TDAH e regulação emocional: como lidar com irritabilidade e frustração

Postado em: 02/10/2026

Homem escuta uma colega que aponta um trecho de um relatório corrigido sobre a mesa.

Considere o seguinte caso ilustrativo: André, adulto com TDAH já diagnosticado, recebe uma correção sobre um trabalho que entregou. A tarefa estava concluída, mas o comentário abre uma dificuldade que nem sempre aparece quando a consulta se concentra em atenção e organização.

Baixa tolerância à frustração, irritabilidade e respostas impulsivas podem acompanhar o TDAH em adultos e afetar as relações. Isso merece espaço no tratamento, mas não acontece com todas as pessoas com TDAH nem explica toda emoção intensa.¹

O que significa regular uma emoção

Regular uma emoção envolve perceber o que está sentindo, escolher como responder e conseguir voltar à conversa ou à atividade depois. Não exige deixar de sentir raiva, aceitar uma situação injusta ou esconder qualquer reação. A dificuldade pode estar no tempo entre sentir e agir, na intensidade da resposta ou no quanto a experiência continua ocupando o pensamento.

Em uma pesquisa com adultos, dificuldades de autorregulação emocional se associaram ao TDAH e a pior funcionamento e qualidade de vida. Essa relação não foi inteiramente explicada pelas condições coexistentes examinadas. O estudo, porém, não mostra que cada conflito de uma pessoa com TDAH seja causado pelo transtorno, nem estabelece uma frequência válida para toda a população.¹

Na consulta, ajuda separar o que foi sentido, o que foi feito e qual foi a consequência. Sentir-se magoado por uma crítica é diferente de interromper alguém ou fazer uma acusação. Uma reação pode ser intensa e não ferir ninguém; outra pode ser breve e deixar consequências duradouras. Essa diferença orienta o que precisa mudar no cuidado.

Quando investigar além do TDAH

Irritabilidade isolada não confirma TDAH. A avaliação considera a história dos sintomas, o desenvolvimento, os diferentes contextos da vida e outras condições de saúde. Também procura entender o que mudou recentemente, em vez de atribuir uma queixa nova ao diagnóstico já conhecido.²

Conte desde quando essas reações acontecem, em quais situações são mais difíceis e se houve mudança no sono, no humor ou na sobrecarga cotidiana. Uma relação temporal com alterações do tratamento é informação relevante, mas não basta para concluir que houve efeito adverso ou “rebote”.²

Também não há uma regra simples em que reações de minutos significam TDAH e alterações de dias significam bipolaridade. O que distingue os quadros é um conjunto de informações sobre o curso dos sintomas e dos episódios. O artigo sobre TDAH ou transtorno bipolar aprofunda essa investigação.

Antes, durante e depois de uma reação

André entende a correção como uma avaliação de sua competência, responde de forma ríspida e passa horas repassando a conversa. O diagnóstico de TDAH não permite concluir que essa interpretação ou resposta seja inevitável.

Ao reconstruir a situação no cuidado, é possível examinar o contexto: ele estava cansado? A orientação foi clara? Que significado atribuiu ao comentário? Depois, observar os sinais que precederam a resposta — tensão no corpo, urgência de se defender, dificuldade de ouvir até o fim — e o que aconteceu após a fala. Esse tipo de análise da situação e treino de habilidades aparece em intervenções estruturadas estudadas para adultos com TDAH.³

Os alvos podem ser bastante concretos. Reconhecer a tensão antes de responder dá uma oportunidade de pedir esclarecimento ou combinar uma pausa. Quando há pausa, importa deixar claro que a conversa será retomada; afastar-se para punir a outra pessoa ou desaparecer do assunto produz outra consequência. Se uma fala feriu alguém, o trabalho pode incluir reconhecê-la e reparar o que for possível.

Pedir uma pausa pode parecer simples e ser difícil justamente quando a tensão sobe. Na terapia, vale examinar o que impede essa alternativa e como praticá-la nas situações em que os conflitos costumam ocorrer. O exemplo ajuda a identificar pontos para esse trabalho; não permite prever a resposta a uma técnica isolada.

O que medicamentos e psicoterapia podem mudar

Medicamentos para TDAH foram estudados também quanto a sintomas emocionais. Uma reanálise de dois ensaios controlados, com 536 adultos, encontrou benefício da atomoxetina em uma escala clínica que incluía esses sintomas. A análise emocional foi feita posteriormente, e a seleção dos participantes limita sua aplicação a pessoas com outras condições psiquiátricas.⁴

Outro ensaio, com 363 adultos e duração de 24 semanas, encontrou melhora em escalas de sintomas emocionais com metilfenidato de liberação prolongada em relação ao placebo. Não houve melhora nas medidas adicionais de ansiedade, depressão e raiva ou hostilidade relatadas no estudo. Assim, o resultado não significa benefício em toda dificuldade emocional.⁵

Uma pesquisa experimental de 2024 examinou tarefas de indução e regulação emocional e não encontrou normalização das alterações na condição aguda de uso de estimulante estudada. Essa pergunta é diferente da melhora em escalas clínicas após semanas de tratamento. Os estudos não permitem escolher entre atomoxetina e estimulantes por comparação indireta, nem concluir que uma resposta aguda represente todo o acompanhamento.⁶ O panorama de tratamento medicamentoso do TDAH em adultos aborda a escolha de forma mais ampla.

A psicoterapia pode trabalhar dificuldades que persistem apesar do benefício da medicação. O NICE orienta considerar intervenções psicológicas estruturadas, com foco no TDAH e acompanhamento regular, que podem incluir terapia cognitivo-comportamental, a TCC.² O artigo sobre TCC para TDAH em adultos explica esse trabalho.

Os resultados específicos sobre emoções, contudo, precisam ser lidos com cuidado. Em um ensaio com 121 adultos, um grupo baseado em terapia comportamental dialética, conhecida pela sigla DBT, melhorou o funcionamento executivo em comparação com o cuidado habitual. A diferença na escala de dificuldades de regulação emocional não foi significativa ao final das 14 semanas. Melhorar planejamento e organização, portanto, não demonstra automaticamente melhora emocional.³

Em 2026, um ensaio chinês com 98 adultos comparou grupos de DBT e TCC. Não houve vantagem consistente da DBT na regulação emocional; uma diferença inicial não se manteve após o ajuste para as várias comparações realizadas. O estudo também não demonstrou equivalência formal entre as terapias. Como não havia um grupo sem tratamento, a melhora ao longo do tempo não permite isolar quanto foi produzido por cada técnica.⁷

Esses limites ajudam a definir o acompanhamento: os objetivos emocionais devem ser avaliados diretamente, mesmo quando a concentração ou a organização melhoram. Não há necessidade de escolher uma escola de psicoterapia apenas pelo diagnóstico ou por uma promessa de “controle emocional”.

Como acompanhar uma mudança que faz diferença

O progresso pode aparecer em perceber a escalada mais cedo, reduzir respostas de que depois se arrepende ou conseguir retomar uma conversa com menos tempo de recuperação. Também pode incluir reparar um conflito que antes ficava sem resolução. Esses são exemplos de objetivos a combinar no cuidado, não itens de um teste diagnóstico.

Levar uma ou duas situações recentes à consulta ou à terapia costuma ser mais útil do que tentar descrever toda a vida como “sou muito irritado”. Conte o que ocorreu, como respondeu e o que gostaria de conseguir fazer de outra forma. Não é necessário preparar um diário extenso para começar essa conversa.

Reconhecer a dificuldade permite buscar ajuda e trabalhar alternativas. Também preserva a responsabilidade por ações que ferem outras pessoas, sem transformar a dificuldade em julgamento moral. Se houver risco de autoagressão ou agressão, procure ajuda imediata, sem esperar o retorno de rotina.

Na avaliação de TDAH em adultos na Genuine Mental Health, descreva o impacto dessas reações, inclusive se outras áreas já melhoraram com o tratamento. Isso ajuda a colocar uma dificuldade ainda presente entre os objetivos do acompanhamento.

Referências

  1. Surman CBH, Biederman J, Spencer T, Miller CA, McDermott KM, Faraone SV. Understanding deficient emotional self-regulation in adults with attention deficit hyperactivity disorder: a controlled study. Atten Defic Hyperact Disord. 2013;5(3):273–281. doi:10.1007/s12402-012-0100-8.
  2. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management. NG87. Recomendações 1.3.1–1.3.4 e 1.5.15–1.5.18. Acesso em 2 out 2026.
  3. Halmøy A, Ring AE, Gjestad R, et al. Dialectical behavioral therapy-based group treatment versus treatment as usual for adults with attention-deficit hyperactivity disorder: a multicenter randomized controlled trial. BMC Psychiatry. 2022;22:738. doi:10.1186/s12888-022-04356-6.
  4. Reimherr FW, Marchant BK, Strong RE, et al. Emotional dysregulation in adult ADHD and response to atomoxetine. Biol Psychiatry. 2005;58(2):125–131. doi:10.1016/j.biopsych.2005.04.040.
  5. Rösler M, Retz W, Fischer R, et al. Twenty-four-week treatment with extended release methylphenidate improves emotional symptoms in adult ADHD. World J Biol Psychiatry. 2010;11(5):709–718. doi:10.3109/15622971003624197.
  6. Sklivanioti Greenfield M, Wang Y, Hamilton JP, Thunberg P, Msghina M. Emotional dysregulation and stimulant medication in adult ADHD. J Psychiatry Neurosci. 2024;49(4):E242–E251. doi:10.1503/jpn.240009.
  7. Zhang LQ, Pan MR, Dong M, et al. Group dialectical behavior therapy skills training versus group cognitive behavioral therapy for adults with ADHD: a randomized controlled trial. BMC Psychiatry. 2026;26:512. doi:10.1186/s12888-026-08130-w.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


O que você achou disso?

Clique nas estrelas

Média da classificação 0 / 5. Número de votos: 0

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.