Semaglutida e tirzepatida na dependência de álcool: o que os estudos mostram
Postado em: 24/09/2026
A semaglutida passou a ser estudada como possível tratamento para o transtorno por uso de álcool. Em um ensaio clínico de 2026, pessoas que receberam o medicamento tiveram uma redução maior dos dias de consumo intenso do que aquelas que receberam placebo. O resultado é promissor, mas não significa que a semaglutida faça todas as pessoas pararem de beber. Para a tirzepatida, os dados disponíveis são de outro tipo e ainda não permitem esperar o mesmo efeito. ¹
A pergunta surgiu, em parte, de relatos de pessoas que perderam o interesse por bebidas alcoólicas enquanto usavam esses medicamentos para condições metabólicas. Relatos assim ajudam a levantar uma hipótese; para saber se existe um efeito do tratamento, é preciso comparar grupos e observar o que mudou. No caso do álcool, três medidas costumam aparecer nas pesquisas: desejo de beber, dias de consumo intenso e abstinência. Elas não dizem a mesma coisa. Alguém pode sentir menos vontade e ainda beber; pode reduzir episódios de consumo intenso sem deixar de beber completamente.
O resultado mais forte até agora é com semaglutida
O estudo mais informativo acompanhou 108 pessoas com transtorno por uso de álcool moderado ou grave e obesidade por 26 semanas. Todas receberam terapia cognitivo-comportamental; metade também recebeu semaglutida semanal e metade, placebo. A proporção de dias de consumo intenso caiu nos dois grupos, mas a redução foi 13,7 pontos percentuais maior no grupo da semaglutida. Essa era a medida principal definida pelos pesquisadores, e a diferença favoreceu o medicamento. ¹
Essa é uma diferença entre grupos, não uma taxa de abstinência nem a redução individual de 13,7% no consumo. Como ambos os grupos receberam terapia cognitivo-comportamental, o estudo mediu o benefício adicional da semaglutida nesse contexto, em pessoas que também tinham obesidade. ¹
Dois estudos menores ajudam a entender por que é importante perguntar qual resultado melhorou, em vez de chamar todo estudo de “positivo”:
| Estudo | O que foi observado | O limite que muda a leitura |
|---|---|---|
| Semaglutida injetável, 48 pessoas, nove semanas | Menor consumo em uma sessão de laboratório, menos bebidas nos dias em que se bebia e menor desejo semanal. ² | O número de dias com consumo e a média de bebidas por dia do calendário não diferiram significativamente; os participantes não buscavam tratamento e a análise laboratorial principal teve dados completos de 25 pessoas. |
| Semaglutida oral, 50 pessoas, oito semanas | Menos dias de consumo intenso em uma análise secundária prevista antes do estudo. ³ | A medida principal — desejo provocado por pistas de álcool em laboratório — não mostrou diferença significativa. A média de bebidas por dia também não diferiu significativamente. |
Esses ensaios envolveram pessoas e situações diferentes. O estudo de nove semanas procurou um sinal inicial em participantes que não estavam buscando tratamento; o de semaglutida oral incluiu pessoas que queriam tratar o transtorno. As formas oral e injetável tampouco foram comparadas diretamente uma com a outra. Juntos, os estudos apoiam a investigação de redução do consumo intenso, sem estabelecer qual apresentação seria melhor nem por quanto tempo o efeito se manteria após o tratamento. ²³
Os ensaios se concentraram em pessoas com excesso de peso. No estudo de nove semanas, 47 dos 48 participantes tinham sobrepeso ou obesidade; no de semaglutida oral, o índice de massa corporal de pelo menos 25 era critério de entrada. Ainda não há base equivalente para estimar o benefício em pessoas sem excesso de peso. ²³
No ensaio de 26 semanas, efeitos gastrointestinais foram mais frequentes com semaglutida. ¹
E a tirzepatida?
A tirzepatida desperta interesse pela ação em vias relacionadas ao GLP-1 e ao GIP, mas sua eficácia para dependência de álcool não pode ser deduzida dos ensaios com semaglutida. São medicamentos diferentes.
Um estudo de prontuários publicado em 2026 comparou grupos de pessoas com transtorno por uso de álcool e diabetes tipo 2 ou obesidade. O início de semaglutida ou tirzepatida, analisadas em conjunto, esteve associado a menos atendimentos de emergência ou internações relacionados ao álcool do que o início de alguns medicamentos comparadores. Esse resultado amplia a evidência observacional, mas não mede diretamente quantas bebidas cada pessoa consumiu, não fornece uma estimativa isolada para tirzepatida e não substitui um ensaio clínico randomizado. Os próprios pesquisadores identificaram sinais de possível confundimento residual em parte das análises. ⁴
Em uma pequena série clínica, três pessoas com doença hepática associada ao álcool, diabetes tipo 2 e obesidade reduziram o consumo durante o uso de tirzepatida; apenas uma tinha diagnóstico de transtorno por uso de álcool. Sem um grupo de comparação, não é possível saber quanto dessa mudança se deveu ao medicamento. ⁵
Em roedores, a tirzepatida reduziu ingestão de álcool e comportamentos usados para estudar recaída. O experimento oferece uma razão para investigar o medicamento em pessoas; não demonstra prevenção de recaída em pacientes. ⁶
O que se sabe sobre outras substâncias?
Os resultados sobre álcool não se estendem automaticamente a outras dependências. No ensaio de semaglutida oral, uma análise exploratória encontrou menos dias de uso de cannabis entre 11 participantes que já a utilizavam. Eram poucas pessoas, e o estudo foi planejado para investigar álcool, não para testar tratamento do transtorno por uso de cannabis. ³
Para tabaco, um ensaio com 255 pessoas avaliou outro medicamento da classe, a dulaglutida, acrescentado à vareniclina e ao aconselhamento. A abstinência após 12 semanas não foi melhor do que com placebo. O resultado não prova que semaglutida ou tirzepatida sejam ineficazes para tabagismo; mostra por que seria errado tratar todos esses medicamentos e todas as dependências como se fossem a mesma pergunta. ⁷
Uma análise de prontuários associou semaglutida a menor ocorrência de overdose em pessoas com diabetes tipo 2 e transtorno por uso de opioides. Como não houve distribuição aleatória do tratamento, diferenças entre os grupos podem ter influenciado o achado. Ele não demonstra que semaglutida previna overdose nem substitui o cuidado estabelecido para dependência de opioides. ⁸
O que isso muda para quem procura ajuda hoje?
Os estudos dão uma razão concreta para continuar investigando a semaglutida, sobretudo em pessoas com transtorno por uso de álcool e obesidade. Ainda faltam respostas sobre a duração do benefício, pessoas sem excesso de peso, resultados após a suspensão e comparação com tratamentos já utilizados. Para tirzepatida, são necessários ensaios clínicos próprios, que meçam consumo, desejo e outros resultados relevantes. ¹⁴
Isso não deixa quem sofre com o consumo de álcool à espera de uma pesquisa futura. Avaliação clínica, intervenções psicológicas e medicamentos já usados no tratamento podem compor um plano de cuidado conforme o quadro e os objetivos da pessoa. ⁹ Se existe dependência física, reduzir ou interromper o álcool de repente pode provocar abstinência grave; essa decisão precisa de avaliação, não de uma experiência por conta própria. ¹⁰
Nas bulas brasileiras consultadas de Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida), o transtorno por uso de álcool não consta entre as indicações. Os resultados da pesquisa ainda não equivalem à aprovação desses produtos para tratar a dependência de álcool. ¹¹¹²
Para entender por que esses medicamentos também são estudados em comportamentos de recompensa, há um artigo sobre GLP-1, cérebro e aprendizagem. Quem percebeu uma mudança na vontade de beber durante um tratamento metabólico pode levá-la à consulta, junto com o padrão de consumo antes e depois do medicamento. Isso ajuda a avaliar o caso, mas não é motivo para iniciar ou ajustar semaglutida ou tirzepatida por conta própria.
Referências
- Klausen MK, Justesen SK, Pedersen JN, et al. Once-weekly semaglutide versus placebo in patients with alcohol use disorder and comorbid obesity: a randomised, double-blind, placebo-controlled trial. Lancet. 2026;407(10540):1687–1698. doi:10.1016/S0140-6736(26)00305-3.
2. Hendershot CS, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults With Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(4):395–405. doi:10.1001/jamapsychiatry.2024.4789.
3. Schacht JP, Sakai JT, Raymond K, Shelton R. Oral Semaglutide for Alcohol Use Disorder: A Randomized Clinical Trial. Am J Psychiatry. 2026;183(9):636–645. doi:10.1176/appi.ajp.20260003.
4. Rodriguez PJ, Lusk JB, Mehta HB, et al. Association between GLP-1 receptor agonists and alcohol-related hospitalisations among adults with alcohol use disorder: multi-target trial emulation study. BMJ Open. 2026;16(7):e109259. doi:10.1136/bmjopen-2025-109259.
5. Takizawa H, et al. Tirzepatide reduced alcohol use in three patients with alcohol-associated liver disease, type 2 diabetes, and obesity. Endocrinol Diabetes Metab Case Rep. 2026;2026(2):EDM260002. doi:10.1530/EDM-26-0002.
6. Edvardsson CE, Adermark L, Gottlieb S, et al. Tirzepatide reduces alcohol drinking and relapse-like behaviours in rodents. EBioMedicine. 2026;124:106119. doi:10.1016/j.ebiom.2025.106119.
7. Lengsfeld S, Burkard T, Meienberg A, et al. Effect of dulaglutide in promoting abstinence during smoking cessation: a single-centre, randomized, double-blind, placebo-controlled, parallel group trial. EClinicalMedicine. 2023;57:101865. doi:10.1016/j.eclinm.2023.101865.
8. Wang W, Volkow ND, Wang Q, et al. Semaglutide and Opioid Overdose Risk in Patients With Type 2 Diabetes and Opioid Use Disorder. JAMA Netw Open. 2024;7(9):e2435247. doi:10.1001/jamanetworkopen.2024.35247.
9. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis, assessment and management of harmful drinking (high-risk drinking) and alcohol dependence. Clinical guideline CG115. 2011; atualizado em 2014.
10. National Institute for Health and Care Excellence. Alcohol-use disorders: diagnosis and management of physical complications. Clinical guideline CG100. 2010; atualizado em 2017.
11. Novo Nordisk Farmacêutica do Brasil. Wegovy (semaglutida): bula para profissionais de saúde. Seção 1, Indicações. Aprovada pela Anvisa em 4 maio 2026.
12. Eli Lilly do Brasil. Mounjaro (tirzepatida): bula para profissionais de saúde. Seção 1, Indicações. Aprovada pela Anvisa em 22 abr 2026.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.