Cetamina na depressão: como manter a melhora depois do ciclo inicial?
Postado em: 28/09/2026
Depois de melhorar com a cetamina, a dúvida costuma mudar: “Preciso continuar as aplicações? Por quanto tempo?”. A resposta depende de quanto a depressão cedeu, de como a melhora se mantém e dos benefícios e efeitos adversos do tratamento. Aplicações de manutenção são uma possibilidade a ser avaliada, não uma etapa obrigatória para todos.1
O acompanhamento continua mesmo quando as aplicações terminam. São decisões diferentes: uma é seguir cuidando da depressão; outra é decidir se a cetamina continuará fazendo parte desse cuidado.
Primeiro, entender o que melhorou
Na pesquisa, resposta costuma significar uma redução expressiva dos sintomas, frequentemente de pelo menos metade da pontuação inicial numa escala. Remissão significa que os sintomas ficaram em um nível baixo, conforme o critério do estudo. É possível responder ao tratamento e ainda ter dificuldades importantes.2
Na consulta, os números ganham sentido quando associados à vida cotidiana. Voltar a preparar uma refeição, acompanhar uma conversa ou sentir interesse por uma atividade pode ajudar a descrever o que mudou. Também importa o que ainda não voltou a ser possível.
Compare duas situações ilustrativas: uma pessoa relata menos tristeza, mas ainda passa quase todo o dia na cama; outra retomou compromissos e mantém essa melhora entre os retornos. Dizer apenas “o tratamento funcionou” não descreve igualmente as duas histórias.
Este artigo trata principalmente da continuidade na depressão resistente unipolar, isto é, sem histórico de mania ou hipomania. Os resultados apresentados abaixo não definem o acompanhamento da depressão bipolar.
O que os estudos mostram sobre continuar o tratamento?
“Cetamina” é o nome mais conhecido, mas as pesquisas envolvem moléculas e vias diferentes. Por isso, vale separar três situações:
| Tratamento estudado | Quem foi acompanhado | O que o estudo permite concluir |
|---|---|---|
| Escetamina nasal | Pessoas com depressão resistente que já tinham alcançado resposta ou remissão estável. | Continuar o spray, junto do antidepressivo oral, reduziu recaídas em comparação com trocá-lo por placebo nasal, mantendo o antidepressivo.2 |
| Cetamina racêmica intravenosa | Pessoas que responderam a um ciclo de infusões e receberam outras quatro, semanais. | A melhora foi mantida nessa etapa. Como a manutenção era aberta e sem grupo comparador, o estudo não definiu o melhor intervalo entre sessões.3 |
| Escetamina subcutânea | Um estudo brasileiro incluiu 30 pessoas e realizou oito aplicações semanais, com avaliações posteriores. | Entre os participantes acompanhados, os sintomas permaneceram abaixo do nível inicial até seis meses. Houve perdas no seguimento e não existia grupo de controle; o estudo não comparou manter aplicações com interrompê-las.4 |
No estudo nasal, chamado SUSTAIN-1, entre os 176 participantes em remissão estável, houve recaída em 26,7% dos que continuaram escetamina e em 45,3% dos que passaram a receber placebo nasal, durante a fase de manutenção, de duração variável. Ambos os grupos mantiveram o antidepressivo oral. O benefício se refere a pessoas previamente selecionadas por já terem melhorado com esse tratamento.2
Esses achados ajudam a planejar a continuidade, mas não produzem um calendário único. Em particular, o intervalo usado com spray nasal não determina o intervalo da escetamina subcutânea utilizada na Genuine Mental Health.
Manter, espaçar ou encerrar as aplicações?
A decisão exige comparar a evolução da depressão com o custo do tratamento para aquela pessoa — efeitos adversos, deslocamento e interferência na rotina, além do benefício percebido.1 A atualização CANMAT de 2023, publicada em 2024, reconhece evidência crescente de prevenção de recaídas com cetamina racêmica intravenosa e escetamina nasal.5
Algumas perguntas tornam essa conversa mais concreta:
- A melhora se mantém até o retorno ou os sintomas voltam antes?
- O que ainda limita o dia a dia?
- Os efeitos adversos ou a organização das sessões estão dificultando a continuidade?
- Qual é o objetivo de manter ou mudar o plano, e quando ele será reavaliado?
Se houver proposta de espaçamento, é importante combinar o que será observado depois da mudança. Terminar o ciclo inicial não equivale a receber alta do acompanhamento, assim como precisar continuar não significa que a resposta inicial foi insuficiente.
O plano inclui mais do que aplicações
Antidepressivos e psicoterapia, quando indicados, continuam tendo lugar na prevenção de recaídas. A escolha considera sintomas que persistem, episódios anteriores e necessidades individuais. Melhorar com a cetamina não é motivo, por si só, para suspender o tratamento de base.6
No cotidiano, o acompanhamento pode explorar como estão sono, atividades e relações, além das dificuldades para manter o cuidado. Esses aspectos ajudam a avaliar a recuperação.
Se os sintomas voltarem, o que fazer?
Comunique uma piora persistente ou a volta de dificuldades à equipe. A reavaliação considera o que reapareceu, quando começou e se houve mudanças nos medicamentos, na saúde ou na vida cotidiana. Isso orienta o próximo passo, em vez de concluir automaticamente que é necessária uma aplicação extra.6
Para o retorno, uma anotação breve pode ser suficiente: “Voltei a dormir mal na semana passada e deixei de conseguir trabalhar pela manhã”. Acrescente o que segue melhor e os efeitos indesejados que percebeu.
Ao discutir a continuidade do tratamento com cetamina, procure sair da consulta sabendo quando será revisto, o que acompanhar até lá e como entrar em contato se houver piora. Esse plano é mais útil do que uma previsão genérica de quanto tempo o efeito vai durar.
Referências
- Swainson J, McGirr A, Blier P, et al. The Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) Task Force Recommendations for the Use of Racemic Ketamine in Adults with Major Depressive Disorder. Can J Psychiatry. 2021;66(2):113–125. doi:10.1177/0706743720970860.
- Daly EJ, Trivedi MH, Janik A, et al. Efficacy of esketamine nasal spray plus oral antidepressant treatment for relapse prevention in patients with treatment-resistant depression: a randomized clinical trial. JAMA Psychiatry. 2019;76(9):893–903. doi:10.1001/jamapsychiatry.2019.1189.
- Phillips JL, Norris S, Talbot J, et al. Single, repeated, and maintenance ketamine infusions for treatment-resistant depression: a randomized controlled trial. Am J Psychiatry. 2019;176(5):401–409. doi:10.1176/appi.ajp.2018.18070834.
- Palhano-Fontes F, Cavalcanti-Ribeiro P, da Costa Gonçalves KT, et al. Repeated subcutaneous esketamine on treatment-resistant depression: an open-label dose titration study. J Affect Disord. 2025;369:155–163. doi:10.1016/j.jad.2024.09.141.
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 update on clinical guidelines for management of major depressive disorder in adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. Seções 1.4, 1.8 e 1.9. Consultado em 26 set. 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.