Depressão bipolar: o que muda no tratamento?

Postado em: 04/09/2026

Profissional faz anotações durante uma consulta em saúde mental.

Imagem ilustrativa. Foto: Alex Green / Pexels.

Quando a depressão faz parte de um transtorno bipolar, o tratamento tem dois objetivos: aliviar o episódio atual e manter o humor estável ao longo do tempo. Existem tratamentos eficazes, mas a escolha não é necessariamente a mesma usada na depressão sem histórico de mania ou hipomania.1

Essa diferença ajuda a entender por que a consulta vai além da tristeza e do desânimo de hoje. O que aconteceu em outras fases da vida também orienta o caminho para melhorar.

Por que o histórico muda a escolha do tratamento?

Energia muito acima do habitual, menor necessidade de sono e impulsividade podem ser lembradas apenas como uma época de produtividade. Investigar mania ou hipomania muda o planejamento terapêutico. Já a falta de melhora da depressão, sozinha, não estabelece bipolaridade.1

Para entender essa distinção, veja o guia sobre transtorno bipolar, seus tipos e diagnóstico. Aqui, o foco é o tratamento da fase depressiva em adultos.

Quais medicamentos podem ajudar na depressão bipolar?

Quetiapina, lurasidona, lítio e lamotrigina estão entre as opções, conforme o tipo de bipolaridade, a fase do tratamento e o histórico individual. Não são equivalentes nem precisam ser usados juntos. No tipo II, a quetiapina ocupa a primeira linha nas recomendações CANMAT/ISBD.2

Receber um medicamento da classe dos antipsicóticos não significa ter psicose: a indicação pode ser tratar a depressão bipolar.1

A decisão também considera o que já funcionou, efeitos como sonolência ou ganho de peso, outras condições de saúde e planejamento de gravidez. Com lítio, por exemplo, o acompanhamento inclui sua concentração no sangue e a avaliação dos rins e da tireoide. Esses cuidados ajudam a manter o benefício com segurança.3

Antidepressivos podem ser usados?

Podem, em situações selecionadas. No tipo I, não são recomendados isoladamente: quando indicados, associam-se ao tratamento de estabilização do humor. No tipo II, há opções para depressão sem características mistas — sem sintomas simultâneos de ativação, como aceleração e energia aumentada. Episódios frequentes e histórico de virada para mania ou hipomania pesam nessa decisão.2

No ensaio clínico STEP-BD, publicado em 2007, acrescentar antidepressivos tradicionais — bupropiona ou paroxetina — ao estabilizador de humor não mostrou benefício superior ao estabilizador associado a placebo. Entre os 366 participantes, acompanhados por até 26 semanas, a associação não aumentou a chance de recuperação sustentada da depressão bipolar.4

Se houver redução marcante da necessidade de sono, aceleração incomum ou impulsividade durante o tratamento, avise o psiquiatra. Não ajuste ou suspenda a medicação por conta própria.1

E quando a melhora é insuficiente?

Antes de concluir que o quadro é resistente, vale reconstruir o percurso: quais tratamentos foram tentados, por quanto tempo, com que regularidade e quais efeitos dificultaram o uso. Também é importante verificar se as tentativas eram apropriadas para depressão bipolar e se há outros fatores interferindo, como uso de álcool ou outras substâncias e condições clínicas associadas.5

O plano pode envolver ajustes, troca ou associação de medicamentos. Em quadros graves, resistentes ou que exigem resposta rápida, a eletroconvulsoterapia (ECT) também pode ser considerada, sem exigir uma sequência interminável de tentativas.2

A cetamina tem lugar nesse tratamento?

A cetamina pode proporcionar alívio rápido dos sintomas em pessoas com depressão bipolar resistente. A maior parte dos estudos reunidos em uma revisão sistemática avaliou a via intravenosa, associada a medicamentos de estabilização do humor. Os resultados foram favoráveis no curto prazo, com necessidade de ampliar o conhecimento sobre manutenção da resposta.6

Há também pesquisas com escetamina, inclusive subcutânea, com resultados promissores. A5,6

Conheça também a página sobre tratamento com cetamina.

O que ajuda a manter a melhora?

A recuperação não termina quando o desânimo diminui. O acompanhamento passa a priorizar a prevenção de novos episódios e a retomada da vida cotidiana. O plano de manutenção considera o histórico de crises, a resposta ao tratamento e o que é viável para a pessoa sustentar. Melhorar não é, por si só, indicação para interromper os medicamentos.3

Psicoterapia e psicoeducação ajudam a reconhecer sinais precoces e enfrentar dificuldades do tratamento. Rotina de sono e apoio familiar, quando desejado, complementam o cuidado medicamentoso.1

Como aproveitar melhor a próxima consulta?

Leve uma lista dos medicamentos já utilizados e anote o que melhorou, o que incomodou e quais mudanças ocorreram no sono e na energia. Três perguntas podem organizar a conversa:

  • Qual é o objetivo do tratamento nesta fase?
  • Como vamos avaliar se ele está funcionando?
  • Qual será o próximo passo se a melhora não for suficiente?

Na Genuine, a avaliação psiquiátrica é o ponto de partida para discutir esse histórico e as possibilidades de cuidado.

Pensamentos de suicídio exigem ajuda prontamente. Se houver risco imediato de se machucar, procure um pronto-socorro ou ligue para o SAMU, 192; não espere a consulta de rotina.7

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Bipolar Disorder. Revisado em 2025.
  2. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD Guidelines for the Treatment of Bipolar Disorder: Summary and a 2023 Update of Evidence. Focus. 2023;21(4):344–353. DOI: 10.1176/appi.focus.20230009.
  3. NICE. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. Diretriz atualizada em setembro de 2025.
  4. Sachs GS et al. Effectiveness of adjunctive antidepressant treatment for bipolar depression. New England Journal of Medicine. 2007;356(17):1711–1722. DOI: 10.1056/NEJMoa064135.
  5. Menon V et al. Clinical practice guidelines for the management of bipolar disorder: 2025 update. Indian Journal of Psychiatry. 2026;68(1):8–43. DOI: 10.4103/indianjpsychiatry_1186_25.
  6. Fancy F et al. Ketamine for bipolar depression: an updated systematic review. Therapeutic Advances in Psychopharmacology. 2023;13. DOI: 10.1177/20451253231202723.
  7. Ministério da Saúde. SAMU 192.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.