Semaglutida e tirzepatida no cérebro: recompensa, aprendizagem e neuroplasticidade

Postado em: 24/09/2026

Ilustração tridimensional de neurônios interligados, com pontos de luz nas conexões

A semaglutida e a tirzepatida podem mudar a fome e o interesse por comida. Seus efeitos envolvem sistemas que conectam metabolismo, apetite e comportamento — uma relação que levou pesquisadores a investigar também aprendizagem e funcionamento cerebral. 12

Neuroplasticidade é a capacidade de modificar a força, a organização ou a estrutura das conexões do sistema nervoso. A pergunta, portanto, vai além de saber se esses medicamentos alteram a atividade cerebral: eles também modificam essas conexões? Há resultados experimentais nessa direção, sobretudo em animais. Para entendê-los, vale acompanhar o que os pesquisadores mediram: uma resposta a imagens de alimentos, o desempenho em uma tarefa ou mudanças nas próprias conexões cerebrais.

Por que a comida pode chamar menos atenção

Imagine, como exemplo cotidiano, terminar o almoço satisfeito e ainda sentir vontade de comer ao ver uma sobremesa. A necessidade de alimento e a atração por ele participam da mesma decisão, mas representam aspectos diferentes. Na pesquisa sobre recompensa, interessa tanto o prazer de consumir quanto a motivação para buscar algo.

O GLP-1 é um hormônio envolvido na regulação da glicose e do apetite. A semaglutida ativa seu receptor. Estudos clínicos mostram aumento da saciedade e redução da fome e de impulsos para comer; em animais, foram identificadas ações diretas e indiretas em áreas cerebrais relacionadas à alimentação e à recompensa. 1

A tirzepatida atua nos receptores de dois hormônios, GIP e GLP-1. Em um ensaio de seis semanas com 114 adultos com sobrepeso ou obesidade, reduziu ingestão alimentar, fome e desejo por comida em comparação com placebo. 2

Isso ajuda a formular uma pergunta mais precisa do que “o medicamento tira a fome?”: como ele modifica a resposta à comida quando ela está disponível, é vista ou lembrada? Reduzir esse interesse também não permite concluir que o prazer em outras atividades tenha mudado.

O que apareceu na ressonância cerebral

No mesmo ensaio, os participantes observaram fotografias durante uma ressonância funcional. Na terceira semana, a tirzepatida reduziu a resposta a imagens de alimentos ricos em gordura e açúcar em algumas regiões, incluindo o córtex orbitofrontal e o hipocampo. Porém, na análise que agrupava diferentes alimentos muito palatáveis, não houve diferença significativa entre os grupos. 2

As análises de imagem não tiveram ajuste para múltiplas comparações, o que aumenta a possibilidade de achados ocasionais. O fabricante financiou e participou do estudo. Esses resultados específicos precisam ser confirmados. 2

A ressonância funcional acompanha variações na oxigenação do sangue relacionadas à atividade neural. Ela ajuda a investigar como uma região responde durante uma tarefa, mas não conta sinapses nem mostra diretamente o surgimento de novas conexões. Uma imagem diferente após o tratamento é uma pista sobre funcionamento; demonstrar mudança estrutural exige outra forma de investigação. 3

Uma experiência de aprendizagem que não envolvia comida

Em um estudo publicado em 2023, participantes ouviam um som e tentavam prever se a imagem seguinte seria um rosto ou uma casa. A relação entre som e imagem mudava durante o teste. Para acertar, era necessário atualizar a previsão conforme novas informações apareciam. 4

O medicamento testado foi a liraglutida, também um agonista de GLP-1. No grupo com obesidade e resistência à insulina, ela melhorou o padrão de aprendizagem associativa que estava prejudicado sob placebo. Já no grupo com sensibilidade à insulina preservada, a taxa de aprendizagem estimada pelo modelo diminuiu. Essa medida descreve o ajuste das previsões durante a tarefa, não a capacidade cognitiva geral. 4

Das 54 pessoas recrutadas, 43 contribuíram com dados, nem todas nas duas sessões previstas. O experimento avaliou um efeito agudo e específico da liraglutida, sem testar semaglutida ou tirzepatida nem acompanhar benefícios cognitivos duradouros. 4

Neuroplasticidade: o que os estudos examinaram nas conexões

As sinapses, pontos de comunicação entre neurônios, podem mudar de diferentes maneiras. Os experimentos a seguir examinaram sua estrutura, proteínas relacionadas ao funcionamento neuronal e a transmissão de sinais elétricos.

Estrutura das conexões. Em ratos com diabetes induzido, a tirzepatida melhorou o desempenho em tarefas de aprendizagem espacial e memória. No hipocampo, os pesquisadores observaram recuperação de proteínas relacionadas às sinapses e aumento de determinados tipos de espinhas dendríticas — pequenas projeções dos neurônios onde se estabelecem muitas dessas conexões. 5

São observações mais próximas da estrutura sináptica do que uma imagem de ressonância funcional. Algumas análises, porém, incluíram apenas três animais por grupo. Como também houve melhora metabólica, o estudo não separa completamente um efeito neuronal direto das consequências de melhorar o diabetes. 5

Sinais moleculares. Em uma pesquisa publicada em 2025, camundongos com diabetes tipo 2 tratados com semaglutida por oito semanas apresentaram melhora em testes cognitivos e na morfologia neuronal, além de aumento de BDNF no hipocampo. O BDNF é uma proteína envolvida na manutenção e na plasticidade dos neurônios. Nesse estudo, sua medição foi acompanhada da avaliação do comportamento e do tecido cerebral dos animais. 6

Comunicação elétrica. Um experimento com tirzepatida examinou tecido cerebral de camundongos 24 horas após uma administração. A resposta elétrica evocada estava reduzida no septo lateral, uma região relacionada ao processamento de recompensa. Os animais dessa etapa não tinham exposição prévia ao álcool, embora o trabalho incluísse outros experimentos sobre comportamento relacionado à substância. 7

A medida indica uma alteração funcional presente naquele intervalo. Não determina, por si só, se houve reorganização duradoura das conexões ou persistência da ação farmacológica. 7

Cada experimento mediu um aspecto diferente; os resultados não são equivalentes. Obtidos em animais, esses achados ainda não estabelecem benefício cognitivo em pessoas.

E no tratamento da doença de Alzheimer?

Os estudos evoke e evoke+, publicados em 2026, reuniram 3.808 participantes com doença de Alzheimer sintomática em fase inicial. A semaglutida oral não foi superior ao placebo no desfecho principal de progressão clínica, avaliado em 104 semanas. 8

Nesses ensaios, portanto, o tratamento não demonstrou desacelerar a doença já instalada. A prevenção de Alzheimer em pessoas sem a doença não foi a pergunta investigada. 8

Para quem quer compreender mudanças no interesse por comida, a evidência sobre apetite e comportamento alimentar é a mais diretamente aplicável. A discussão sobre semaglutida e tirzepatida na compulsão alimentar detalha esses resultados. Já a neuroplasticidade abre outra frente de pesquisa: identificar quais mudanças nas conexões ocorrem, quanto duram e em que situações podem produzir um benefício perceptível na vida das pessoas.

Referências

  1. Novo Nordisk. Wegovy (semaglutida): bula para profissionais de saúde [Internet]. Brasil. Seção 3, características farmacológicas. Consultado em 24 set 2026.
  2. Martin CK, Carmichael OT, Carnell S, Considine RV, Kareken DA, Dydak U, et al. Tirzepatide on ingestive behavior in adults with overweight or obesity: a randomized 6-week phase 1 trial. Nat Med. 2025;31:3141–3150. doi:10.1038/s41591-025-03774-9.
  3. Logothetis NK, Pauls J, Augath M, Trinath T, Oeltermann A. Neurophysiological investigation of the basis of the fMRI signal. Nature. 2001;412(6843):150–157. doi:10.1038/35084005.
  4. Hanssen R, Rigoux L, Kuzmanovic B, Iglesias S, Kretschmer AC, Schlamann M, et al. Liraglutide restores impaired associative learning in individuals with obesity. Nat Metab. 2023;5:1352–1363. doi:10.1038/s42255-023-00859-y.
  5. Guo X, Lei M, Zhao J, Wu M, Ren Z, Yang X, et al. Tirzepatide ameliorates spatial learning and memory impairment through modulation of aberrant insulin resistance and inflammation response in diabetic rats. Front Pharmacol. 2023;14:1146960. doi:10.3389/fphar.2023.1146960.
  6. Lai S, Kang Z, Sun J, Wang Z, Xu Y, Xing S, et al. Semaglutide and high-intensity interval exercise attenuate cognitive impairment in type 2 diabetic mice via BDNF modulation. Brain Sci. 2025;15(5):480. doi:10.3390/brainsci15050480.
  7. Edvardsson CE, Adermark L, Gottlieb S, Alfreji S, Emous TA, Gouda Y, et al. Tirzepatide reduces alcohol drinking and relapse-like behaviours in rodents. EBioMedicine. 2026;124:106119. doi:10.1016/j.ebiom.2025.106119.
  8. Cummings JL, Atri A, Sano M, Zetterberg H, Scheltens P, Knop FK, et al. Efficacy and safety of oral semaglutide 14 mg (flexible dose) in early-stage symptomatic Alzheimer’s disease (evoke and evoke+): two phase 3, randomised, placebo-controlled trials. Lancet. 2026;407(10544):2167–2179. doi:10.1016/S0140-6736(26)00459-9.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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