A depressão melhorou, mas o cansaço continua: o que investigar?
Postado em: 03/10/2026
A tristeza diminuiu, mas tomar banho, preparar uma refeição ou passar algumas horas no trabalho ainda exige um esforço enorme. Essa diferença precisa entrar na consulta: a melhora do humor e a recuperação da capacidade de fazer as atividades habituais nem sempre acontecem juntas.1
O cansaço pode estar relacionado à depressão que ainda não cedeu completamente, ao tratamento, ao sono ou a outra condição de saúde. Quando persiste ou limita o dia a dia, merece avaliação, mesmo que outros sintomas tenham melhorado.2
Melhorar não significa que todos os sintomas desapareceram
Alguns sintomas podem permanecer depois de uma melhora importante. Eles são chamados de sintomas residuais. Em uma análise do estudo STAR*D, feita apenas com 943 pessoas que atingiram remissão da depressão após tratamento com citalopram, ainda havia queixas, especialmente relacionadas ao sono. Cerca de 1 em cada 5 participantes (22,5%) relatava falta de energia, ao menos leve. Remissão, nesse contexto, era atingir o critério de poucos sintomas definido pela pesquisa, não necessariamente estar livre de qualquer dificuldade.3
Esses achados não permitem concluir que todo cansaço após a melhora seja parte da depressão, nem separar com certeza sintomas persistentes de efeitos adversos e outras causas.3
Também há diferença entre conseguir fazer algo e conseguir sustentá-lo. Voltar a trabalhar por algumas horas, por exemplo, não significa que a energia já permita cumprir a rotina anterior. O acompanhamento deve considerar essa experiência, além da intensidade dos sintomas. Cansaço isolado não basta para classificar uma depressão como resistente ao tratamento.1
É falta de energia, sono ou perda de interesse?
“Estou cansado” pode descrever queixas diferentes. Na fadiga, predomina a falta de energia. Na sonolência, a pessoa sente necessidade de dormir e pode ter dificuldade para se manter desperta. As duas podem coexistir.2
Há ainda a perda de prazer ou interesse, chamada anedonia. Querer encontrar alguém, mas não ter energia para sair, é diferente de não sentir interesse pelo encontro. Essa distinção ajuda a descrever o problema, embora nem sempre seja possível separar as sensações com nitidez.1 O artigo sobre perda de prazer e interesse explica melhor essa outra queixa.
Considere três relatos ilustrativos: “quero fazer minhas coisas, mas fico sem energia”; “tenho cochilado durante o dia”; “até consigo sair, mas nada me desperta interesse”. Não é necessário escolher uma única frase. Contar quais delas se aproximam do que acontece já torna a conversa mais precisa.
O cansaço já existia ou apareceu durante o tratamento?
Reconstruir a sequência ajuda: a falta de energia começou junto da depressão? Já estava presente antes? Surgiu ou aumentou depois de uma mudança na medicação? A proximidade entre os acontecimentos é uma pista para investigar, não uma prova de que o remédio causou o problema.2
A revisão inclui o benefício obtido, os efeitos adversos e as dificuldades para manter o tratamento. Informe também interrupções ou esquecimentos. Se um medicamento ajuda o humor, mas a sonolência impede trabalhar, os dois efeitos precisam ser considerados na decisão clínica.4
Não ajuste horários, doses ou medicamentos por conta própria. Leve a lista completa do que usa, incluindo remédios de outras especialidades e produtos sem receita.2
Como estão o sono e a saúde física?
Vale observar se há tempo suficiente para dormir, despertares frequentes ou sonolência durante o dia. Insônia e apneia do sono estão entre as condições que podem contribuir para o cansaço. Também entram na avaliação possíveis causas clínicas, como anemia e alterações da tireoide.2
Isso não significa investigar todas as causas com o mesmo conjunto de exames. A história, os sintomas associados e a avaliação clínica orientam o que faz sentido verificar. A diretriz CANMAT recomenda considerar condições médicas que possam contribuir para sintomas persistentes.1
O que levar à próxima consulta?
Um registro breve pode ser suficiente. Anote:
- quais atividades ficaram difíceis e o que já voltou a ser possível;
- em que momentos do dia o cansaço ou o sono são mais intensos;
- como têm sido as noites e os cochilos;
- quando o problema começou e quais mudanças no tratamento ocorreram perto dessa época;
- quais medicamentos está usando e quais dificuldades encontrou para mantê-los.
A comparação entre o que melhorou e o que continua limitado ajuda a definir o que merece ser revisto.4 Se o cansaço estiver aumentando ou comprometendo suas atividades, procure avaliação. Piora importante do estado mental ou pensamentos de autoagressão exigem ajuda prontamente.2
Na Genuine Mental Health, a avaliação psiquiátrica pode ajudar a rever essa sequência e discutir o acompanhamento necessário.
Referências
- Lam RW, Kennedy SH, Adams C, Bahji A, Beaulieu S, Bhat V, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) 2023 Update on Clinical Guidelines for Management of Major Depressive Disorder in Adults. Can J Psychiatry. 2024;69(9):641–687. doi:10.1177/07067437241245384.
- MedlinePlus. Fatigue. Medical Encyclopedia. Revisado em 19 maio 2025. Acesso em 2 out 2026.
- Nierenberg AA, Husain MM, Trivedi MH, Fava M, Warden D, Wisniewski SR, et al. Residual symptoms after remission of major depressive disorder with citalopram and risk of relapse: a STAR*D report. Psychol Med. 2010;40(1):41–50. doi:10.1017/S0033291709006011.
- National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. 2022. Acesso em 2 out 2026.
Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.