Fototerapia na depressão bipolar: como funciona e quando pode ser considerada?

Postado em: 03/10/2026

Painel de fototerapia com luz branca sobre uma mesa, próximo a uma janela.

A fototerapia com luz brilhante pode ser considerada como complemento do tratamento da fase depressiva do transtorno bipolar. Há estudos que mostram benefício, mas a indicação exige avaliar o estado do humor, o tratamento em uso e o risco de ativação, como o aparecimento de hipomania ou mania.1

Ela utiliza um equipamento próprio para exposição à luz, com condições de aplicação definidas clinicamente. Não equivale a uma orientação para tomar sol, usar uma lâmpada comum ou fazer bronzeamento. Também não substitui o tratamento de base da bipolaridade.1

Como a luz se relaciona com o humor?

A luz ajuda a sincronizar os ritmos biológicos com o ambiente. Esses ritmos participam da organização do sono, da vigília e de outras funções que se distribuem ao longo do dia. No transtorno bipolar, sono, ritmos e humor podem influenciar uns aos outros.2

Essa relação oferece uma base para estudar intervenções com luz. Não significa que toda depressão bipolar resulte de falta de luz ou que aumentar a iluminação resolva o episódio. O efeito depende da intervenção e da situação clínica. Saber como a luz influencia os ritmos biológicos não permite prever quem vai melhorar com a fototerapia.1,2

O artigo sobre ritmo circadiano e relógio biológico aprofunda como esses sinais do ambiente se relacionam com os horários do organismo.

É o mesmo que regular a rotina?

Não. Organizar horários de sono e atividades é parte do cuidado com os ritmos diários. A fototerapia é uma intervenção específica, com equipamento, indicação e acompanhamento próprios.2

Também é diferente da terapia interpessoal e do ritmo social, conhecida pela sigla IPSRT. Nessa psicoterapia, a pessoa trabalha dificuldades nos relacionamentos e aprende a reconhecer acontecimentos que desorganizam sua rotina, buscando horários mais regulares.2

Uma pessoa que precisa reorganizar seus horários não tem, por esse motivo, indicação automática de fototerapia. A leitura sobre ritmos, depressão e bipolaridade ajuda a compreender o papel da rotina sem confundir as abordagens.

O que os estudos mostram na fase depressiva?

Um ensaio publicado em 2018 avaliou 46 adultos com transtorno bipolar I ou II que estavam deprimidos e já recebiam medicação antimaníaca estável. Os participantes foram distribuídos entre luz branca brilhante e uma luz de controle. Entre os 40 avaliados da quarta à sexta semana, atingiram remissão — um nível mínimo de sintomas pelo critério do estudo — 15 de 22 pessoas com luz ativa (68,2%) e 4 de 18 com luz de controle (22,2%). Essa diferença foi estatisticamente significativa. A pontuação média de depressão ao final também favoreceu a luz ativa.3

A resposta, definida como redução de pelo menos 50% na pontuação de sintomas, ocorreu em 72,7% do grupo com luz ativa e em 50,0% do grupo de controle. Nesse desfecho secundário, a diferença não foi estatisticamente significativa.3

O estudo investigou um benefício adicional ao tratamento em uso. Não testou abandonar os medicamentos nem usar luz sem acompanhamento. Pessoas com episódios recentes de mania, hipomania ou características mistas e com ciclagem rápida foram excluídas. A seleção dos participantes importa para interpretar o resultado.3

Não ocorreram viradas do humor nesse ensaio, mas uma amostra pequena sem esses eventos não demonstra risco zero. Em outra pesquisa, o estudo LuBi, publicado em 2025, dois dos 34 participantes analisados apresentaram virada hipomaníaca. Também foram observados sinais de ativação que não chegaram a preencher todos os critérios de um episódio.3,4

O LuBi comparou formas de administrar a fototerapia, com foco principal na tolerabilidade e no risco de ativação. Os participantes melhoraram ao longo do estudo, mas essa etapa não teve um grupo que recebesse apenas luz placebo para comparação. Por isso, essa melhora isoladamente não demonstra a vantagem do tratamento sobre o placebo.4

O que precisa ser avaliado antes da indicação?

A consulta precisa esclarecer se o quadro atual é um episódio depressivo e se há sinais de ativação. Isso inclui investigar mania ou hipomania atual ou recente, características mistas — sintomas depressivos acompanhados de sintomas do outro polo — e presença de ciclagem rápida.1

As recomendações da Sociedade Internacional de Transtornos Bipolares (ISBD) classificam essas situações como contraindicações à fototerapia. A avaliação de sua presença cabe ao profissional que acompanha o caso. As recomendações também enfatizam o tratamento que protege contra mania, especialmente no transtorno bipolar I, e o acompanhamento por profissional capacitado.1

A avaliação inclui doenças oculares, mudanças na visão e medicamentos que aumentem a sensibilidade à luz. Dependendo da história, pode ser necessária avaliação oftalmológica antes de iniciar. Leve a lista completa dos medicamentos e informe problemas nos olhos, mesmo que pareçam não ter relação com o humor.1

Quais mudanças devem ser comunicadas durante o tratamento?

Dormir muito menos sem sentir cansaço, ficar mais acelerado, irritável ou impulsivo são mudanças que merecem contato com a equipe. Recuperar energia pode fazer parte da melhora da depressão; uma alteração incomum da necessidade de sono e do comportamento precisa ser avaliada no contexto do transtorno bipolar.1

Também podem ocorrer dor de cabeça, desconforto ocular ou agitação. O acompanhamento serve para reconhecer essas dificuldades e decidir se o plano precisa mudar. A pessoa deve saber, desde o início, como comunicar sintomas novos e quem fará essa avaliação.1

Não aumente a exposição para tentar acelerar a melhora nem altere o tratamento de base por conta própria. A forma de aplicação influencia tanto a tolerabilidade quanto o resultado; receber luz por mais tempo não é uma solução automática para uma resposta insuficiente.1,2

E depois que a depressão melhora?

Melhorar um episódio e prevenir novos episódios são perguntas diferentes. As recomendações de continuidade da fototerapia incluem consenso de especialistas, pois ainda faltam ensaios prolongados que definam sua capacidade de prevenir recaídas no transtorno bipolar.1

Ao discutir a proposta, vale esclarecer qual será o objetivo, como serão acompanhados os sintomas e em que momento a necessidade de continuar será reavaliada.

O guia sobre tratamento da depressão bipolar apresenta o conjunto de estratégias em que essa conversa se insere. Na avaliação psiquiátrica na Genuine Mental Health, leve suas dúvidas e descreva como o sono, a energia e o comportamento vêm mudando.

Referências

  1. Geoffroy PA, Palagini L, Henriksen TEG, Bourgin P, Garbazza C, Gronfier C, et al. Light therapy for bipolar disorders: clinical recommendations from the International Society for Bipolar Disorders (ISBD) Chronobiology and Chronotherapy Task Force. Dialogues Clin Neurosci. 2025;27(1):249–264. doi:10.1080/19585969.2025.2533806.
  2. Crouse JJ, Loblay V, Jorm A, Wong TR, de Haan Z, Gorban C, et al. Essential information about chronobiology and chronotherapy for the optimal care of people with bipolar disorders: an expert consensus. Bipolar Disord. 2026;28(5):e70141. doi:10.1111/bdi.70141.
  3. Sit DK, McGowan J, Wiltrout C, Diler RS, Dills JJ, Luther J, et al. Adjunctive bright light therapy for bipolar depression: a randomized double-blind placebo-controlled trial. Am J Psychiatry. 2018;175(2):131–139. doi:10.1176/appi.ajp.2017.16101200.
  4. Geoffroy PA, Chevret S, Mauries S, Chaffaut C, Amad A, Bellivier F, et al. Bright light therapy in the morning or midday for the treatment of nonseasonal depression in bipolar disorder (LuBi): a dose-escalation phase 1/2 randomized double-blind trial. J Clin Psychiatry. 2025;86(3):25m15826. doi:10.4088/JCP.25m15826.

INFORMAÇÕES DA AUTORA:

Dra. Giuliana Cividanes

CRM-SP: 85.732
RQE: 64.142

Médica psiquiatra formada em 1995, com residência médica em Psiquiatria na Irmandade da Santa Casa de São Paulo (1996–1998). É especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria e mestre em Psiquiatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), com formação em Terapia Cognitivo-Comportamental certificada pelo Instituto Beck.

Atuou por quase duas décadas na UNIFESP, integrando pesquisas clínicas sobre transtornos de humor, ansiedade e atendimento a vítimas de violência. Possui diversas publicações científicas no Brasil e no exterior e foi consultora científica em psicofarmacologia por mais de 20 anos, acumulando profundo conhecimento em medicamentos psiquiátricos.

De 2002 a 2016, atuou como médica assistente no Hospital Israelita Albert Einstein. É membro da American Psychiatric Association e idealizadora da clínica Genuine Mental Health, onde coordena o atendimento de casos complexos e refratários, como depressão resistente e transtornos de difícil manejo, com protocolos modernos, éticos e individualizados.


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