Anorexia nervosa em adultos: como reconhecer e como funciona o tratamento

Postado em: 25/09/2026

Prato vazio sob iluminação dramática, representando a restrição alimentar na anorexia nervosa

Na anorexia nervosa, a restrição alimentar leva a um peso significativamente baixo para o contexto da pessoa. Há medo intenso de ganhar peso ou comportamentos persistentes que impedem esse ganho. A relação com o corpo também fica alterada, seja na percepção e na importância atribuída ao peso, seja na dificuldade persistente de reconhecer a gravidade do baixo peso.1

Anorexia nervosa não é sinônimo de falta de apetite. A alimentação, o corpo e o peso podem ocupar grande parte do dia e passar a determinar escolhas que antes eram simples. O tratamento precisa cuidar tanto da saúde física quanto desse sofrimento.2

Quando as regras começam a limitar a vida

Uma mudança isolada na alimentação não permite concluir um diagnóstico. O que merece atenção é a combinação entre restrição, medo, rigidez e consequências para a saúde ou a rotina. Evitar refeições com outras pessoas, reduzir cada vez mais a variedade do que se permite comer e preocupar-se intensamente com o peso são exemplos de mudanças que podem justificar avaliação.3

Imagine uma situação fictícia: uma pessoa deixa de almoçar com a família porque não consegue controlar como os alimentos serão preparados. Depois passa a recusar encontros que envolvam comida. Quando recebe um convite, a primeira preocupação já não é estar com alguém, mas como evitar a refeição.

Na consulta, interessa compreender quanto espaço essas regras passaram a ocupar. Uma conversa sobre “comer melhor” pode não alcançar o medo e a perda de liberdade presentes nessa situação.

Os efeitos físicos também merecem atenção. Tontura, sensação frequente de frio, cansaço e dificuldade de concentração podem acompanhar a restrição e a desnutrição. A pessoa não precisa apresentar todos esses sinais para procurar cuidado.3

A aparência não define quem precisa de ajuda

O peso significativamente baixo faz parte do diagnóstico típico de anorexia nervosa. Ao mesmo tempo, existe a anorexia atípica: os demais critérios estão presentes, mas o peso não está abaixo do esperado, apesar de uma perda importante. Essa apresentação também pode trazer comprometimento físico e sofrimento relevantes.2

“Atípica”, portanto, não significa uma versão sem gravidade. A trajetória e a velocidade da perda de peso ajudam a entender o risco, que não pode ser julgado somente pela aparência.2

Essa distinção evita dois enganos: presumir que toda pessoa com baixo peso tenha anorexia e adiar a avaliação de alguém porque “não parece magro o suficiente”. A diretriz NICE orienta não usar uma medida isolada de peso ou a duração do problema para decidir quem deve receber tratamento.4

A avaliação reúne a história alimentar e a saúde física

A consulta investiga como a alimentação mudou, a evolução do peso, o tempo ocupado por preocupações com o corpo, tratamentos anteriores e a interferência no cotidiano. Também considera outras condições clínicas e psiquiátricas. Exame físico e exames complementares ajudam a avaliar repercussões e a planejar o cuidado.5

Pode ser difícil falar sobre hábitos que parecem íntimos ou sobre um medo que outras pessoas consideram sem sentido. Descrever situações concretas facilita: o que deixou de comer, quais compromissos passou a evitar e o que mais preocupa na possibilidade de mudar.

O plano reúne cuidados médicos, nutricionais e psicológicos, com comunicação entre os profissionais. Essa coordenação permite que orientações sobre alimentação, saúde física e trabalho terapêutico sigam na mesma direção.5

Recuperação nutricional e psicoterapia caminham juntas

Quando existe baixo peso e desnutrição, recuperar a saúde nutricional e o peso é uma parte central do tratamento. A psicoterapia trabalha os medos, comportamentos e dificuldades que acompanham o transtorno. Esperar que toda a ansiedade desapareça antes de cuidar da alimentação pode deixar a saúde física sem a atenção de que precisa.4,5

Para adultos, a NICE apresenta diferentes opções psicológicas, entre elas:4

  • TCC voltada aos transtornos alimentares: aborda alimentação, pensamentos sobre peso e corpo, emoções e comportamentos que mantêm o problema.
  • MANTRA: explora os fatores que mantêm a anorexia e a motivação para mudar, com trabalho adaptado às dificuldades da pessoa.
  • Manejo clínico especializado de apoio: combina uma relação terapêutica de apoio com educação, acompanhamento nutricional e clínico e objetivos de recuperação.

A escolha leva em conta necessidades, preferências e acesso a profissionais preparados. Os nomes das abordagens são menos úteis ao leitor do que entender o que será trabalhado e como a evolução será acompanhada.

O estudo ANTOP comparou TCC aprimorada e terapia psicodinâmica focal com um cuidado usual otimizado em mulheres adultas tratadas em ambulatório. O desfecho principal de ganho de peso ao final do tratamento não mostrou diferença estatisticamente significativa entre os grupos. O grupo de comparação também recebia psicoterapia e acompanhamento médico estruturado. Isso não demonstra que todas as terapias sejam equivalentes, mas ajuda a evitar a promessa de uma única abordagem universalmente superior.6

No exemplo do almoço em família, o trabalho poderia incluir compreender o medo ligado à refeição, rever regras rígidas e planejar mudanças compatíveis com o cuidado nutricional. O objetivo e o ritmo seriam discutidos com os profissionais responsáveis pelo tratamento.

Quando o acompanhamento precisa ser mais intensivo

Parte das pessoas pode ser cuidada em ambulatório. Quando há comprometimento físico importante ou o suporte disponível não é suficiente para estabilizar o quadro, pode ser necessário tratamento intensivo ou hospitalar. Essa decisão considera a evolução clínica, não apenas um número na balança.4,5

Desmaio, confusão ou deterioração física acentuada precisam de avaliação urgente. Em desnutrição importante, a retomada da alimentação também exige supervisão, porque mudanças metabólicas durante a realimentação podem trazer complicações.4,5

O cuidado psicológico continua relevante durante a recuperação física. Da mesma forma, melhorar o peso não é motivo suficiente, isoladamente, para encerrar o acompanhamento.4

Recuperar espaço para viver

A evolução inclui melhora nutricional e clínica, mas também mudanças na relação com a comida, no sofrimento com o corpo e na possibilidade de retomar atividades. O acompanhamento precisa observar essas dimensões em conjunto.5

No cotidiano, isso pode aparecer em perguntas mais específicas do que “você está melhor?”: ainda é necessário reorganizar todo o dia em função das regras alimentares? Participar de uma refeição continua provocando o mesmo grau de medo? O que ficou mais possível desde o início do cuidado?

Pessoas próximas podem participar conforme o consentimento e as necessidades do adulto. Vale combinar com a equipe como oferecer apoio e abordar dificuldades, respeitando a autonomia e a privacidade.5 “Tenho percebido que as refeições estão difíceis; você gostaria que eu acompanhasse uma consulta?” é uma forma de abrir espaço para conversa, em vez de discutir se a aparência parece ou não preocupante.

Uma avaliação de transtornos alimentares na Genuine Mental Health pode ajudar a esclarecer o quadro e organizar os encaminhamentos necessários. Para esse primeiro encontro, é útil levar tanto as mudanças físicas quanto aquilo que a alimentação passou a impedir na sua vida.

Referências

1. Substance Abuse and Mental Health Services Administration. Exhibit 4.13: diagnostic criteria for anorexia nervosa. In: Substance use disorder treatment for people with co-occurring disorders. Treatment Improvement Protocol Series, No. 42. Rockville (MD): SAMHSA; 2020. Critérios DSM-5 reproduzidos com autorização da American Psychiatric Association. Acesso em 25 set. 2026.

2. American Psychiatric Association. What are eating disorders?. Seções Anorexia nervosa e Other specified feeding and eating disorder. Acesso em 25 set. 2026.

3. National Health Service. Anorexia nervosa: symptoms. Acesso em 25 set. 2026.

4. National Institute for Health and Care Excellence. Eating disorders: recognition and treatment — NG69. Seções 1.2, 1.3 e 1.11. Acesso em 25 set. 2026.

5. American Psychiatric Association. Guideline statements and implementation. In: The American Psychiatric Association practice guideline for the treatment of patients with eating disorders. 4th ed. Washington (DC): American Psychiatric Association Publishing; 2023. Recomendações 2–11. doi:10.1176/appi.books.9780890424865.eatingdisorder03. Resumo autorizado das recomendações.

6. Zipfel S, Wild B, Groß G, Friederich HC, Teufel M, Schellberg D, et al. Focal psychodynamic therapy, cognitive behaviour therapy, and optimised treatment as usual in outpatients with anorexia nervosa (ANTOP study): randomised controlled trial. Lancet. 2014;383(9912):127–137. doi:10.1016/S0140-6736(13)61746-8.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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