Tratamento medicamentoso do TDAH em adultos: opções e acompanhamento
Postado em: 22/09/2026
Os medicamentos para TDAH podem reduzir desatenção, impulsividade e hiperatividade em adultos. O acompanhamento procura saber se essa melhora também está ajudando a pessoa nas situações que motivaram a busca por tratamento — e se os efeitos indesejados são toleráveis.¹,²
Por isso, a conversa sobre o remédio começa antes da escolha de um nome. Qual dificuldade mais atrapalha hoje? Acompanhar uma conversa, concluir uma tarefa essencial, conter interrupções? Ter alguns exemplos ajuda a definir o que será observado depois.
Antes da receita, uma decisão sobre o que tratar
Ter diagnóstico de TDAH não torna a medicação obrigatória. Sua indicação considera o prejuízo causado pelos sintomas, as medidas já tentadas, as condições de saúde e as preferências da pessoa. O NICE recomenda oferecê-la a adultos quando persistem dificuldades significativas apesar de ajustes no ambiente.²
Se o diagnóstico ainda está em investigação, sentir mais foco após tomar um estimulante não resolve essa dúvida.³ A avaliação depende da história e das dificuldades em diferentes contextos, não de um “teste com remédio”. O artigo sobre como é investigado o TDAH na vida adulta explica esse processo.⁴
Estimulantes e não estimulantes: o que muda entre as opções
Metilfenidato e lisdexanfetamina pertencem ao grupo dos estimulantes. A atomoxetina é uma opção não estimulante. Esses nomes descrevem diferenças farmacológicas, não uma escala em que um medicamento seria necessariamente “forte” e outro “fraco”.¹
Metilfenidato. Atua sobre a disponibilidade de neurotransmissores envolvidos na atenção e no controle do comportamento. Há apresentações de liberação imediata e prolongada, com diferentes durações de efeito. A indicação e a forma de uso precisam ser conferidas na bula específica do produto.⁵
Lisdexanfetamina. É transformada pelo organismo em uma substância ativa, a dexanfetamina. Sua bula brasileira inclui o tratamento do TDAH em adultos.⁶
Atomoxetina. Atua principalmente sobre a noradrenalina e tem indicação brasileira para TDAH em adultos. Ser não estimulante não elimina a necessidade de acompanhar pressão, frequência cardíaca, sono e outros efeitos.²,⁷
A escolha depende do histórico de resposta, da tolerabilidade, dos horários em que há dificuldades e dos outros medicamentos utilizados. A opção que ajudou um conhecido não é necessariamente a mais adequada para você.⁵,⁶,⁷
A escolha inclui a sua saúde, não apenas a rotina
Antes de iniciar, o médico avalia pressão arterial, pulso, peso e histórico de saúde. É importante relatar doença cardíaca, desmaios, palpitações e antecedentes familiares relevantes. Eletrocardiograma e outros exames são solicitados conforme os achados; não há um pacote obrigatório igual para todos.²
Sono, ansiedade, alterações de humor e uso de álcool ou outras substâncias também precisam entrar na conversa. Um histórico de mania ou hipomania, por exemplo, muda os cuidados com a prescrição. Leve a lista completa do que utiliza, inclusive medicamentos sem receita e suplementos, para avaliar possíveis interações.⁵,⁶,⁷
Durante o tratamento, o acompanhamento inclui pressão, pulso, apetite, peso, sono e mudanças de humor. Os ajustes de dose também são momentos de conferir benefícios e efeitos indesejados.²,⁶,⁷
Como saber se o medicamento está ajudando de verdade
Uma revisão publicada em 2025 reuniu 113 ensaios sobre diferentes tratamentos para TDAH em adultos. Nas comparações com placebo, estimulantes e atomoxetina reduziram sintomas centrais do transtorno em avaliações próximas de 12 semanas, tanto nos relatos dos participantes quanto nas avaliações clínicas. A confiança nas estimativas variou; a análise dos medicamentos não demonstrou melhora da qualidade de vida nos dados disponíveis e apontou lacunas sobre resultados de longo prazo.¹
Na consulta, isso se traduz em uma tarefa prática: observar os sintomas e o que mudou na vida. Escolha dois ou três objetivos que façam sentido para você. Por exemplo:
- Acompanhar uma conversa sem perder repetidamente o que a outra pessoa acabou de dizer.
- Concluir uma tarefa doméstica necessária, em vez de deixá-la interrompida entre várias outras.
- Conseguir esperar a vez de falar em situações nas quais as interrupções costumam gerar conflitos.
Combine com o médico quais mudanças acompanhar. Vale comparar situações semelhantes e contar também o que continuou difícil.
Exemplo fictício: Rafael relata que se sente mais disposto desde o início do tratamento, mas ainda perde o assunto nas conversas e deixa compromissos essenciais pelo caminho. Essa diferença entre disposição e os objetivos combinados merece ser discutida. O relato permite avaliar o benefício com mais precisão do que apenas dizer “senti o remédio”.
O início do efeito, sua duração ao longo do dia e o tempo necessário para avaliar a resposta são aspectos diferentes. Estimulantes podem produzir efeitos mais rapidamente; o benefício da atomoxetina costuma se desenvolver ao longo de semanas. A duração diária depende do medicamento, da apresentação e da resposta individual. Perceber um efeito inicial não encerra a avaliação do tratamento.²,⁵,⁷
Quando há incômodo ou o benefício fica aquém do esperado
Diminuição do apetite, dificuldade para dormir, boca seca, náusea ou palpitações são exemplos de efeitos que podem ocorrer, com diferenças entre os medicamentos. Alterações sexuais ou urinárias também merecem relato, especialmente durante o uso de atomoxetina.⁵,⁶,⁷
Anote quando o incômodo aparece, quanto interfere na rotina e se começou depois de alguma mudança no tratamento. É diferente dizer “estou com insônia” e contar que passou a demorar muito mais para dormir desde determinada alteração. Não é necessário registrar cada sensação do dia.
Quando a melhora é pequena, o médico revê como o medicamento está sendo usado, se houve tempo suficiente para avaliar a resposta e quais dificuldades permanecem. Essa avaliação orienta os próximos ajustes.²
O medicamento também não precisa resolver sozinho todas as dificuldades. Intervenções psicológicas e adaptações do ambiente podem participar do cuidado conforme a necessidade. Para questões profissionais, as estratégias para lidar com o TDAH no trabalho aprofundam essa parte.⁴
Na avaliação e tratamento do TDAH em adultos na Genuine Mental Health, leve exemplos do que gostaria de melhorar e, se já usa medicação, do que mudou desde o início. Essa conversa ajuda a decidir o que manter, o que investigar e quando reavaliar o plano.
Referências
1. Ostinelli EG, Schulze M, Zangani C, Farhat LC, Tomlinson A, Del Giovane C, et al. Comparative efficacy and acceptability of pharmacological, psychological, and neurostimulatory interventions for ADHD in adults: a systematic review and component network meta-analysis. Lancet Psychiatry. 2025;12(1):32–43. doi:10.1016/S2215-0366(24)00360-2.
2. National Institute for Health and Care Excellence. Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management — NG87. 2018. Recomendações e fundamentação sobre escolha e acompanhamento dos medicamentos. Acesso em 21 set. 2026.
3. National Institute of Mental Health. Mental health medications. Revisado em dez. 2023. Acesso em 21 set. 2026.
4. National Institute of Mental Health. ADHD in adults: 4 things to know. 2024. Acesso em 21 set. 2026.
5. Novartis Biociências. Ritalina e Ritalina LA: cloridrato de metilfenidato — bula do profissional de saúde. Versão VPS23. Acesso em 21 set. 2026.
6. Takeda Pharma. Venvanse: dimesilato de lisdexanfetamina — bula do profissional de saúde. Documento disponibilizado na página brasileira do fabricante. Acesso em 21 set. 2026.
7. Apsen Farmacêutica. Atentah: cloridrato de atomoxetina — bula do paciente. Acesso em 21 set. 2026.
Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.
Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.
De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.