Depressão sazonal: quando a piora em certas épocas do ano merece investigação

Postado em: 04/10/2026

Homem de cabelo branco aponta marcações semelhantes em dois calendários num painel de cortiça.

Na depressão sazonal, os episódios depressivos tendem a começar e terminar em épocas características do ano. Para reconhecer esse padrão, o psiquiatra precisa olhar a história dos episódios, a intensidade dos sintomas e o que aconteceu entre eles. Sentir-se pior em alguns dias nublados, por si só, não caracteriza depressão sazonal.1

Como se reconhece um padrão sazonal?

A avaliação procura episódios de depressão: períodos com sintomas persistentes, como tristeza ou perda de interesse, acompanhados de mudanças no sono, no apetite, na energia ou na concentração e de prejuízo na vida cotidiana. Depois, examina se o início e a recuperação costumam se relacionar às mesmas épocas do ano.1

Para caracterizar o padrão, a história precisa mostrar essa repetição por pelo menos dois anos consecutivos e predominância dos episódios sazonais sobre os que ocorreram em outras épocas. Ninguém precisa esperar dois anos para procurar ajuda. Esse período serve à descrição do curso da doença, não define quando o sofrimento passa a merecer cuidado.1

Lembrar apenas do mês em que a situação ficou insuportável pode deixar de fora semanas de piora anterior. Datas aproximadas, observações de familiares e registros de tratamentos ajudam a reconstruir quando cada fase realmente começou e terminou.

É sempre no inverno?

O padrão de inverno é o mais estudado, mas também existe depressão com padrão de verão, sobre a qual se sabe menos. No inverno, podem aparecer sono prolongado, aumento de apetite e afastamento social; no verão, insônia, perda de apetite e agitação podem ser mais marcantes. Esses sinais não precisam estar todos presentes e não confirmam o diagnóstico isoladamente.1

As pesquisas centrais deste artigo foram realizadas em países do hemisfério norte. Seus meses e suas condições de luz não devem ser transferidos diretamente para o Brasil. Também não basta atribuir a piora ao frio: a relação entre luminosidade, ritmos diários e humor é mais complexa e ainda está em investigação.1

A luz participa da organização do relógio biológico. Essa relação ajuda a compreender uma das hipóteses envolvidas no padrão sazonal, mas não permite concluir, apenas pela época da piora, qual foi sua causa.

O que mais pode explicar uma piora que se repete no calendário?

Algumas dificuldades voltam na mesma época sem constituir um padrão sazonal de depressão. Um período de maior sobrecarga no trabalho, mudanças previsíveis na rotina familiar ou o aniversário de uma perda podem produzir sofrimento recorrente. É preciso examinar o contexto e não presumir que a coincidência com uma estação demonstre efeito da luminosidade.1

Mudanças de sono e rotina também entram nessa reconstrução. Importa saber se a pessoa passou a trabalhar em outro horário, reduziu atividades e contatos ou mudou de cidade ou país. Essas informações ajudam a interpretar a sequência, sem determinar sozinhas um diagnóstico.

O psiquiatra investiga ainda possíveis períodos de mania ou hipomania. O padrão sazonal também pode ocorrer no transtorno bipolar, e identificar essa história modifica o raciocínio sobre tratamento. A fototerapia na depressão bipolar exige uma discussão própria; os resultados de depressão sazonal unipolar apresentados a seguir não devem ser automaticamente aplicados à bipolaridade.1

O que os tratamentos podem oferecer?

Psicoterapia, medicamentos e, em situações selecionadas, fototerapia podem fazer parte do cuidado. A escolha considera o diagnóstico, a gravidade, o histórico de resposta e as condições de realizar e acompanhar o tratamento.1

A terapia cognitivo-comportamental adaptada para depressão sazonal trabalha pensamentos ligados à época do ano e a redução das atividades. Pode ajudar a examinar expectativas de que os próximos meses serão inevitavelmente ruins e a planejar formas viáveis de manter atividades que a depressão tende a interromper.2

Em um ensaio com 177 adultos com depressão maior recorrente de padrão sazonal de inverno, seis semanas de TCC adaptada foram comparadas à fototerapia. Pela escala SIGH-SAD, atingiram remissão 47,6% com TCC e 47,2% com fototerapia: 40 de 84 e 42 de 89 participantes com dados disponíveis. Remissão significava ficar abaixo dos limites de sintomas definidos pelo estudo. Não houve diferença estatisticamente significativa entre os grupos; isso não comprova equivalência dos tratamentos para qualquer pessoa.2

A diretriz britânica do NICE recomenda informar a incerteza sobre a eficácia da fototerapia a quem tem depressão de inverno e deseja escolhê-la em preferência a antidepressivos ou tratamento psicológico. Há resultados favoráveis, mas não um consenso que elimine essa incerteza.3

O uso terapêutico de luz precisa ser avaliado, inclusive diante de doenças oculares ou medicamentos que aumentem a sensibilidade à luz. Escolher e utilizar um aparelho por conta própria não substitui essa avaliação. A suplementação de vitamina D também não é uma solução geral: os resultados dos estudos são mistos.1

É possível se preparar antes da época de piora?

Reconhecer a repetição permite discutir o acompanhamento antes do período em que os sintomas costumam aparecer. O que foi útil no episódio anterior, o que pôde ser mantido e quais foram os primeiros sinais de piora ajudam nesse planejamento.1

Os 177 participantes do ensaio de TCC e fototerapia foram acompanhados nos dois invernos seguintes. No primeiro, não houve diferença significativa entre os grupos. No segundo, a recorrência estimada foi de 27,3% no grupo inicialmente tratado com TCC e 45,6% no de fototerapia, segundo os critérios da pesquisa. É o seguimento da mesma amostra, e não um segundo ensaio independente.4

A continuidade do tratamento faz diferença na interpretação: apenas cerca de um terço do grupo originalmente destinado à luz relatou utilizá-la nos seguimentos. O resultado favoreceu a estratégia de TCC nas condições do estudo; não estabelece superioridade universal sobre fototerapia mantida adequadamente nem garante prevenção individual.4

Três ensaios com 1.042 participantes que ainda estavam bem, nos Estados Unidos e no Canadá, estudaram bupropiona XL iniciada antes da piora habitual de inverno. As recorrências com medicamento e placebo foram, respectivamente, 19% e 30%; 13% e 21%; e 16% e 31% nos três estudos.5

Esses achados dizem respeito à prevenção de episódios de inverno nessa população. Não são resultados de tratamento de um episódio em curso, de depressão de verão ou de depressão bipolar. Também não confirmam uma indicação específica em bula brasileira nem autorizam começar o medicamento por conta própria.5

O que levar à avaliação?

Um registro simples pode ajudar a consulta, sem funcionar como teste diagnóstico:

O que reconstruir Informação útil
Início e término das fases Épocas aproximadas em que começou a piora e em que recuperou o funcionamento
Sintomas e impacto Mudanças no humor, interesse, sono e apetite; compromissos ou cuidados que deixou de manter
Contexto Alterações de rotina, trabalho, local de moradia e acontecimentos recorrentes
Tratamentos e outras fases O que foi usado, o que ajudou e se houve períodos de aceleração ou menor necessidade de dormir

Se há sofrimento importante ou dificuldade de funcionar, procure avaliação sem esperar a estação passar. Em caso de risco imediato de autoagressão, busque um serviço de urgência ou acione o SAMU pelo 192. O CVV, no 188, oferece apoio emocional e não substitui atendimento de emergência.6

Referências

  1. National Institute of Mental Health. Seasonal Affective Disorder. Bethesda: NIMH; 2023. Consultado em 4 out. 2026.
  2. Rohan KJ, Mahon JN, Evans M, Ho SY, Meyerhoff J, Postolache TT, et al. Randomized Trial of Cognitive-Behavioral Therapy vs. Light Therapy for Seasonal Affective Disorder: Acute Outcomes. Am J Psychiatry. 2015;172(9):862–869. doi:10.1176/appi.ajp.2015.14101293.
  3. National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management. NICE guideline NG222. London: NICE; 2022. Recomendação 1.4.39, mantida a partir de 2009. Consultada em 4 out. 2026.
  4. Rohan KJ, Meyerhoff J, Ho SY, Evans M, Postolache TT, Vacek PM. Outcomes One and Two Winters Following Cognitive-Behavioral Therapy or Light Therapy for Seasonal Affective Disorder. Am J Psychiatry. 2016;173(3):244–251. doi:10.1176/appi.ajp.2015.15060773.
  5. Modell JG, Rosenthal NE, Harriett AE, Krishen A, Asgharian A, Foster VJ, et al. Seasonal affective disorder and its prevention by anticipatory treatment with bupropion XL. Biol Psychiatry. 2005;58(8):658–667. doi:10.1016/j.biopsych.2005.07.021.
  6. Brasil. Ministério da Saúde. Suicídio (Prevenção). Brasília: Ministério da Saúde. Consultado em 4 out. 2026.

INFORMAÇÕES DO AUTOR:

Dr. Rogério Onofre
Dr. Rogério Onofre

CRM-SP: 192.427
RQE: 109.401

Dr. Rogério Onofre é médico psiquiatra em São Paulo, com CRM-SP 192.427 e RQE 109.401. Atua na Genuine Mental Health com avaliação e tratamento individualizado de transtornos mentais, incluindo quadros complexos e resistentes.


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