Cetamina afeta a memória? O que sabemos sobre atenção e cognição
Postado em: 29/09/2026
Em um estudo com 24 voluntários saudáveis, uma dose de escetamina nasal prejudicou o desempenho em testes de atenção e memória aos 40 minutos. Duas horas depois, os resultados já eram comparáveis aos do placebo.1
Esse resultado descreve o efeito imediato de uma dose, não a evolução da memória ao longo de meses de tratamento. Para essa outra pergunta, é preciso olhar os estudos feitos em pessoas com depressão resistente.
Da aplicação aos dias seguintes
Esse achado não define para todas as pessoas quando dirigir ou retomar tarefas que exigem atenção. Siga as orientações da equipe após a sessão.
Em um estudo brasileiro randomizado e duplo-cego com pessoas com depressão resistente, os testes foram repetidos 24 horas e sete dias após uma infusão de cetamina ou escetamina intravenosa. Considerando os dois grupos em conjunto, houve melhora em algumas funções, como memória verbal e velocidade de processamento. Como a comparação foi entre dois tratamentos ativos, sem placebo, esses ganhos não podem ser atribuídos exclusivamente ao efeito direto dos medicamentos.2
Depois de quatro semanas: o que mostrou o KADS
No KADS, ensaio randomizado e duplo-cego, não houve diferença estatisticamente significativa nos testes cognitivos entre os grupos tratados com cetamina e com midazolam, um sedativo usado como controle ativo.3
Nesse estudo, o medicamento era cetamina racêmica subcutânea, e não escetamina. Os testes foram realizados antes do tratamento e ao final de quatro semanas — não durante cada aplicação. Esse achado é tranquilizador no curto prazo; não demonstra melhora da memória nem informa o que acontece em tratamentos mais longos.3
E na escetamina subcutânea?
Uma pesquisa do PRODAF/UNIFESP avaliou pacientes com depressão resistente que receberam seis aplicações semanais de escetamina subcutânea. Dos 70 participantes, 36 completaram os testes neuropsicológicos antes e depois do tratamento. Nesse grupo, não se observou piora estatisticamente significativa da memória ou dos demais domínios avaliados; houve uma pequena melhora em um teste de atenção. Os resultados foram apresentados na tese de doutorado de Ana Cecília Lucchese, em uma análise sem grupo de comparação e com avaliação final uma semana após a última dose.4
E quando o tratamento continua por mais tempo?
O SUSTAIN-3 acompanhou 1.148 pessoas com depressão resistente que receberam escetamina nasal associada a antidepressivo oral. A exposição média foi de aproximadamente três anos e meio, chegando a seis anos e meio em parte dos participantes.5
As avaliações de aprendizagem, memória e outras funções cognitivas permaneceram, em geral, estáveis. Foram observados pequenos aumentos no tempo necessário para responder aos testes de reação, sem significado clínico claramente estabelecido.5
Como não havia grupo de comparação, não dá para atribuir essa pequena lentificação ao medicamento, à depressão ou ao envelhecimento. Os dados se referem à formulação nasal e às pessoas acompanhadas nesse estudo.5
“Minha mente está mais clara”: como interpretar essa mudança
A depressão pode dificultar a concentração, a lembrança de informações e a tomada de decisões. Por isso, uma queixa de memória pode já existir antes de começar o tratamento e precisa fazer parte da avaliação inicial.6
Se a mente parece mais clara, conte o que mudou: ficou mais fácil acompanhar uma reunião, terminar uma leitura ou organizar compromissos? Isso ajuda a equipe a entender a melhora; testes podem ser úteis quando persistem dúvidas sobre uma dificuldade específica.
Se surgir uma dificuldade nova ou persistente, anote quando começou, quanto durou e em quais tarefas atrapalhou. Esquecimentos logo após a aplicação e dificuldades que continuam nos dias seguintes precisam ser diferenciados na consulta.
Leve essas mudanças à avaliação e ao acompanhamento do tratamento na Genuine Mental Health, sobretudo se estiverem interferindo no dia a dia.
Referências
- Morrison RL, Fedgchin M, Singh J, Van Gerven J, Zuiker R, Lim KS, et al. Effect of intranasal esketamine on cognitive functioning in healthy participants: a randomized, double-blind, placebo-controlled study. Psychopharmacology (Berl). 2018;235(4):1107–1119. doi:10.1007/s00213-018-4828-5.
- Araújo-de-Freitas L, Santos-Lima C, Mendonça-Filho E, Vieira F, França RJAF, Magnavita G, et al. Neurocognitive aspects of ketamine and esketamine on subjects with treatment-resistant depression: a comparative, randomized and double-blind study. Psychiatry Res. 2021;303:114058. doi:10.1016/j.psychres.2021.114058.
- Martin DM, Harvey AJ, Baune B, Berk M, Carter GL, Dong V, et al. Cognitive outcomes from the randomised, active-controlled Ketamine for Adult Depression Study (KADS). J Affect Disord. 2024;352:163–170. doi:10.1016/j.jad.2024.02.052.
- Lucchese AC. Doses repetidas de escetamina subcutânea para o tratamento de depressão refratária: resposta ao tratamento e impacto na cognição [tese de doutorado]. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo; 2023.
- Zaki N, Chen L, Lane R, Doherty T, Drevets WC, Morrison RL, et al. Safety and efficacy with esketamine in treatment-resistant depression: long-term extension study. Int J Neuropsychopharmacol. 2025;28(6):pyaf027. doi:10.1093/ijnp/pyaf027.
- National Institute of Mental Health. Depression. Bethesda: NIMH. Consultado em 26 set. 2026.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.