and meta-analysis. Sleep Med Rev. 2025;83:102137. DOI: 10.1016/j.smrv.2025.102137.
- Ulrichsen A, Tröger A, Jauhar S, Severus E, Bauer M, Cleare A. Do sleep variables predict mood in bipolar disorder: a systematic review. J Affect Disord. 2025;373:364–373. DOI: 10.1016/j.jad.2024.12.098.
- National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. Atualizado em setembro de 2025.
- Bisdounis L, Saunders KEA, Farley HJ, et al. Psychological and behavioural interventions in bipolar disorder that target sleep and circadian rhythms: a systematic review of randomised controlled trials. Neurosci Biobehav Rev. 2022;132:378–390. DOI: 10.1016/j.neubiorev.2021.12.002.
- Ministério da Saúde. SAMU 192.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.