Antidepressivos na gravidez: o que considerar antes de mudar o tratamento

Postado em: 23/09/2026

Gestante à mesa com comprimidos e um copo de água

Antidepressivos podem ser usados durante a gravidez. Descobrir uma gestação não significa que um tratamento eficaz precise ser interrompido: a decisão considera o medicamento, a fase da gravidez, a resposta ao tratamento e o que aconteceu em episódios anteriores. A recomendação do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas é não suspender uma medicação de saúde mental apenas por causa da gravidez.1

Se você usa antidepressivo e descobriu que está grávida, avise o profissional que o prescreveu e o obstetra antes de mudar a dose ou parar de tomar. Essa conversa serve para avaliar o tratamento que você já faz — inclusive quando a melhor decisão é mantê-lo.

Um tratamento que funciona é um dado importante

Quem está bem com um antidepressivo chega à consulta com uma informação valiosa: aquele tratamento ajudou. Isso conta especialmente quando houve tentativas anteriores sem resultado, episódios graves ou retorno dos sintomas após uma suspensão. Trocar uma medicação eficaz pode desestabilizar o quadro; por isso, a escolha de um primeiro antidepressivo e a revisão de um tratamento em andamento seguem raciocínios diferentes.2

Três situações ajudam a organizar a conversa:

Situação O que precisa ser discutido
Estou planejando engravidar Como está o quadro, quais tratamentos funcionaram e se há alguma mudança que valha fazer antes da gestação.
Descobri a gravidez durante o tratamento Nome e dose da medicação, tempo de uso, idade gestacional e evolução dos sintomas. A exposição já ocorrida deve ser analisada sem pressupor que houve dano.
Preciso começar um tratamento na gravidez Intensidade dos sintomas, impacto na vida, tratamentos anteriores e possibilidades de psicoterapia, medicação ou combinação.

Antidepressivos também são usados para ansiedade e outros transtornos. O motivo da prescrição faz parte dessa avaliação.2

O que pode acontecer se o tratamento for interrompido?

O objetivo de tratar é aliviar os sintomas e preservar condições de dormir, alimentar-se, manter relações e acompanhar a gestação.2

Nem toda mulher terá uma recaída ao interromper o antidepressivo. Uma revisão sistemática encontrou aumento desse risco nas populações com depressão grave ou recorrente. Ao reunir o conjunto dos estudos, porém, não encontrou uma diferença conclusiva entre continuar e interromper. Isso reforça a importância de considerar a história de cada mulher, em vez de atribuir o mesmo risco a todas.3

Na prática, importa contar quantos episódios ocorreram, quanto comprometeram a vida e como foram as tentativas anteriores de ficar sem medicação. “Estou bem há bastante tempo” e “sempre volto a piorar quando interrompo” são informações que podem levar a decisões diferentes.

Uma interrupção abrupta também pode provocar sintomas de retirada, como tontura, náusea e alterações do sono, que precisam ser diferenciados do retorno da depressão.4

Como interpretar os riscos para o bebê

A pergunta “esse remédio faz mal?” reúne desfechos distintos. Uma possível alteração na formação de um órgão, no início da gravidez, não é a mesma coisa que uma dificuldade de adaptação do recém-nascido após o parto. O medicamento e o período de exposição precisam estar ligados ao problema que se está discutindo.2

Malformações. Para os antidepressivos mais estudados, os dados não indicam um grande aumento global de malformações congênitas. Em uma grande pesquisa sobre exposição no primeiro trimestre, as associações entre antidepressivos e alterações cardíacas diminuíram quando os pesquisadores consideraram a depressão materna e outros fatores. Esse resultado mostra por que encontrar uma associação não basta para atribuí-la ao remédio.2,5

Adaptação depois do nascimento. A exposição a alguns antidepressivos no fim da gestação pode estar associada a tremores, irritabilidade ou dificuldades para mamar e respirar nos primeiros dias. Em geral, essas manifestações são transitórias, mas podem exigir observação e cuidados. Uma condição diferente, rara, é a hipertensão pulmonar persistente do recém-nascido, que dificulta a oxigenação e foi associada à exposição a certos antidepressivos no fim da gestação.2

A maior parte dos dados de segurança vem de estudos que acompanham gestações, sem sortear quem receberá ou não um medicamento. Gravidade da doença, tabagismo, outras medicações e condições de saúde podem influenciar os resultados. A avaliação reúne essas informações para discutir o risco específico, sem tratar todos os antidepressivos como iguais.2

Reduzir ou suspender o antidepressivo perto do parto apenas para tentar evitar sintomas no bebê não é uma recomendação de rotina. A diretriz perinatal CANMAT considera também o risco de piora materna nesse período.2

Trocar o remédio ou ficar só com psicoterapia seria melhor?

A psicoterapia pode ser uma opção inicial em alguns quadros, sobretudo menos graves, e também pode acompanhar o uso de medicamentos. Sua escolha considera os sintomas, a preferência da mulher, a resposta anterior e a possibilidade de acesso e continuidade. Em depressões graves, recorrentes ou que não melhoraram suficientemente com psicoterapia, a medicação pode ter um papel importante.2

Uma troca faz sentido quando há uma razão concreta para esperar uma relação melhor entre benefício e risco, como resposta insuficiente, efeitos adversos relevantes ou uma preocupação específica com a medicação utilizada.2

Uma pergunta ajuda a esclarecer a proposta: “Qual é a principal razão para manter ou mudar o tratamento no meu caso?”.

O histórico de períodos de energia muito aumentada, pouca necessidade de sono ou comportamento muito diferente do habitual também deve ser relatado. Episódios de mania ou hipomania mudam a avaliação e o planejamento; esse contexto está detalhado no artigo sobre transtorno bipolar na gravidez e no pós-parto.2

Saia da consulta com um plano de acompanhamento

Além de decidir sobre a medicação, é importante combinar quem acompanhará a saúde mental, quando será a próxima avaliação e como o psiquiatra e o obstetra compartilharão as informações necessárias. O plano deve incluir o que fazer se houver piora entre as consultas e como o cuidado continuará após o nascimento.6

Se houver risco imediato de autoagressão ou perda importante de contato com a realidade, procure uma emergência; quando necessário, acione o SAMU pelo 192.6,7

Você pode levar estas perguntas anotadas:

  • Quais mudanças nos meus sintomas precisam ser comunicadas antes do retorno?
  • Há algum cuidado obstétrico ou neonatal específico relacionado à minha medicação?
  • Se o tratamento for alterado, como acompanharemos a resposta?
  • Como ficará meu acompanhamento nas primeiras semanas depois do parto?

Nosso artigo sobre depressão pós-parto explica quais mudanças de humor merecem avaliação depois do nascimento.

Referências

  1. American College of Obstetricians and Gynecologists. Assessment and treatment of perinatal mental health conditions. Consultado em 23 set 2026.
  2. Vigod SN, Frey BN, Clark CT, Grigoriadis S, Barker LC, Brown HK, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments 2024 Clinical Practice Guideline for the Management of Perinatal Mood, Anxiety, and Related Disorders. Can J Psychiatry. 2025;70(6):429–489. doi:10.1177/07067437241303031.
  3. Bayrampour H, Kapoor A, Bunka M, Ryan D. The risk of relapse of depression during pregnancy after discontinuation of antidepressants: a systematic review and meta-analysis. J Clin Psychiatry. 2020;81(4):19r13134. doi:10.4088/JCP.19r13134.
  4. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management — NG222. Seção 1.4, interrupção de antidepressivos. Consultado em 23 set 2026.
  5. Huybrechts KF, et al. Antidepressant use in pregnancy and the risk of cardiac defects. N Engl J Med. 2014;370:2397–2407. doi:10.1056/NEJMoa1312828.
  6. National Institute for Health and Care Excellence. Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance — CG192. Consultado em 23 set 2026.
  7. Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192. Consultado em 23 set 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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