Antipsicóticos e ganho de peso: prevenção e opções de tratamento
Postado em: 09/10/2026
O aumento do apetite, o ganho de peso ou alterações nos exames podem preocupar mesmo quando o antipsicótico está ajudando. Essas mudanças devem ser discutidas na consulta. O tratamento pode combinar acompanhamento metabólico, apoio à alimentação e à atividade física, revisão da prescrição e medicamentos para controle do peso, quando indicados, procurando preservar o benefício psiquiátrico.1,2
Alguns antipsicóticos também são usados para tratar transtornos do humor, como a depressão bipolar. Receber essa prescrição não significa, por si só, ter psicose.1
Alguns medicamentos influenciam a fome e a quantidade de energia que o corpo gasta. Sono, rotina, outras condições de saúde e características individuais também participam. Por isso, atribuir a mudança apenas à falta de disciplina deixa de fora parte do problema.3
Os efeitos sobre peso, glicose e colesterol variam entre antipsicóticos. As médias dos estudos ajudam a discutir riscos, mas não preveem exatamente o que acontecerá com cada pessoa. Mesmo medicamentos da mesma classe podem ter perfis diferentes.4
O que precisa ser avaliado além da balança?
A avaliação começa pela trajetória: qual era o peso antes do tratamento, quando começou a mudança e o que aconteceu com o apetite e a rotina nesse período? Também importa revisar outros medicamentos, o sono e as dificuldades para se alimentar ou se movimentar. Registros antigos ajudam, mas sua ausência não impede começar o cuidado.2,3
O acompanhamento de antipsicóticos inclui peso ou índice de massa corporal, pressão arterial, glicemia ou hemoglobina glicada — um indicador da glicose nos últimos meses — e perfil de lipídios, como colesterol e triglicerídeos. Esses dados mostram aspectos que a balança não revela. O profissional organiza quais avaliações são necessárias e quando repeti-las, considerando o medicamento, o momento do tratamento e os resultados anteriores.1
É possível agir antes de ganhar muito peso?
Sim. A prevenção pode começar junto com o antipsicótico, sobretudo quando o risco metabólico é maior. Se o peso começar a subir, é possível intervir nos primeiros sinais; quando o ganho já ocorreu, o objetivo passa a incluir seu tratamento.5
As orientações sobre alimentação e atividade física precisam considerar o acesso a alimentos, o tempo para preparar refeições e se exercitar e eventuais limitações físicas. Mudanças na rotina e medicamentos podem fazer parte do mesmo tratamento. Não é necessário esperar um grande ganho de peso ou exigir que todas as tentativas de mudança de hábitos tenham falhado para discutir outras opções.2,3
A prescrição psiquiátrica também deve ser revista. Uma troca pode ser considerada em algumas situações, mas exige ponderar resposta anterior, estabilidade atual e risco de recaída. O perfil metabólico é um dos critérios da escolha. No caso da quetiapina no transtorno bipolar, por exemplo, essa discussão precisa considerar o objetivo para o qual ela foi prescrita.1,4
Qual é o papel da metformina?
A metformina é uma das opções mais estudadas para prevenir e tratar o ganho de peso associado a antipsicóticos, inclusive em pessoas sem diabetes.2,5
Na síntese utilizada por uma diretriz de prevenção, pessoas que começaram metformina perto do início do antipsicótico ganharam, em média, cerca de 4 kg a menos que o grupo de comparação. Isso representa uma diferença no ganho entre grupos; não significa que todos perderão 4 kg. A diretriz faz uma recomendação forte para iniciar metformina junto do antipsicótico em situações específicas de maior risco. A certeza da evidência que sustenta essa recomendação é baixa.5
Quando o peso já aumentou, a metformina também pode ajudar, com objetivos definidos conforme a situação. Função renal, tolerabilidade e resposta precisam ser acompanhadas. Ela não é obrigatória para todo usuário de antipsicótico, e a avaliação de outras possibilidades não depende de uma sequência única de tentativas para todas as pessoas.2
O que sabemos sobre semaglutida nesse contexto?
A semaglutida tem evidência direta em algumas populações que usam antipsicóticos. No HISTORI, 154 adultos com transtornos do espectro da esquizofrenia, pré-diabetes e IMC de pelo menos 27 foram acompanhados por 30 semanas. Em comparação com placebo, houve melhora da hemoglobina glicada, o principal desfecho do estudo, e redução de peso, avaliada como desfecho secundário.6
O COaST avaliou 31 adultos com esquizofrenia ou transtorno esquizoafetivo, em uso de clozapina e com excesso de peso. Em 36 semanas, a redução média de peso foi de 13,88% com semaglutida e 0,42% com placebo. Não foi detectada diferença nos sintomas psicóticos ou nas concentrações de clozapina. O resultado é promissor, mas vem de uma amostra pequena: o recrutamento terminou antes da meta por indisponibilidade do produto.7
Esses ensaios ampliam as possibilidades de cuidado para pacientes semelhantes aos estudados. Não permitem prever a mesma perda de peso em todos os diagnósticos ou com qualquer antipsicótico, nem demonstram, por si, redução de infarto ou mortalidade nesse contexto.6,7
E a tirzepatida?
A tirzepatida atua nos receptores de dois hormônios, GIP e GLP-1, envolvidos no controle da glicose e do apetite. É um medicamento diferente da semaglutida, com evidência de eficácia no tratamento da obesidade.8
No SURMOUNT-5, realizado em adultos com obesidade sem diabetes, a tirzepatida produziu maior redução média de peso que a semaglutida. O estudo, porém, não avaliou especificamente o ganho de peso associado a antipsicóticos e não permite concluir qual das duas é superior nessa situação.9
Escolha e acompanhamento do tratamento
A decisão depende do que precisa ser tratado: uma tendência inicial de ganho, obesidade já estabelecida, alteração da glicose ou uma combinação desses problemas. Entram também as preferências da pessoa, o benefício psiquiátrico obtido, os efeitos adversos, o acesso e a possibilidade de manter o acompanhamento.1,2
Metformina pode causar desconforto gastrointestinal e exige avaliação da função renal. Semaglutida e tirzepatida também podem provocar sintomas digestivos, como náusea, vômitos ou diarreia. A intensidade desses efeitos e as condições clínicas de cada pessoa influenciam a escolha e a continuidade do tratamento.2,6,9
No Brasil, há produtos de semaglutida e tirzepatida aprovados para controle de peso em adultos com obesidade ou com sobrepeso e condições associadas, conforme os critérios de cada indicação. Uma pessoa em uso de antipsicótico pode preencher esses critérios. Isso é diferente de haver uma aprovação específica para “ganho de peso por antipsicótico”; a indicação deve ser conferida na bula do produto utilizado.8,10
Para a próxima consulta, leve a trajetória do peso, a lista de medicamentos, os exames existentes e suas principais dificuldades. Defina com a equipe o que será acompanhado e quando avaliar o resultado. Se o peso estiver levando você a pensar em abandonar o antipsicótico, diga isso ao prescritor.1
Referências
- National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. CG185. Recommendations, seções 1.6 e 1.10.5–1.10.10 [Internet]. [citado em 30 set 2026].
- Fitzgerald I, O'Connell J, Keating D, Hynes C, McWilliams S, Crowley EK. Metformin in the management of antipsychotic-induced weight gain in adults with psychosis: development of the first evidence-based guideline using GRADE methodology. Evid Based Ment Health. 2022;25(1):15-22. doi:10.1136/ebmental-2021-300291.
- National Institute of Diabetes and Digestive and Kidney Diseases. Factors affecting weight & health [Internet]. 2023. [citado em 30 set 2026].
- Pillinger T, McCutcheon RA, Vano L, Mizuno Y, Arumuham A, Hindley G, et al. Comparative effects of 18 antipsychotics on metabolic function in patients with schizophrenia, predictors of metabolic dysregulation, and association with psychopathology: a systematic review and network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2020;7(1):64-77. doi:10.1016/s2215-0366(19)30416-x.
- Carolan A, Hynes-Ryan C, Agarwal SM, Bourke R, Cullen W, Gaughran F, et al. Metformin for the Prevention of Antipsychotic-Induced Weight Gain: Guideline Development and Consensus Validation. Schizophr Bull. 2025;51(5):1193-1205. doi:10.1093/schbul/sbae205.
- Ganeshalingam AA, Uhrenholt N, Arnfred S, Gæde P, Düring S, Stenager EN, et al. Semaglutide Treatment of Antipsychotic-Treated Patients With Schizophrenia, Prediabetes, and Obesity: The HISTORI Randomized Clinical Trial. JAMA Psychiatry. 2025;82(11):1065-1074. doi:10.1001/jamapsychiatry.2025.2332.
- Siskind D, Baker A, Arnautovska U, Warren N, Russell A, DeMonte V, et al. Efficacy and safety of semaglutide versus placebo for people with schizophrenia on clozapine with obesity (COaST): a phase 2, multi-centre, participant and investigator- blinded, randomised controlled trial in Australia. Lancet Psychiatry. 2025;12(7):493-503. doi:10.1016/s2215-0366(25)00129-4.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mounjaro® (tirzepatida): nova indicação [Internet]. 2025. [citado em 30 set 2026].
- Aronne LJ, Horn DB, le Roux CW, Ho W, Falcon BL, Gomez Valderas E, et al. Tirzepatide as Compared with Semaglutide for the Treatment of Obesity. N Engl J Med. 2025;393(1):26-36. doi:10.1056/nejmoa2416394.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Wegovy (semaglutida) [Internet]. 2023. [citado em 30 set 2026].
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.