Anedonia: quando as atividades deixam de dar prazer

Postado em: 19/09/2026

Grupo de amigos jogando, enquanto uma participante permanece emocionalmente neutra

Anedonia é a redução da capacidade de sentir prazer, frequentemente acompanhada de perda de interesse por atividades antes agradáveis. A mudança pode aparecer na música que deixou de emocionar ou no encontro com amigos do qual a pessoa participa sem aproveitar como antes. É um sintoma relevante na depressão, mas não confirma esse diagnóstico isoladamente.1

O ponto de comparação é a própria experiência. Ter outros gostos, cansar de uma atividade ou atravessar alguns dias de tédio não basta para identificar um transtorno. Importa compreender o que mudou, quanto isso se espalhou pela vida e como vem evoluindo.

Falta de prazer, de vontade e de energia: o que mudou?

Essas experiências podem aparecer juntas, mas descrevê-las separadamente ajuda na consulta. Esperar que uma atividade seja agradável, ter vontade de iniciá-la e sentir prazer durante sua realização são aspectos relacionados, que podem ser afetados de formas diferentes.2

“Quero encontrar meus amigos, mas estou cansado demais para sair” comunica algo diferente de “consigo ir, mas estar com eles perdeu a graça”. Também é possível ter pouca expectativa antes de um encontro e aproveitar alguma coisa quando ele acontece. Essas frases são exemplos de descrição; nenhuma delas, sozinha, define um diagnóstico.

Por isso, vale contar tanto como está a disposição para começar quanto o que se sente durante a atividade. Reduzir tudo a “não tenho vontade de nada” pode esconder diferenças úteis para entender a dificuldade. A pesquisa sobre anedonia reconhece essa diversidade e não permite explicá-la apenas como “falta de dopamina”.2

É possível ter depressão sem se sentir triste?

Sim. A perda de interesse ou prazer é um dos sintomas centrais de um episódio depressivo e pode ser mais evidente do que a tristeza. O diagnóstico considera outros sintomas, duração, sofrimento e repercussão na vida. Embora os critérios incluam um período de pelo menos duas semanas, esse intervalo não é uma exigência para pedir ajuda.1

Na avaliação também entram saúde física, sono, medicamentos, uso de substâncias e acontecimentos recentes. A explicação depende desse conjunto. Nosso artigo sobre sintomas da depressão apresenta o quadro mais amplo.1

Continuar trabalhando não significa que o interesse e o prazer estejam preservados. Essa mudança merece atenção mesmo quando a pessoa consegue cumprir suas obrigações.

O que observar para explicar melhor na consulta?

O relato fica mais claro quando inclui mudanças concretas:1,3

  • Início: quando você percebeu a diferença e o que acontecia naquela época.
  • Abrangência: quais atividades perderam o interesse e quais ainda proporcionam algum prazer.
  • Impacto: o que deixou de fazer ou passou a realizar com muito mais esforço.
  • Evolução: se houve mudanças junto do sono, do humor ou de um tratamento.

Você não precisa medir o prazer a cada momento. Um exemplo comparando antes e agora pode ajudar: “Eu esperava o fim de semana para cozinhar; há semanas faço as refeições sem nenhum interesse”.

Melhorei de outros sintomas, mas o prazer não voltou

Essa informação merece espaço na revisão do tratamento. Acompanhar a melhora inclui o que ainda está difícil e o que a pessoa deseja recuperar. Vale contar se a perda de prazer já existia antes do cuidado, se mudou durante ele e quais avanços ocorreram em outras áreas.3

Uma frase possível é: “Voltei a dormir e estou menos angustiado, mas continuo sem aproveitar as coisas”. Esse relato não basta para concluir que o antidepressivo falhou ou causou a mudança. Ele ajuda o profissional a reavaliar o quadro e o plano terapêutico. Não altere a medicação por conta própria.1,3

Como o cuidado pode ajudar a recuperar o interesse e o prazer?

O tratamento depende da condição associada e das necessidades da pessoa. Na depressão, psicoterapias podem trabalhar a retomada de atividades significativas e as barreiras que dificultam o envolvimento nelas. Os passos são combinados e acompanhados; completar uma tarefa não equivale automaticamente a voltar a sentir prazer.3 O texto sobre TCC para depressão mostra exemplos desse trabalho.

Em um estudo de 2023, 85 adultos com pouca experiência de interesse, entusiasmo e prazer e sintomas relevantes de depressão ou ansiedade receberam uma de duas psicoterapias. A abordagem voltada às experiências positivas teve vantagem sobre a focada nas emoções negativas na avaliação conjunta do prazer e dos sintomas.4 Um segundo ensaio, de 2026, com 98 participantes e comparação semelhante, também encontrou vantagem clínica, mas pequena e sem superioridade em todas as medidas avaliadas.5 Esses resultados vêm de grupos selecionados e intervenções estruturadas; não significam que bastaria “pensar positivo” nem que toda psicoterapia produza o mesmo efeito.

Se essa mudança persiste, traz sofrimento ou empobrece seu cotidiano, uma avaliação em psiquiatria na Genuine Mental Health pode começar pelo que você percebeu, mesmo que seja difícil dar nome à experiência. Não é preciso esperar deixar de cumprir as obrigações para conversar sobre isso.

Se houver risco imediato de autoagressão, procure um serviço de emergência ou acione o SAMU pelo 192.6

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Depression. Revisado em 2024. Acesso em 19 set. 2026.
  2. Rømer Thomsen K. Measuring anhedonia: impaired ability to pursue, experience, and learn about reward. Front Psychol. 2015;6:1409. doi:10.3389/fpsyg.2015.01409.
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management — NG222. 2022. Acesso em 19 set. 2026.
  4. Craske MG, Meuret AE, Echiverri-Cohen A, Rosenfield D, Ritz T. Positive affect treatment targets reward sensitivity: a randomized controlled trial. J Consult Clin Psychol. 2023;91(6):350–366. doi:10.1037/ccp0000805.
  5. Meuret AE, Rosenfield D, Wang E, Hough CM, Ritz T, Craske MG. Positive affect treatment for depression, anxiety, and low positive affect: a randomized clinical trial. JAMA Netw Open. 2026;9(4):e267403. doi:10.1001/jamanetworkopen.2026.7403.
  6. Brasil. Ministério da Saúde. SAMU 192. Acesso em 19 set. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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