Transtorno bipolar na gravidez e no pós-parto: o que precisa ser planejado?

Postado em: 15/09/2026

Detalhe de gestante junto à janela, com as mãos apoiadas sobre a barriga

Ter transtorno bipolar não impede uma mulher de planejar uma gravidez. A diferença está em não deixar decisões importantes para depois do teste positivo. Ainda antes de engravidar, vale revisar os medicamentos, entender o padrão das crises anteriores e organizar o apoio que poderá ser necessário nos primeiros meses com o bebê. O ideal é que psiquiatra e obstetra acompanhem esse processo em conjunto.1,2

Se a gravidez aconteceu sem planejamento, a primeira providência é entrar em contato com a equipe que acompanha o tratamento — e não interromper a medicação por conta própria. A retirada pode levar a uma nova crise. O valproato é uma exceção importante entre os estabilizadores: deve ser evitado na gestação e o esquema precisa ser revisto o quanto antes, mas também sem uma suspensão improvisada.1

O que deve ser discutido antes de engravidar?

Antes de discutir trocas ou doses, é importante reconstruir o histórico do transtorno. A consulta pré-concepcional costuma abordar:

  • quais episódios já ocorreram, qual foi a gravidade e o que ajudou de fato;
  • o que aconteceu quando algum medicamento foi reduzido, trocado ou retirado;
  • como foram gestações e pós-partos anteriores, se houver;
  • quais medicamentos e suplementos estão em uso, quais exames são necessários e se há consumo de álcool, nicotina ou outras substâncias.

Essa história orienta as decisões seguintes. Se uma retirada anterior provocou uma crise grave, por exemplo, esse dado pesa na escolha do tratamento. Também é o momento de conversar sobre sono, apoio familiar, acompanhamento depois do parto e intenção de amamentar. Preservar a estabilidade do humor favorece o autocuidado e a continuidade do pré-natal.1,2

Como os medicamentos são escolhidos?

O medicamento de menor risco teórico nem sempre é a melhor escolha se não consegue controlar o transtorno. É preciso considerar o que já funcionou, se predominam episódios de mania ou depressão, os riscos próprios de cada substância e os exames necessários durante a gestação.

O valproato deve ser evitado por sua associação com malformações e alterações do neurodesenvolvimento. Quando possível, a substituição é organizada antes da gravidez. Lítio e lamotrigina podem fazer parte do tratamento. No caso do lítio, o pequeno aumento absoluto do risco de malformações cardíacas é considerado junto com seu benefício na prevenção de recaídas e a necessidade de acompanhar os níveis sanguíneos. Já a concentração da lamotrigina pode cair durante a gestação e voltar a subir depois do parto, o que às vezes requer ajuste.1,2,3

Antipsicóticos como quetiapina, olanzapina ou aripiprazol também podem ser utilizados. Nesse caso, entram na decisão a fase do transtorno, a resposta anterior e efeitos como sonolência, ganho de peso e alterações metabólicas.1,3

Em outras palavras, a meta não é atravessar a gravidez sem tratamento, e sim usar um esquema que proteja a mãe de novos episódios e seja adequado àquele momento. Veja também quais são os benefícios e exames durante o tratamento com lítio.

Como é o acompanhamento durante a gestação?

As mudanças do organismo durante a gravidez podem alterar a concentração dos medicamentos. Uma dose que funcionava bem antes pode precisar de nova avaliação ao longo dos meses e novamente depois do parto. Além dos exames, as consultas acompanham humor, sono, disposição, funcionamento no dia a dia, efeitos adversos e sinais de uma possível recaída.2,3

Se a gestante concordar, uma pessoa próxima pode participar de algumas consultas. Muitas vezes, o companheiro ou um familiar percebe primeiro que ela está dormindo menos, mais acelerada, irritada ou isolada. Vale combinar com antecedência quais mudanças justificam contato com o psiquiatra antes da consulta seguinte.

Por que o pós-parto merece um plano próprio?

O parto não encerra o cuidado iniciado na gestação. Ao contrário: as primeiras semanas com o bebê formam um período especialmente vulnerável. Em uma metanálise de 37 estudos, a recaída pós-parto ocorreu em cerca de 66% das mulheres com transtorno bipolar que passaram a gestação sem medicação preventiva, comparada a 23% entre aquelas que receberam tratamento profilático. Os números variam de pessoa para pessoa, mas deixam clara a importância de organizar a prevenção antes do nascimento.4

O plano deve estar pronto antes do parto e pode incluir:

  • qual medicação será usada logo após o nascimento e quando serão feitos os exames;
  • quando acontecerá o primeiro contato com o psiquiatra;
  • quais foram os primeiros sinais das crises anteriores;
  • quem ajudará nos cuidados noturnos e nas tarefas da casa;
  • a quem recorrer se a mãe não perceber a própria piora ou se os sintomas surgirem fora do horário habitual.

Proteger o sono não significa esperar que a mãe durma a noite inteira. Significa evitar uma sequência de noites praticamente sem descanso. Para isso, alguém pode assumir tarefas domésticas e parte dos cuidados noturnos, de acordo com a forma de alimentação escolhida para o bebê — sobretudo quando a perda de sono já esteve ligada a crises anteriores.1,3

É possível amamentar durante o tratamento?

Em muitos casos, sim. A pergunta não é apenas se o medicamento passa para o leite. Também importam a quantidade dessa passagem, a saúde do bebê, a possibilidade de acompanhamento pediátrico e o que pode acontecer com a mãe se um tratamento eficaz for trocado. Lamotrigina e alguns antipsicóticos podem ser considerados durante a amamentação, conforme o contexto clínico.3

Com o lítio, há divergência entre as recomendações. O NICE orienta não amamentar durante seu uso. Já o Specialist Pharmacy Service admite essa possibilidade em situações selecionadas: bebê saudável e nascido a termo, supervisão especializada e monitoramento rigoroso, que pode incluir níveis de lítio e avaliação renal e tireoidiana do bebê. Se o lítio for o tratamento que melhor protege a mãe, é preciso pesar o risco de trocá-lo e a possibilidade real de acompanhar a criança.2,5

Essa conversa deve acontecer, de preferência, antes do parto e envolver psiquiatra, obstetra e pediatra. Amamentação exclusiva, alimentação mista ou fórmula podem ser escolhas adequadas. E a decisão pode mudar ao longo do acompanhamento, sem culpa ou pressão.

Quais mudanças merecem contato com a equipe?

Nem toda noite mal dormida depois do parto indica uma crise. É comum dormir em períodos curtos porque o bebê acorda. Insônia é outra experiência: a mãe está exausta e quer dormir, mas não consegue. Na mania ou hipomania, o sinal costuma ser diferente — ela dorme muito menos e, ainda assim, não sente falta do descanso. Se isso vier acompanhado de pensamento acelerado, aumento de energia, irritabilidade ou impulsividade, é importante avisar a equipe.3

A depressão também pode surgir depois do parto. Perda persistente de interesse, desesperança, culpa intensa, isolamento e dificuldade crescente para realizar tarefas básicas merecem avaliação. Como o tratamento da depressão bipolar não é igual ao da depressão unipolar, não basta pressupor que se trata de uma depressão comum e iniciar um antidepressivo isoladamente: o diagnóstico e o esquema estabilizador precisam ser revistos.1,6

Para a comparação com o baby blues, veja o artigo sobre depressão pós-parto.

Quais sinais no pós-parto exigem urgência?

Alguns sinais não podem esperar a próxima consulta. Confusão, delírios, alucinações ou comportamento muito desorganizado podem indicar psicose pós-parto, uma emergência psiquiátrica. A mudança pode ser rápida e vir acompanhada de agitação, irritabilidade intensa e alterações importantes do sono. Muitas vezes, a própria mãe não percebe que está adoecendo.2,6

Imagens ou pensamentos de machucar o bebê podem surgir de forma intrusiva em quadros de ansiedade ou transtorno obsessivo-compulsivo. Quando são indesejados, assustam a própria mãe e não vêm acompanhados de desejo de agir, não significam, por si só, intenção de machucar ou psicose. Ainda assim, devem ser relatados para que a equipe avalie o sofrimento, a frequência e o contexto.6

Pensamentos de suicídio precisam de avaliação rápida. Se houver intenção ou plano de agir, intenção de machucar o bebê, uma crença delirante envolvendo o bebê, perda de contato com a realidade ou comportamento perigoso, procure atendimento imediato. Até a avaliação, mantenha a mãe acompanhada e deixe o bebê sob os cuidados de outro adulto quando houver risco.6

Vá a um pronto-socorro ou ligue para o SAMU, 192. O serviço é gratuito, funciona 24 horas e atende urgências psiquiátricas.7

Como preparar uma consulta?

Uma consulta rende mais quando o histórico está fácil de consultar. Leve a lista de medicamentos e suplementos, exames recentes e, se possível, uma linha do tempo dos episódios. Inclua gestações anteriores, mudanças de humor ligadas ao ciclo reprodutivo, resposta aos tratamentos e histórico familiar de transtorno bipolar ou psicose pós-parto.

Não é preciso chegar com todas as respostas. O mais importante é sair da consulta sabendo qual tratamento será usado durante a gestação e logo após o parto, quando serão feitos os exames e os primeiros retornos, como a família ajudará a proteger o sono, qual será a forma inicial de alimentar o bebê e quem deverá ser procurado diante dos primeiros sinais de mudança.

Na Genuine, a avaliação psiquiátrica pode alinhar o planejamento da gravidez ao tratamento do transtorno bipolar. Assim, a mulher e a família chegam à gestação e ao pós-parto sabendo o que observar, quem procurar e como agir se o humor começar a mudar.

Referências

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Treatment and management of mental health conditions during pregnancy and postpartum: ACOG Clinical Practice Guideline No. 5. Obstet Gynecol. 2023;141(6):1262–1288. DOI: 10.1097/AOG.0000000000005202.
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance — CG192. Publicado em 2014; última atualização principal em 11 de fevereiro de 2020, com emendas posteriores nas recomendações.
  3. Vigod SN, Frey BN, Clark CT, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments 2024 clinical practice guideline for the management of perinatal mood, anxiety, and related disorders. Can J Psychiatry. 2025;70(6):429–489. DOI: 10.1177/07067437241303031.
  4. Wesseloo R, Kamperman AM, Munk-Olsen T, et al. Risk of postpartum relapse in bipolar disorder and postpartum psychosis: a systematic review and meta-analysis. Am J Psychiatry. 2016;173(2):117–127. DOI: 10.1176/appi.ajp.2015.15010124.
  5. Specialist Pharmacy Service. Treating bipolar disorder during breastfeeding. Publicado em outubro de 2023; atualização de links em abril de 2024.
  6. American College of Obstetricians and Gynecologists. Screening and diagnosis of mental health conditions during pregnancy and postpartum: ACOG Clinical Practice Guideline No. 4. Obstet Gynecol. 2023;141(6):1232–1261. DOI: 10.1097/AOG.0000000000005200.
  7. Ministério da Saúde. SAMU 192.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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