Semaglutida e tirzepatida na compulsão alimentar: o que os estudos mostram

Postado em: 24/09/2026

Caneta de injeção de semaglutida sobre fundo claro

Os estudos sugerem benefícios que vão além da redução do apetite, mas a evidência é diferente para cada medicamento. A semaglutida apresentou resultados preliminares em uma escala de sintomas de compulsão alimentar. 1 A tirzepatida reduziu fome, desejo por comida e tendência a comer em excesso em pessoas com sobrepeso ou obesidade, em um estudo que não avaliou o tratamento do transtorno de compulsão alimentar. 2

Menos fome, menos desejo e menos compulsão são resultados diferentes

O apetite pode diminuir, a vontade de um alimento específico pode ficar menos intensa e a pessoa ainda ter episódios em que sente que não consegue parar de comer. A perda de controle é uma parte central da compulsão. Para avaliar um possível transtorno, também importam a repetição dos episódios e o sofrimento associado. 3

Em um exemplo hipotético, duas pessoas passam a comer porções menores após iniciar um medicamento. Uma continua tendo episódios de descontrole, seguidos de vergonha; a outra relata menos episódios e consegue interromper a refeição. Ambas estão comendo menos, mas a evolução da perda de controle é diferente.

Uma redução na pontuação de sintomas também não informa, sozinha, se os episódios cessaram. Nos estudos, a definição de remissão depende do critério e do período avaliados: no ensaio de liraglutida apresentado a seguir, por exemplo, foi definida como ausência de episódios objetivos de compulsão nas duas semanas anteriores. 4 Para entender melhor o reconhecimento do problema, veja a diferença entre compulsão alimentar e fome emocional.

O que os estudos encontraram

Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu ensaios com medicamentos que atuam na via do GLP-1. A análise de gravidade dos sintomas de compulsão incluiu nove estudos, com 2.106 participantes, e encontrou uma redução média favorável aos medicamentos. Outras análises apontaram melhora da perda de controle e do comer em resposta às emoções. 5

A maior parte dos participantes, entretanto, havia sido selecionada por sobrepeso ou obesidade. Apenas três ensaios da revisão recrutaram especificamente pessoas com diagnóstico de transtorno de compulsão alimentar ou identificadas como tendo compulsão para investigar esse problema. Diferenças entre os estudos e riscos de viés reduzem a certeza da conclusão. O resultado apoia a continuidade dessa linha de pesquisa, mas não demonstra que todos os medicamentos estudados tenham o mesmo efeito. 5

Os estudos individuais ajudam a enxergar melhor essa diferença:

Medicamento e população estudada Resultado observado Como interpretar
Semaglutida: análise de prontuários, com um subgrupo de 48 pessoas com pontuação elevada na Escala de Compulsão Alimentar Periódica. A queda média foi de 14 pontos entre quem recebeu apenas semaglutida e de 5,9 no grupo que recebeu outros medicamentos, principalmente topiramato. Estudo observacional, sem distribuição aleatória dos tratamentos ou placebo; sugere benefício, mas não estabelece superioridade sobre outros tratamentos. A escala, isoladamente, não confirma o diagnóstico. 1
Tirzepatida: ensaio de seis semanas com 114 adultos com sobrepeso ou obesidade. Em comparação com placebo, houve redução da ingestão alimentar e de medidas de fome, desejo por comida e tendência a comer em excesso. O estudo investigou comportamento alimentar; não foi um ensaio de tratamento do transtorno de compulsão alimentar. 2
Liraglutida: ensaio piloto de 17 semanas em pessoas com transtorno de compulsão alimentar, com 27 participantes na análise. Houve maior perda de peso, mas não foi demonstrada diferença estatística em episódios de compulsão ou remissão em relação ao placebo. A amostra pequena e um erro de dispensação que afetou a pesquisa limitam a conclusão. Liraglutida é outra molécula: esse resultado não pode ser atribuído à semaglutida ou à tirzepatida. 4

Para tirzepatida, há um ensaio específico em andamento na Johns Hopkins, comparando o medicamento com placebo e lisdexanfetamina em pessoas com obesidade e transtorno de compulsão alimentar. Todos os grupos recebem autoajuda guiada baseada em terapia cognitivo-comportamental. Na consulta realizada em setembro de 2026, a página institucional indicava recrutamento aberto, sem resultados apresentados. 6

O efeito sobre a alimentação se mantém?

Um ensaio de 60 semanas acompanhou 120 adultos com sobrepeso ou obesidade que receberam semaglutida ou placebo. Nas refeições avaliadas em laboratório, a redução da ingestão permaneceu nas semanas 20, 40 e 60. Na semana 20, o grupo que recebeu semaglutida relatou menos fome e preocupação com comida que o grupo placebo. Nas semanas 40 e 60, as diferenças entre os grupos nessas medidas não foram estatisticamente significativas. 7

Isso mostra que a quantidade consumida e a percepção do apetite podem seguir trajetórias diferentes durante o tratamento. O estudo não avaliou a manutenção da remissão da compulsão após suspender a medicação, nem permite concluir que todas as pessoas perderão o efeito ao longo do tempo. 7

Onde semaglutida e tirzepatida entram no cuidado

A semaglutida atua no receptor de GLP-1; a tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1. Embora compartilhem parte de sua ação, são medicamentos diferentes. Nas bulas brasileiras consultadas de Wegovy, que contém semaglutida, e de Mounjaro, que contém tirzepatida, o transtorno de compulsão alimentar não consta entre as indicações. Ambos têm indicação para controle de peso em situações definidas na bula, mas isso não constitui aprovação para tratar a compulsão. 8,9

Uma pessoa pode, portanto, ter indicação de tratamento para obesidade e precisar, ao mesmo tempo, de cuidado específico para a compulsão. Na consulta, vale esclarecer qual problema o medicamento pretende tratar e como cada resultado será acompanhado. Prescrever especificamente para uma finalidade não prevista na bula é um uso fora de bula, também chamado off-label.

A avaliação considera os episódios de perda de controle, o padrão de alimentação, a saúde metabólica e os tratamentos já realizados. O cuidado psicológico continua tendo um papel próprio: a diretriz NICE recomenda intervenções voltadas à compulsão, como autoajuda guiada e terapia cognitivo-comportamental, e orienta que medicamentos não sejam o único tratamento do transtorno. Essa é uma recomendação geral de cuidado, não uma recomendação específica de semaglutida ou tirzepatida. 10

O acompanhamento também precisa identificar dificuldade para se alimentar ou se hidratar adequadamente. Náuseas, vômitos ou diarreia persistentes devem ser relatados ao prescritor. Jejuns prolongados, vômitos provocados ou uso de laxantes para compensar o que foi comido merecem avaliação própria, e não devem ser contabilizados como melhora porque o peso diminuiu. 8–10

O artigo sobre tratamento da compulsão alimentar aprofunda como psicoterapia, alimentação e medicamentos podem ser organizados no plano de cuidado.

Para a próxima consulta, uma pergunta útil é: “Além de comer menos, estou tendo menos episódios de descontrole e menos sofrimento com a alimentação?” Levar exemplos do que mudou — e do que continua difícil — ajuda a discutir o benefício do tratamento sem reduzir toda a avaliação ao número da balança.

Referências

  1. Richards J, Bang N, Ratliff EL, Paszkowiak MA, Khorgami Z, Khalsa SS, et al. Successful treatment of binge eating disorder with the GLP-1 agonist semaglutide: a retrospective cohort study. Obes Pillars. 2023;7:100080. doi:10.1016/j.obpill.2023.100080.
  2. Martin CK, Carmichael OT, Carnell S, Considine RV, Kareken DA, Dydak U, et al. Tirzepatide on ingestive behavior in adults with overweight or obesity: a randomized 6-week phase 1 trial. Nat Med. 2025;31:3141–3150. doi:10.1038/s41591-025-03774-9.
  3. National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Definition & facts for binge eating disorder [Internet]. Consultado em 24 set 2026.
  4. Allison KC, Chao AM, Bruzas MB, McCuen-Wurst C, Jones E, McAllister C, et al. A pilot randomized controlled trial of liraglutide 3.0 mg for binge eating disorder. Obes Sci Pract. 2023;9(2):127–136. doi:10.1002/osp4.619.
  5. Emptage I, Kozmér S, Cobham-Wilson A, Sousa B, Sugden K, Wheeler L, et al. The effectiveness of glucagon-like peptide-1 receptor agonists (GLP-1RAs) on binge eating in patients with obesity: a systematic review and meta-analysis. EClinicalMedicine. 2026;98:104007. doi:10.1016/j.eclinm.2026.104007.
  6. Johns Hopkins Medicine. Efficacy and safety of tirzepatide versus placebo or lisdexamfetamine dimesylate for binge-eating disorder: a randomized clinical trial [Internet]. Registro NCT06847399. Consultado em 24 set 2026.
  7. Tronieri JS, Allison KC, DeRouen K, Amaro A, Collins KG, Roy A, et al. Short- and long-term effects of semaglutide 2.4 mg on energy intake, appetite, and food reward: a 60-week, double-blind randomized controlled trial. Am J Clin Nutr. 2026;124(2):101403. doi:10.1016/j.ajcnut.2026.101403.
  8. Novo Nordisk. Wegovy (semaglutida): bula para profissionais de saúde [Internet]. Brasil. Consultado em 24 set 2026.
  9. Eli Lilly do Brasil. Mounjaro (tirzepatida): bula para profissionais de saúde [Internet]. Brasil. Consultado em 24 set 2026.
  10. National Institute for Health and Care Excellence. Eating disorders: recognition and treatment (NG69) [Internet]. Seções 1.4 e 1.8. Consultado em 24 set 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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