Cetamina e pressão alta: o que avaliar antes e durante o tratamento?
Postado em: 29/09/2026
A hipertensão controlada não é, por si só, um impedimento ao tratamento da depressão com cetamina. Pessoas nessa condição participaram de estudos com escetamina e receberam o tratamento sob acompanhamento clínico. O controle habitual da pressão e o histórico cardiovascular ajudam a definir se essa opção é adequada para cada pessoa.1
O que os estudos observaram
Um estudo brasileiro publicado em 2020 analisou os registros de 70 pessoas com depressão resistente, que receberam 394 aplicações de escetamina subcutânea, sob a pele. A elevação média da pressão foi modesta, e as medidas médias retornaram aos níveis anteriores à aplicação ao final das duas horas de observação.2
Os pesquisadores descreveram as alterações como, em geral, leves e bem toleradas. Ao longo do tratamento, 14 dos 70 participantes apresentaram pelo menos um episódio de elevação transitória importante da pressão.2
Na via intravenosa, um estudo retrospectivo com 138 pacientes e 2.342 infusões de cetamina também observou aumentos de pressão. Os autores destacaram a necessidade de atenção ao acompanhamento de pessoas mais velhas e com histórico de hipertensão.3
Como a pressão controlada entra nessa decisão?
Uma análise de seis estudos com escetamina nasal, envolvendo 1.708 adultos tratados, incluiu pessoas com hipertensão controlada. Em geral, as elevações de pressão foram transitórias, sem sintomas e raramente exigiram medicação para reduzi-las.1
Esse resultado favorável se refere a uma população selecionada: os estudos excluíram hipertensão não controlada, histórico de crise hipertensiva e determinadas doenças cardiovasculares ou alterações relevantes no eletrocardiograma. Além disso, cada via tem sua própria evidência; esses estudos não compararam diretamente a segurança das aplicações nasais, subcutâneas e intravenosas.1
Da consulta ao acompanhamento da sessão
O Parecer CFM nº 20/2024 destaca a avaliação criteriosa e a estabilidade clínica dos candidatos ao uso psiquiátrico da escetamina injetável.4 Para a consulta, reúna:
- Medidas de pressão já disponíveis e informações sobre mudanças recentes no controle.
- Histórico de problemas cardiovasculares, crises de pressão e avaliações anteriores.
- Lista dos medicamentos em uso, incluindo alterações recentes.
Os cuidados de segurança e acompanhamento fazem parte desse planejamento. A equipe orienta o uso dos medicamentos no dia da sessão; mantenha os anti-hipertensivos conforme a prescrição, sem fazer ajustes por conta própria.
Antes da aplicação, a pressão é medida para estabelecer uma referência. Durante e depois, novas medidas orientam o tempo de observação e eventuais intervenções até a recuperação clínica.2,4 O artigo sobre como funciona uma sessão apresenta o procedimento de forma mais ampla.
Se a pressão estiver fora de controle ou houver uma mudança importante na saúde, a equipe pode reavaliar e adiar a sessão para cuidar dessa condição primeiro.4 Durante o atendimento, comunique qualquer mal-estar importante.
A avaliação antes do tratamento na Genuine Mental Health é o momento para reunir essas informações e discutir se essa opção faz sentido para o seu quadro.
Referências
- Doherty T, Wajs E, Melkote R, Miller J, Singh JB, Weber MA. Cardiac safety of esketamine nasal spray in treatment-resistant depression: results from the clinical development program. CNS Drugs. 2020;34(3):299–310. doi:10.1007/s40263-020-00699-4.
- Del Sant LC, Sarin LM, Magalhães EJM, Lucchese AC, Tuena MA, Nakahira C, et al. Effects of subcutaneous esketamine on blood pressure and heart rate in treatment-resistant depression. J Psychopharmacol. 2020;34(10):1155–1162. doi:10.1177/0269881120922955.
- Ansari M, Pittman B, Tylee DS, Ostroff R, Wilkinson ST, Nikayin S. Blood pressure changes during ketamine infusion for the treatment of depression. Gen Hosp Psychiatry. 2024;90:62–67. doi:10.1016/j.genhosppsych.2024.07.001.
- Conselho Federal de Medicina. Parecer CFM nº 20/2024: uso da escetamina para o tratamento de transtornos mentais. Brasília: CFM; 2024. Consultado em 26 set. 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.