Ansiedade no transtorno bipolar: o que muda na avaliação e no tratamento?

Postado em: 26/09/2026

Ilustração em recortes de papel com perfis humanos sobrepostos e linhas entrelaçadas.

É possível ter transtorno bipolar e também um transtorno de ansiedade. Mas a ansiedade pode aparecer durante um episódio de humor, sem representar um segundo diagnóstico. Entender quando ela começou, como evolui e o que acontece nos períodos de estabilidade ajuda a escolher o cuidado adequado.1

Para quem já trata a bipolaridade, a dúvida costuma ser prática: “Meu humor melhorou, mas continuo evitando situações e sofrendo por antecipação. Isso também pode ser tratado?”. Pode — e merece entrar no plano, em vez de ficar escondido atrás do diagnóstico principal.

Ansiedade significa que um episódio está começando?

Não necessariamente. O que chama a atenção é a mudança em relação ao funcionamento habitual, especialmente quando vêm junto alterações de sono, energia, atividade e comportamento. Durante a depressão bipolar, por exemplo, pode haver ansiedade; em outros momentos, inquietação e aceleração precisam ser avaliadas no conjunto do estado de humor.2

O sono ajuda a contar essa história. Passar a noite preocupado e ficar exausto no dia seguinte é diferente de dormir muito menos e continuar com energia incomum, falando mais ou assumindo muitos projetos. Essa diferença orienta perguntas, mas não resolve sozinha o diagnóstico. O artigo sobre sono e transtorno bipolar aprofunda esse ponto.2

Também vale olhar para os intervalos entre os episódios. Medos, crises ou preocupações que continuam interferindo na vida quando o humor está estável merecem avaliação própria. Na bipolaridade, podem coexistir quadros como transtorno de ansiedade generalizada, transtorno de pânico e ansiedade social.1

A consulta precisa de uma história, não apenas de uma nota de ansiedade

“Estou muito ansioso” informa a intensidade do sofrimento, mas deixa perguntas importantes em aberto. A avaliação considera o início dos sintomas, os episódios anteriores, os acontecimentos recentes, os medicamentos e o uso de álcool ou outras substâncias. Condições físicas e efeitos do tratamento também podem precisar de investigação.3

Imagine uma situação fictícia: uma pessoa com bipolaridade evita reuniões há meses por medo de ser julgada. Isso acontece mesmo quando está dormindo bem e trabalhando no ritmo habitual. Na última semana, porém, passou a dormir pouco, iniciar tarefas de madrugada e discutir mais. Ao contar apenas “minha ansiedade piorou”, ela reúne duas trajetórias que precisam ser examinadas: uma dificuldade persistente e uma mudança recente.

Uma forma simples de organizar o relato seria: “O medo de reunião já existia antes; o sono e o ritmo mudaram nesta semana”. Essa informação ajuda mais do que tentar decidir em casa a qual diagnóstico pertence cada sensação.

Relatos de alguém próximo, quando a pessoa concorda, podem complementar a história. A revisão CANMAT/ISBD de 2023 destaca o valor de investigar a trajetória do humor e, em situações selecionadas, acompanhá-la ao longo do tempo.4

Vale levar à consulta três informações:

  • O que permaneceu difícil mesmo nos períodos em que você se sentia estável.
  • O que mudou recentemente no sono, no ritmo ou no comportamento.
  • O que deixou de fazer por medo, preocupação ou crises de ansiedade.

Como tratar a ansiedade sem perder de vista o humor

O tratamento da ansiedade precisa ser compatível com a fase da bipolaridade. As recomendações CANMAT/ISBD dão prioridade à estabilização do humor antes de intervenções específicas para ansiedade e chamam atenção para o potencial de alguns antidepressivos desestabilizarem o quadro.1

Isso não significa deixar a ansiedade sem cuidado até alcançar uma estabilidade “perfeita”. A avaliação pode abordar ambos os problemas desde o início, com decisões de tratamento em momentos diferentes. O NICE recomenda oferecer cuidado para as condições coexistentes além do tratamento da bipolaridade, considerando possíveis interações.3

Na escolha das intervenções, entram a fase atual, a resposta a tratamentos anteriores e os efeitos indesejados. Uma opção útil durante a depressão não tem necessariamente o mesmo papel durante a mania ou na prevenção de novos episódios.4

Se você já usa um antidepressivo, leve essa dúvida ao prescritor; não o suspenda por conta própria. A decisão depende do seu histórico e do conjunto do tratamento.2

Onde a psicoterapia pode ajudar

A terapia cognitivo-comportamental está entre as opções recomendadas para trabalhar ansiedade na bipolaridade.1 O foco depende do que está mantendo o sofrimento. Quando existe ansiedade generalizada, por exemplo, o trabalho pode abordar preocupações persistentes, interpretações de ameaça e formas de reagir a elas.5

Os objetivos precisam ser reconhecíveis na vida da pessoa: conseguir participar de uma reunião importante, tomar uma decisão sem adiá-la repetidamente ou retomar uma atividade evitada.

No caso de bipolaridade, esse trabalho deve conversar com o acompanhamento do humor. A psicoterapia pode participar do cuidado, mas não substitui automaticamente o tratamento medicamentoso do transtorno.4

O que observar entre uma consulta e outra

Em vez de registrar cada pensamento, escolha com o profissional algumas mudanças relevantes. “Voltei a ir ao mercado, mas ainda evito transporte público” descreve melhor o progresso do que “melhorei um pouco”. Conte também se o sono mudou ou se surgiram efeitos incômodos após alguma alteração do tratamento.

Uma melhora da ansiedade deve ser considerada junto do funcionamento. Sentir-se mais tranquilo, mas passar o dia sonolento e deixar atividades essenciais de lado, é uma experiência que merece ser discutida. Da mesma forma, sentir menos medo enquanto dorme pouco e fica incomumente impulsivo é uma mudança que precisa entrar na avaliação do humor.3

Mudanças marcantes de sono, atividade ou comportamento justificam antecipar o contato com a equipe. Se houver risco imediato de se machucar, perda de contato com a realidade ou comportamento perigoso, procure um serviço de urgência.2

Para uma avaliação psiquiátrica na Genuine Mental Health, você não precisa chegar sabendo se o que sente é “da ansiedade” ou “da bipolaridade”. Levar a sequência dos acontecimentos e uma situação que gostaria de voltar a enfrentar já oferece um ponto de partida útil.

Referências

  1. Yatham LN, Kennedy SH, Parikh SV, et al. Canadian Network for Mood and Anxiety Treatments (CANMAT) and International Society for Bipolar Disorders (ISBD) 2018 guidelines for the management of patients with bipolar disorder. Bipolar Disord. 2018;20(2):97–170. doi:10.1111/bdi.12609. Seção sobre transtornos de ansiedade coexistentes.

2. National Institute of Mental Health. Bipolar disorder. Revisado em 2025. Acesso em: 25 set. 2026.

3. National Institute for Health and Care Excellence. Bipolar disorder: assessment and management — CG185. 2014. Recomendações sobre avaliação, condições coexistentes e acompanhamento. Acesso em: 25 set. 2026.

4. Keramatian K, Chithra NK, Yatham LN. The CANMAT and ISBD guidelines for the treatment of bipolar disorder: summary and a 2023 update of evidence. Focus (Am Psychiatr Publ). 2023;21(4):344–353. doi:10.1176/appi.focus.20230009.

5. National Institute of Mental Health. Generalized anxiety disorder: what you need to know. Acesso em: 25 set. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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