Ansiedade e depressão ao mesmo tempo: o que muda no tratamento?

Postado em: 04/10/2026

Homem sentado no sofá mexe na manga da camisa, ao lado de um cesto de roupas.

Ansiedade e depressão podem ocorrer ao mesmo tempo. Isso pode significar sintomas ansiosos durante um episódio depressivo ou a coexistência de dois transtornos. A distinção orienta o tratamento: não existe uma regra de que é preciso resolver toda a ansiedade antes de cuidar da depressão, ou fazer sempre o contrário.1

Para decidir por onde começar, importa saber quando cada dificuldade apareceu, como afeta a vida e o que exige cuidado mais imediato. Os dois conjuntos de sintomas precisam continuar sendo acompanhados.

Sintomas juntos nem sempre significam dois diagnósticos

A depressão pode vir acompanhada de tensão, inquietação, receio do futuro e dificuldade para dormir. A pessoa pode estar sem energia para realizar tarefas e, ao mesmo tempo, sentir que não consegue descansar. Essa combinação não contradiz o diagnóstico de depressão.2

Em outras situações, há um transtorno ansioso com história própria. Alguém pode, por exemplo, ter preocupações persistentes e difíceis de controlar com trabalho, saúde e família muito antes de apresentar perda de interesse e desânimo. Essa história justifica investigar um transtorno de ansiedade generalizada, mas não basta, por si só, para confirmá-lo.3 Quando os critérios de dois transtornos são atendidos, usamos o termo comorbidade para dizer que eles coexistem.

A expressão “depressão ansiosa” exige cuidado porque aparece com sentidos diferentes. Em pesquisas, pode indicar depressão acompanhada de um transtorno ansioso ou um nível elevado de determinados sintomas de ansiedade. Esses critérios não identificam necessariamente as mesmas pessoas.4 Ao ouvir esse termo, vale perguntar quais sintomas ou diagnósticos ele está descrevendo.

O que a consulta precisa esclarecer

Uma das informações mais úteis é a sequência dos acontecimentos. A preocupação começou junto com o desânimo? Já atrapalhava a vida antes? Continua presente nos períodos em que o humor está melhor? Sono, tratamentos anteriores, medicamentos e uso de álcool ou outras substâncias também entram nessa reconstrução.1

O prejuízo precisa ser descrito de maneira concreta. É diferente continuar trabalhando com muito esforço, faltar repetidamente ou já não conseguir sair de casa. A dificuldade de concentração pode ser importante mesmo quando a pessoa mantém suas obrigações. Descrever o que ficou difícil, inclusive o esforço para manter as obrigações, ajuda a avaliar o quadro.2

A avaliação também investiga se houve fases de energia e atividade muito acima do habitual, com mudanças persistentes de comportamento. “Pensamento acelerado” isolado não confirma transtorno bipolar; é preciso entender o conjunto dos sintomas e seu curso ao longo da vida.5 Para quem já tem esse diagnóstico, a ansiedade no transtorno bipolar exige uma discussão própria.

Da mesma forma, inquietação, preocupação ou insônia isoladas não definem uma depressão com características mistas. Nessa apresentação, a investigação procura sintomas de mania ou hipomania presentes durante a depressão. Ansiedade e características mistas não são sinônimos.6

Qual problema tratar primeiro?

Quando a ansiedade acompanha o episódio depressivo, tratar a depressão costuma ser a prioridade inicial. Se há um transtorno ansioso coexistente, a prioridade considera a gravidade de cada quadro, o quanto limita a rotina e qual tratamento tem maior chance de melhorar o funcionamento no dia a dia. Riscos imediatos também mudam essa prioridade.1,7

Isso não exige esperar que todos os sintomas de um desapareçam para conversar sobre o outro. As consultas permitem rever a prioridade conforme a resposta, as dificuldades e as necessidades da pessoa.

Ter ansiedade junto da depressão também não determina que o tratamento vá falhar. Uma análise do estudo STAR*D encontrou remissão — sintomas depressivos mínimos ou ausentes — menos frequente e mais demorada entre participantes classificados como tendo depressão ansiosa por uma escala de sintomas.8 Já o estudo iSPOT-D encontrou pouca concordância entre duas definições de depressão ansiosa: nenhuma delas previu um resultado pior com antidepressivos, embora algumas medidas específicas de ansiedade tenham se associado a menor chance de remissão.4

Esses resultados mostram por que uma descrição genérica de “muita ansiedade” não permite prever a evolução de alguém. Vale esclarecer quais sintomas estão presentes e acompanhar como respondem ao cuidado.

Como o tratamento pode abordar os dois

Psicoterapia e medicamentos podem participar do tratamento, juntos ou separadamente, conforme o quadro, a intensidade das dificuldades, as preferências e a resposta a cuidados anteriores. Alguns antidepressivos têm evidência tanto para depressão quanto para determinados transtornos ansiosos. Isso não significa que qualquer antidepressivo tenha o mesmo papel em todas as situações, nem que dois diagnósticos exijam automaticamente dois medicamentos.3,7

Na terapia cognitivo-comportamental, os objetivos precisam corresponder ao que mantém o sofrimento e limita a rotina. Podem incluir examinar previsões negativas, reduzir comportamentos de evitação e retomar atividades. O trabalho é combinado com a pessoa e revisto a partir do que acontece entre as sessões.9

Por exemplo, voltar a encontrar amigos pode ser uma meta, mas interessa entender o que impede esse encontro: falta de interesse, medo do que pode acontecer ou ambos. Esse esclarecimento ajuda a selecionar o trabalho terapêutico. Os artigos sobre TCC para depressão e TCC para ansiedade generalizada detalham abordagens para essas dificuldades.

Também é necessário combinar como os resultados serão avaliados. Conseguir retomar uma tarefa importante, dormir com menos interrupções ou passar menos tempo preso às preocupações são mudanças que merecem ser discutidas, mesmo quando a melhora ainda é parcial.3,9

O humor melhorou, mas a ansiedade continua

Essa situação pede reavaliação, sem concluir imediatamente que o tratamento falhou. Pode haver sintomas ainda não resolvidos ou um transtorno ansioso que precisa de atenção específica. O sono, o consumo de cafeína ou outras substâncias e possíveis efeitos dos medicamentos também devem ser revistos.1,3,7

Considere uma situação hipotética: uma pessoa volta a cuidar da casa e a se interessar por atividades depois de uma fase depressiva, mas continua perdendo horas com preocupações sobre o trabalho. Na consulta, vale esclarecer se essa preocupação já existia antes da depressão, o que a desencadeia e quanto interfere na rotina.

Se a ansiedade aumentou depois de iniciar ou mudar um medicamento, conte ao prescritor quando isso aconteceu e o que mudou. Agitação intensa ou persistente merece contato mais cedo. Não aumente, reduza ou suspenda a medicação por conta própria.7

O que observar até a próxima consulta

Anotações breves sobre humor, preocupação, sono e atividades podem tornar a conversa mais precisa. Não é necessário registrar cada sensação: escolha mudanças que mostrem como a semana foi. Houve alguma tarefa retomada? A preocupação continuou impedindo uma decisão? Surgiu um efeito adverso que dificultou seguir o tratamento?2,9

Questionários de sintomas podem ajudar, mas a avaliação precisa incluir o que esses sintomas significam na vida cotidiana. Se você não consegue seguir alguma parte do plano, explicar a dificuldade permite ajustá-lo — seja pelo custo, pelos efeitos adversos, pelo esforço exigido ou por dúvidas sobre a proposta.7

Uma piora importante, agitação crescente ou pensamentos de autoagressão justificam antecipar o contato com a equipe. Diante de risco imediato de se ferir, procure atendimento de urgência ou ligue para o SAMU, 192. Não espere a consulta agendada nem uma resposta do canal comercial da clínica.1,10

Para a próxima avaliação, uma pergunta útil é: “O que já melhorou e o que ainda está me impedindo de viver como antes?”. Levar as duas partes da resposta ajuda a discutir o que precisa continuar e o que merece ser revisto.

Referências

1. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222 [Internet]. London: NICE; 2022 [citado 3 out 2026]. Disponível em: recomendações da NG222.

2. National Institute of Mental Health. Depression [Internet]. Bethesda: NIMH; 2024 [citado 3 out 2026]. Disponível em: material institucional sobre depressão.

3. National Institute of Mental Health. Generalized anxiety disorder: what you need to know [Internet]. Bethesda: NIMH; 2025 [citado 3 out 2026]. Disponível em: material institucional sobre ansiedade generalizada.

4. Braund TA, Palmer DM, Williams LM, Harris AWF. Characterising anxiety in major depressive disorder and its use in predicting antidepressant treatment outcome: an iSPOT-D report. Aust N Z J Psychiatry. 2019;53(8):782–93. doi:10.1177/0004867419835933.

5. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management. Clinical guideline CG185 [Internet]. London: NICE; 2014 [atualizado 2 set 2025; citado 3 out 2026]. Disponível em: recomendações da CG185.

6. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, Schaffer A, Bond DJ, Frey BN, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi:10.1111/bdi.12609.

7. National Institute for Health and Care Excellence. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management. Clinical guideline CG113 [Internet]. London: NICE; 2011 [atualizado 15 jun 2020; citado 3 out 2026]. Disponível em: recomendações da CG113.

8. Fava M, Rush AJ, Alpert JE, Balasubramani GK, Wisniewski SR, Carmin CN, et al. Difference in treatment outcome in outpatients with anxious versus nonanxious depression: a STAR*D report. Am J Psychiatry. 2008;165(3):342–51. doi:10.1176/appi.ajp.2007.06111868.

9. National Institute of Mental Health. Psychotherapies [Internet]. Bethesda: NIMH [citado 3 out 2026]. Disponível em: material institucional sobre psicoterapias.

10. Brasil. Ministério da Saúde. Serviço de Atendimento Móvel de Urgência — SAMU 192 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde [citado 3 out 2026]. Disponível em: SAMU 192.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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